domingo, 29 de junho de 2008

Pra você viver mais

Hoje, sentada naquela cadeira dura, branca e fria que você já sentou milhões de vezes, eu senti que tive um daqueles momentos. Pra guardar, pra intuir, pra sempre. Não porque seja um momento formal, algum clichê, trecho de livro importante ou grande evento de qualquer coisa. Mas porque trouxe algo que você sabe que vai ficar contigo a vida inteira. Enquanto pro resto dos mortais significou só algum tempo de um dia dentre tantos outros dias.

Hoje virou o jogo do tempo e da vida dentro da minha alma de criança.

Hoje, você sentiu dor. Você, que nunca sente dor, muito menos consente que alguém atue no seu papel. Hoje eu pude visualizar você em suas longas noites de preocupação enquanto eu só me importava com algum menino da escola ou em parecer bonita. Hoje eu pude ver você pedindo pra Deus não deixar acontecer nada comigo. Hoje eu pude voltar ao passado e entender porque você nunca deixava de saber onde eu estava, com quem eu estava, porque eu estava e quando estaria.

Você sempre quis meu bem. Mas não é só isso. É muito além disso. É o que impede de deixar livre pro acaso fazer seu trabalho. É o medo de perder pra vida.

Hoje, eu entendi porquê em tantas outras situações piores, eu ainda não havia me sentido dessa maneira. Porque antes, você estava no controle. Mesmo sofrendo. E eu, eu achava que você era o super-herói que pensava que sabia tudo em sua eterna teimosia. E eu caía nessa como uma criança rebelde manipulada.

Hoje, você me causou um nó ao te ver sentir dor e eu me preocupei. Porque eu continuo sendo uma criança, mas eu não sou mais rebelde. E então eu me permití ser você.

Hoje, eu quis que você vivesse mais noventa anos, pra eu poder te dar tudo o que você me deu. Meu instinto diz que ainda seria pouco. Mas o medo de perder pra vida faz a gente virar mãe e esquecer de ser filha.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

"Nascemos príncipes, e a educação faz de nós sapos".

Hoje estou aqui pra falar uma coisa bem séria pra alguém bem sério. Sendo mais específica, estou aqui hoje pra mandar ir se foder essa coisa séria. Essa coisa séria chamada (ARGH!): Maturidade!

Hoje estou aqui pra mandar a tal da "Maturidade" se foder. Estou aqui para mandar a tal da "Maturidade" tomar em seu cú velho e responsável.

O povo às vezes confunde maturidade com ser sem graça e "adultinho". O que porra é ser "adultinho"? O que porra é ter "maturidade"?

Olha vou contar um caso aqui e não vou citar nomes porque não quero ninguém enchendo meu saco depois.
Eu tinha um melhor amigo, daqueles melhores mesmo. Daqueles que a gente liga quando está atravessando uma rua pra dizer que está vendo uma mulher engraçada atravessá-la. Daqueles amigos que ficam até 1 hora da manhã com você ao telefone, falando besteira e contando piada, mesmo que tenha que acordar às 5 no dia seguinte.
Daqueles amigos que a gente abraça e beija na boca, sabe. Daqueles amigos que a gente liga chorando porque acha que está grávida do ficante que mal conhecia só porque a menstruação atrasou dois dias.
É, ele era esse amigo. Esse "cara legal" que toda mulher precisa ter em sua vida pelo menos uma vez.
Aí um dia o amigo, que era crente, conheceu uma mocinha de 35 anos, também crente, mas diferente dele, ela era virgem. E aí esse amigo foi me deixando pra lá, porque agora era tudo a crente, a crente, a crente. (Ciúmes meeeesmo, assumo!)
E eu fiquei puta mesmo, fiquei com raiva. Deixava mensagens no orkut dele só pra crente morrer de ciúmes, ligava pra ele quando eu sabia que a crente tava do lado. E a crente pegou birra de mim e dizia que eu era "atrevida!".
Atrevida, eeeeeeuuuu?
Qualquer um pra uma crente é atrevido se mostra mais do que as canelas e não tem bigode.
O tempo passou, muita coisa aconteceu, eu descolei um namorado e 2 anos depois, quando eu já tinha terminado com esse namorado, eu soube que meu super hiper melhor amigo casou-se com a crente.
"Como é que ele pôde se casar com a crente?" - gente, eu realmente pensei isso porque não é possível que ele se divertia com aquela crente mais do que se divertia comigo.
Mas aí é que entra o lance da maturidade. A crente é sebosa, feia, quadrada e flácida, mas tem maturidade!
E esses dias eu perguntei pra ele "Me responde uma coisa inconveniente e sincera? Quando você olha pra ela, você ainda olha com aquele olhar de apaixonado e pensa: Puts! Ela é a mulher da minha vida?".
E ele me respondeu docemente via MSN: "Tha...isso é paixão. Paixão acaba!! O que eu sinto por ela é amor. Casei com ela porque pensei: Ela é uma pessoa madura e legal o suficiente para passar a vida ao meu lado."
Foi aí que eu quis vomitar, e foi aí que eu realmente resolvi aceitar que eu sempre tive raiva do amor, que é insosso e sem graça. Foi aí que resolvi engolir a minha verdade, que eu que sempre escrevi sobre o amor, na verdade sou amante da paixão, intensa e sem limites, não do amor, que tranquiliza e dá paz. Paz é o caralho.
Não vejo sentido em viver tranquila com o coração em paz. Quero viver meus dias apaixonada com o coração queimando em brasa.
Eu não consigo entender porque alguém casa com alguém só porque a pessoa é madura e legal. Porra! É alguém que você quer ter pra vida inteira, e a pessoa SÓ é legal e madura?
Ele ficou 2 anos com ela, deveria pelo menos ainda estar loucamente apaixonado!
Eu realmente não penso em casamento, mas se um dia eu cometer essa infâmia, precisa ser pelo menos com o cara mais espetacular do mundo, que me faça rir, que me faça rir muito, que seja louco por mim, que me olhe com olhar de apaixonado todos os dias, que seja inteligente e incrível! E não me venham dizer que isso não existe porque existe SIM! E se não existir no meu caso, prefiro continuar solteira.
Maturidade é uma coisa, gente, mas viver com cara de cú como um adulto chato e responsável e com bigodes é outra.
Tem gente que confunde maturidade com ser sério, cansado e neurótico. Se for assim, quero morrer criança. Que graça deve ter casar com uma mulher que não faz birra, que não faz manha, que não fala besteiras, que não pede colo, que não faz dar risada, que não é serelepe?
Eu sou MUITO serelepe! E se eu tiver um marido eu também quero que ele seja MUITO serelepe, para que juntos possamos fazer coisas que até deus duvida.

Esse lance de "maturidade" deixa as pessoas mais chatas. Tenho uma amiga que antes era a serelepância em si, mas aí o tempo passou, ela descolou um emprego show, um carro, um namorado e...não é mais serelepe! Ela só ri das coisas que eu faço, mas fazer junto comigo não porque ela já é uma adultinha.

Quando as pessoas atingem a porra da "maturidade" elas evitam ser ridículas, evitam dar vexames, evitam correr em todas as direções, evitam abraçar o mundo e divertem-se falando coisinhas engraçadinhas no happy hour da empresa enquanto tomam um "drink" e comem uns petiscos. Elas evitam abraçar o mundo, elas evitam viver!

Sou ridícula, infantil e criançona glo-glo-glo, blu-blu-blu. Porque eu estou viva! Porque eu quero ser criança pra sempre! Meu tempo de ser ridícula é agora! E os adultos acham tudo, tudo ridículo mas são mais ridículos ainda porque abafam suas vontades e opiniões com medo de estragar a postura!

Conheci um cara muito especial que mora na minha rua mas por algum motivo não falo mais com ele, ele deve estar hoje com uns 55 anos ou mais, e é o cara mais crianção que já conheci. O cara mais sábio e mais crianção que já conheci.
Quando eu era pequenininha, ele me dizia: Thaisinha. Você é uma menina especial. Não queira ser adulta não! Ser adulto é uma bosta! Adulto é um bicho ruim.
E o Wagner era criança adulta. Adorava animais, brincava com as crianças na rua e as tratava como pessoas inteligentes que são, não como cachorrinhos estúpidos e fofinhos que não entendem nada do que a gente fala. Comia fruta do pé, tomava banho de chuva, beijava cachorrinhos filhotes na boca! Amei demais aquele cara. Ele com seus 40 e poucos anos na época, olhos azuis, cabelo louro acinzentado preso num rabo de cavalo, barba por fazer (ele sempre foi lindo demais.) e eu, como meus 9 ou 10 anos, tropeçando, ralando os joelhos na rua e deixando recadinhos de amor para ele na poeira do vidro da kombi amarela que ele tem até hoje, onde está escrito na parte de trás com tinta preta: "Nascemos príncipes e a educação faz de nós sapos".

Hoje eu sei o que ele quer dizer. E hoje vejo que eu e ele sempre tivemos quase tudo em comum.
Wagner, você é um cara especial. Às vezes a gente se cruza na rua e mal se olha...e eu nem lembro o porquê. A única coisa que sei é que você é a criança grande mais linda que eu já conheci.
A única coisa que sei Wagner, é que de tão criança que você é, você acaba sendo maior do que todos os adultos. E a única coisa que eu queria era voltar a falar com você, mas meu orgulho besta da adulta ridícula que ainda tenta sobreviver dentro de mim (mesmo que eu queira matá-la todos os dias), não me permite.

Sejamos serelepes, sejamos crianças.
Pelo amor de Deus, chega de mentira. Que saco!
Sejamos vivos!

domingo, 15 de junho de 2008

O exagero é uma verdade que perdeu a calma

(Danoninho, leite condensado, bombom, chocolate em barras de 200g, cheetos fedido, amendoinzinhos, balinhas de canela, de iogurte, juquinha, sete-belo, guarda-chuvinha de chocolate que parece manteiga, dadinho, papinhas de neném, batata-frita com catchup, miojo, ana-maria, haagen dazs, pão-de-mel, negresco, bono, passatempo, mini hot-dogs, pizza, chiclete que deixa a boca azul, pirulito que voa, que acende luzinha, empanados de frango que não parecem frango, sorvetes de palito com Ipod, bolos prontos, muffin da mônica, das superpoderosas, yakult, sequilhos, rosquinhas de coco, BIS, sufflair, algodão doce, chup chup de doce de leite, sucrilhos que desperta o tigre gordo em você, lancy, milka, alpino, ninho soleil, fandangos, cebolitos, baconzitos, palitinhos de chocolate, dan-top, marrom-glacê, goiabada, moça fiesta, batatas com cheddar e catupiry, torta de limão, cigarritos de chocolate, flan, espetinho de fruta com chocolate, hambúrguer)

Oi gente... (levantando com cara de vergonha misturada com um pouco de fome), eu vim aqui para confessar uma coisa... (música de suspense ON).. sou viciada em...em... em...CAR... BOIDRATOS (musiquinha OFF).

Já faz algum tempo. Assim, uns 21 anos. Até os seis, mamãe decidia o que eu comia. Já nessa idade ela colocava maisena para engrossar as papinhas, porque claro, leite da mamãe é muito magro para uma criança que tinha como destino o meu. Logo que eu já podia decidir o que comer, escolhia logo as coisas mais apetitosas do cardápio, enquanto todas as minhas amiguinhas já queriam parecer com a Barbie. Eu sempre pareci mais a Pequena Miss Sunshine. Pequena mais ou menos, né? Todo mundo sempre achou que eu era repetente por causa do meu tamanho.

Meus pais nunca foram fãs de exercício físico. Mas não, eu não os culpo pela minha preguiça de suar muito e comer direito. Eu até superei isto em algumas fases da vida, com a ajuda do espelho e da balança.

Meu vício em melecas é potencializado pelas propagandas de comida. Aliás, na mesma página de internet, a gente encontra as melhores receitas de fondue do lado das mulheres mais espetacularmente saradas de todos os tempos. Gente, assim eu fico confusa. E quando eu fico confusa eu fico ansiosa. E quando eu fico ansiosa eu apelo pras melequeiras comestíveis. É tudo um ciclo!

Na empresa, a tiazinha da lanchonete disse que eu, dentre as 600 pessoas da sede em Cotia, sou a única que consome Cheetos bolinha. Numa churrascaria, já fiquei conhecida como "o preju". Os amigos já sabem que eu sou a melhor companhia para orgias gastronômicas. Meu colesterol já andou balangando. O médico já avisou que comer um brócolis e cinco pedaços de torta de maçã não ia adiantar. Fast food devia exigir certificado de índice de massa corporal abaixo da média pra poder ser vendido.

Eu podia estar matando e roubando pra sustentar o meu vício, gente. Alguém tem M&Ms aí? Aaaaaargh!! Preciso parar!

Mas, muita calma. Um dia por vez, não é assim que vocês dizem? Por favor, só vocês podem me ajudar, vocês me ajudam, ajudam?

Eu ADORO vocês, viciados em comida orgânica!!!!!

sábado, 31 de maio de 2008

Da série Contos Quentes e Estranhos

Henrique era o que se podia chamar de fodão. Adolescente bebedor, primeiro da turma a fumar maconha e a ter trazido a polícia pro colégio. Provocava todo o tipo de gente diferente dele e dos seus clones, desde a menina das orelhas grandes, até o menino nerd cabeçudo que sentava na frente e gostava da Silvinha. Que já tinha mostrado os peitos pro Henrique. Ninguém sabia, mas Henrique guardava um segredo: era um ejaculador precoce.

A primeira desculpa oficial foi a bebedeira do primeiro colegial, quando depois da festa mal encostou a mão na bunda da Letícia, mal levantou a blusa dela, e... . Henrique era macho, muito macho. Contou pra todos os amigos como a bocetinha dela era quente e apertadinha. Era isso que ele ouvia os caras dos filmes pornôs dizerem, não ia errar.

Até os 28 anos, Henrique só se metia em relacionamentos que duravam no máximo três semanas, trepava com as recém-saídas de cursinhos que não se preocupavam muito em querer gozar, e sim com a sua Pajero nova. Ainda era o fodão. Na multinacional de softwares onde trabalhava, acabava de receber uma promoção, às custas de muito whisky, charuto e putaria patrocinados para o cliente. Um sucesso de carreira.

Henrique focava nas estagiárias mais novinhas, mas nunca tinha se permitido um deslize. Uma delas, Patricia, se apaixonou perdidamente por ele, entendendo como respeito e dignidade ele não ter passado dos beijos. Estranhamente, ouviu da sua amiga que o boato nos corredores era o de sexo no estacionamento, não de beijinhos inocentes. Não importava, porque Patricia ansiava pelo dia em que ele iria levá-la para um motel chique, beijar e chupar seu corpo todo, penetrá-la por horas e horas até ela gozar umas cinco vezes. E eles teriam um relacionamento perfeito.

Mal sabia ela que Henrique, toda noite ao se masturbar, imaginava a gerente de marketing, a diretora do financeiro, a VP de tecnologia, todas mulheres maduras e experientes, revezando entre chupar, sentar no seu pau e elogiar sua ótima performance. Tempo ilimitado de sexo perfeito. O único problema era que, depois de gozar e dormir, Henrique tinha sempre o mesmo pesadelo: A Silvinha, a menina orelhuda, as três gostosas da empresa, a Letícia e a Patrícia de pernas abertas para o nerd cabeçudo, praticavam sexo tântrico, trepando a noite inteira e rindo infinitamente dos dois minutos de cócegas que ele havia proporcionado a todas elas.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Uma história sobre buracos negros, estrelas e cachorros bravos.

(...) Deus, não sei mesmo o que é você direito, não sei se é homem, mulher, se é rosa, se é azul, se tem cor, se tem cheiro, se usa sandálias ou se parece um mingau, um ser humano ou uma gelatina. A única coisa que eu sei é que você existe e que as pessoas costumam te pedir coisas. Talvez pedir as coisas para você seja um erro, talvez seja uma idiotice de humanos carentes que precisam se apegar a algo para que não se atirem de uma ponte.

E talvez eu esteja cometendo uma tremenda insanidade agora, mas a questão é que se você realmente atende a alguns pedidos (não sei se você usa os métodos de sorteio ou sei lá) eu te peço uma coisa: Se você puder atender a esse meu pedido, não permita que eu escute aquela pergunta de novo de outra pessoa. De coração mesmo! Isso enche o saco! Não quero encontrar outra pessoa cujos olhos me fazem a mesma pergunta, ainda que não verbalmente! Isso realmente é um atraso de vida.Pronto! Pedido feito.

Quando eu era pequena minha mãe falava que as pessoas que riam de mim na escola tinham inveja de mim.
E eu falava: inveja do que, mãe? Eu não tenho nada de especial.Aí a gente cresce e vê que no mundo pouquíssimas pessoas são especiais. Porque o máximo que elas fazem hoje em dia é serem legais e falarem as coisas com veemência para provarem que têm personalidade, mas como dizia Nietzsche (vou parar com essa idiotice de citar filósofos porque dá um ar cult que eu não tenho), a pior inimiga da verdade não é a mentira, e sim a convicção (ou algo assim). Em todas as pessoas super legais que conheci, acabei descobrindo em pequenas atitudes menosprezadas pelos outros, falhas de caráter gigantescas! Isso só nós duas entendemos...conhecemos muito de uma pessoa pelo simples jeito de ela respirar quando fala uma palavra. Percebemos grandes buracos negros dentro do coração de uma pessoa pelo simples jeito de ela movimentar os olhos quando diz uma palavra sequer.

Detalhes que mostram falhas tremendas de caráter.E neste caso, não posso dizer que eu não sabia. Eu sabia.Não fui enganada 100%. Eu que me deixei enganar porque quis. Eu quis encobrir os erros com a idiotice da esperança infundada.

Eu sabia de tudo. E a única coisa que me surpreende é o fato de que eu estava certa o tempo todo e não a veracidade da situação em si. É o mesmo que "Uau! Eu sabia que choveria canivetes hoje e que essa merda ia me cortar a cara!" em vez de "Uau! Está chovendo canivetes hoje e essa merda tá me cortando a cara!". Eu sabia o tempo todo que ia chover canivetes e que eu poderia correr um sério rico de ser ferida, mas ao invés de sair correndo, permaneci ali, esperando acontecer.

Que tipo de idiota faz isso? Que tipo de idiota põe a mão no fogo sabendo no fundo que vai se queimar? Eu mesma respondo: uma idiota apaixonada.
É isso. Pela minha vida encontrei muitas pessoas legais. Mas e daí? Quem disse que eu me importo com pessoas legais? Quase todo mundo nesse mundo é legal. E só. Não quero estar rodeada de pessoas super legais na minha vida e que não me servem pra absolutamente nada, nem pra jogar conversa fora. É...só legal, como tantos outros, só é legal...mais nada.

Absolutamente mais nada. Legal...como a maioria das pessoas que fodem com tudo e com todos. E agora rindo enquanto lembro de algumas situações e atitudes, complemento: inclusive com si próprios.
Menos mal que o corte do canivete não cortou tão fundo e me rendeu mais risos do que lágrimas. É o mesmo que cortar meus pulsos e esperar que sangre na outra pessoa.

As pessoas mais especiais que conheci, não fizeram parte da minha jornada.Foram pessoas que conheci talvez por pouquíssimos segundos mas que me disseram uma palavra que valeu a pena.Foram pessoas que me deram aula por uma semana, um mês, e que sabiam meu nome, mas nada sobre mim.Vizinhas que moravam ao lado de casa quando eu era bem pequenininha e hoje se apagaram no tempo. A Adelaide, que vivia brigando com a filha, Daniela, e que me chamava de "minha princesinha."Tem também a Dalva! Eu nunca vou me esquecer da Dalva. Ela também morou na casa ao lado antes da Adelaide.A Dalva tinha um quadro lindo dela de bailarina ainda quando era novinha. Lindo o quadro. Eu amava a Dalva.

E sabe aquelas estrelinhas que a gente comprava na papelaria pra levar pra escola? Uma vez eu entreguei uma estrelinha pra mãe dela e disse:-Olha, dona Alda! Entrega pra sua filha. Diz que é uma estrela que nem ela. Uma estrela Dalva!Eu lembro também que tinha o tio da van que levava a gente. O tio Sérgio. Ele tinha um cavanhaque e eu pedia pra ele me dar uns pelinhos do cavanhaque dele de lembrança. Ai meu Deus!Aí ele puxava os pelinhos com a mão e me dava. Eu chegava da escola, subia no quintal de cima e gritava o nome da Dalva, que vinha com toda a paciência do mundo:"Dalva! Você pode guardar essa barba do tio da escola? Ele me deu de presente e eu não quero perder. Guarda pra mim?"E ela guardava. Meu Deus! Ela guardava as barbas do tio da van que eu dei pra ela inúmeras vezes.Pessoas especiais. Pessoas especiais que passaram pela minha vida.Hoje, o brilho da estrela Dalva continua brilhando, mas fraqueja por causa de um câncer que se desenvolveu por causa do cigarro.

Ah, estrela! Nesse aspecto você foi burra demais. Poderia estar brilhando linda até hoje, do jeito que brilhava há 10 anos atrás!Pessoas especiais ainda trilham comigo o meu caminho, me trazendo lições valiosas no dia a dia.
Por sorte, ou milagre ou merecimento, tenho na minha vida pessoas que fazem valer a pena.As outras, não passam apenas de pessoas legais.Mas lembrando que assassinos também podem parecer legais. Pessoas cruéis também podem ser legais. Políticos ainda mais podem parecer legais em épocas de campanha.Pessoas legais e engraçadinhas. Verdadeiras hienas que comem merda e depois dão risada.

É só isso que vejo.Não consigo enxergar no mundo algo além disso. Aliás, mal consigo enxergar o mundo por conta disso.E é exatamente por isso que não me interesso pelas pessoas. É exatamente por isso que não me importo com o jeito que saio na rua. Eu mais do que ninguém sei que as pessoas realmente me pesam e me cansam.Pouquíssimas delas me divertem, me distraem e me extraem um sorriso quando apenas vejo passarem pela rua.

É o meu instinto indolente que cresce, porque se faz necessário. Sou reles, mas não a mais de todas (portanto não tão reles), e isso é que me faz indolente. Ainda com a consciência de que quanto mais sei, menos sei, tenho em mim essa indolência que me deixa um pouco a parte disso tudo. Um riso blasé pela leviandade das pessoas super legais que povoam o mundo. Um riso blasé amargo que pede um cigarro para ficar ainda mais blasé, mas deixa pra lá porque ainda me considero uma garotinha de princípios.

Costumo me interessar por seres humanos, mas a única coisa que tenho visto ultimamente são apenas seres.
O ser (humano ou não) é algo incrivelmente maravilhoso quando admirado de longe. Chega até a ser bonitinho, engraçadinho, cuti-cuti.Mas cuidado ao tentar cuidar de um deles. Pode ser muito, muito perigoso.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Vamos fugir, please?

A cidade da garoa ácida e das estrelas encobertas pela etérea poluição. A cidade das possibilidades, do dinheiro, das opções, dos guetos e da massa, da moda e da gula. Das pessoas vestidas com ternos caros e suas máscaras. Da comida rápida, dos amores rápidos, do trânsito lento. São Paulo.

Aqui, pouco é o que parece. Eles correm pra ficar parados, se aglomeram e sentem-se sós, comem pra perder tudo depois, saem pra caçar no limbo da noite e reclamam do vazio das pessoas. A cidade dos absurdos.

Tanta gente jogada nos bueiros, na sarjeta, na vida. E a vida passando por eles. Mendigos, maltrapilhos, loucos, vadios, morrendo no chão quente dos carros importados e blindados. A cidade da disparidade.

Tanta gente culta, que lê, que aprende, que dissemina, tanta coisa errada acontecendo e eles frigindo que não vêem. A cidade das aparências.

Tanta fila, tanta loucura, tanta procura pela paz interior nos yogas da vida. A corrida pelo primeiro milhão, pela promoção depois de horas a fio perdidas dentro de um prédio com ar condicionado e tanta procura pelo tempo livre e pela qualidade de vida. A cidade das controvérsias.

Tanto possibilidades, quanto decepções. Tantas vertentes e nenhuma verdade. Tantos estilos diferentes e tantos interiores apodrecidos. A cidade do curto-prazo.

O equilíbrio procurado nos amigos. As pessoas que se juntam pra serem inteiras. A cidade dos vínculos que precisam ser fortes.

A cidade da madrugada, a cidade dos solitários. A cidade dos restaurantes do mundo, a cidade das moedas diversas, a cidade das empresas imponentes e dos bairros feios, a cidade da variedade que segrega.

Onde existe a night comparável aos melhores países, onde menores bebem e matam, onde as pessoas têm medo de colocar o pé para fora de casa, onde todos nós vivemos.

A cidade que me faz arder os olhos de sujeira ao voltar de algum paraíso por aí.

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Esse texto é uma re-edição, além de um desabafo. A autora julgou merecedor, ao ler que em 2010 seremos o terceiro local mais populoso do mundo. Durmamos num barulho desses.

sábado, 3 de maio de 2008

Nas Entranhas de Marina

O que você estava fazendo ao lado do móvel, Marina?
O que você estava fazendo ali?
Eu matei você, eu enterrei você
Cobri você com terra
Depois eu atirei cimento
Coroei seu túmulo com flores
Enchi seu velório de velas!
E como você me aparece, Marina
Como se jamais tivesse sido enterrada?
Como você aparece bonita, sorrindo, corada!
Como se não fosse você
Como se não passasse por nada!
Como se jamais
Tivesse sido assassinada.
Saltite, Marina!
Saltite sobre mim, mecha nos meus cabelos
Me enfie o dedo no nariz
Me pegue pelos cotovelos.
Mas apesar de tudo, menina
Eu me odeio, eu me culpo, Marina
Porque fui eu
Quem escavou a terra
Quem restaurou suas fotos
Quem apagou suas velas
E pôs sua imagem nos fogos.
E bebeu a sua bebida
Ligou na sua programação
Beijou você nos meus delírios
Perdeu o texto e a noção
Plantou valquírias, plantou líros
Na porta da sua mansão.
Ah, Marina, morra Marina!
Morra pra sempre sem precisar de mim
Morra de sede, de câncer, dos rins!
Morra de tanto beber
Morra de tanto sofrer
Morra de ódio contido
Morra de peito ferido
Sangre até falecer.
Morra, menina, já não posso mais te suportar
Sua cabeça eu irei coroar
Com a auréola dos anjos caídos.
Morra, Marina, morra para que eu não me apaixone
Para que eu não pegue o telefone
Para que eu comece a te ligar!
Ah, menina Marina, por você eu cortei meus braços
Por você eu desfiz meus cachos
Por você eu me arrebentei
Arranquei para fora os meus pés
Minhas mãos na foguera atirei
Fiquei completamente dependente de você
Parece música sertaneja!
Enfeitei teus lábios com cereja,
E mordi como se fosse doce
E como se nem isso me desgraçasse!
Chorei no seu travesseiro
Estiquei na sua caminha
Levei choque no chuveiro
Saí de casa sem calcinha.
Dirigi com os meus pés descalços
Bati num poste da avenida
Venci você pelo cansaço
Puxei você pela saída.
Marina! Perdi a Luta!
Marina, filha da puta!
Marina, sua desgraçada
Menina desnaturada!
Marina...ei, Marina, acorda.
Que foi? Tá muito forte a corda?
Que foi? Não vou chamar ninguém!
Já que é pra sofrer, que eu sofra
Mas que você sofra também
Enforca, enforca, putinha!
Quero ver você morrer
Sem a mesma ladainha!
Ah! Doce sofrimento eterno
Que gira ao contrário meu mundo
Pois se eu me foder no inferno,
Sorria que você vai junto.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Vamusimbora PRUMBÁ

Pouca coisa boa se pode tirar de uma reunião regada a cerveja e derivados de álcool. Certo?
Claro que não! Pra armar aquele boteco, não necessariamente tem que ser num bar da modinha, lotado, pagar 15 contos pra pararem seu carro na rua e quase fazer xixi nas calças por causa da fila. Um botequinho pode ser tocado em qualquer lugar, na porta de casa, na pracinha Benedito, pode ser na areia, pode ser num Bistrô, pode ser tomando um açaí. Isso me leva a pensar que não precisa ter bebida alcoólica envolvida... Ok, é mentira, precisa.

Junte alguns seres que ajudem na idéia como um todo. Se não forem amigos, pode ser alguém desconhecido que tenha algo de diferente e/ou engraçado pra contar, de preferência alguma historinha bizarra, sobre a vida, sobre o trabalho, sobre aquela pessoa que merece um comentário digamos sarcástico. As dúvidas mais existencialistas também podem ser discutidas, mas cuidado: existem pessoas que bodeiam ou travam no decorrer do boteco, escolha pessoas confiáveis.

Coisa boa é quando tem segredinhos explicitados. Algumas exigências: precisa rir do ex. Precisa rir da ex dele. Precisa rir de histórias passadas com a turma da adolescência. Precisa rir de si mesmo. Não pode falar de nada que passe na TV aberta. Precisa falar mal do Lula. E é bom que tenha comida bem trash envolvida. Praticamente ninguém se preocupa com o próprio peso no decorrer do processo. Eu disse praticamente porque sempre tem alguém que pede caipirinha com adoçante. Exclua a pessoa da próxima armação, modelos não tocam o boteco.

Os clássicos não podem faltar, então se acha que vai esquecer dos melhores contos envolvendo pessoas presentes, aqueles que precisam de verdade serem jogados na roda, anote. E leve sempre num caderninho com você. Nunca se sabe quando alguém vai te puxar pra uma dessas.
Lembre-se, música é opcional, mas Créu e afins estão para sempre barrados, Legião Urbana é depressivo para uma dessas, qualquer coisa acústica que tenha Groove é aceita e Jorge Vercillo não é MPB.

Mesmo com a barriga de cerveja beirando os quatro meses de gravidez, que lentamente se transforma mas nunca volta ao normal ao ser esvaziada vinte e cinco vezes no banheiro, não há quem não se sinta mais leve depois de uma dessas. Mesmo que todos os problemas do mundo continuem existindo. Terapia sai muito mais caro.

sábado, 19 de abril de 2008

Amor Geométrico

Olhe-me por trás dos meus olhos
Existe algo muito maior do que meu globo ocular.
Ouça o que há por trás de minha voz
Existe muito mais do que a respiração entre seus intervalos.
Sinta o que existe por trás do meu abraço
Existe muito mais do que um calor inocente.
Olhe por trás da minha inocência.
Aliás, não olhe. Não sei se ainda a tenho.
Me enxergue. Onde quer que esteja.
Te mostrarei muito sem que eu diga nada
E escutarei sua voz mesmo que você se cale...
Terei de parar com isso?
Terei que buscar outra ideologia?
Terei que ser igual aos demais?
Sufocar meu amor? Que bobagem.
Uma pessoa que não dá valor ao amor em si
E que não dá valor ao próprio amor e não tem paciência com ele
Jamais vai aceitar o meu amor.
Mas deve existir alguém nesse mundo que enxergue o que eu quero dizer
Vai existir alguém no mundo que me olhe e entenda
E que sorrirá ao entender.
Mas ele não sabe de nada
Meus pais não sabem de nada
Meu irmão não sabe de nada
Meus amigos tampouco imaginam
Minhas amigas tentam saber

Estou perdendo um pouco a cabeça
Nessas horas penso: Será que se eu fumasse
Eu me sentiria melhor?
Será que se eu me drogasse
Eu me sentiria melhor? Será que se eu bebesse...Não, não.
Neste estado me daria sono.
Ou lágrimas. E eu não quero lágrimas
Elas estão aqui dentro fazendo festa mas ainda não resolveram sair
Por que não chegou a hora
Mas quando a hora chegar elas saltarão de meus olhos como se salta de um tobogã
E se divertirão por entre meus traços delineados do rosto
E serão absorvidas pela roupa
Ou formarão pequenas pocinhas no chão, até que sequem
Ou até que alguém pise. Ou até que eu mesma pise.
O que fazer para se sentir melhor quando se gosta de alguém e a pessoa não gosta de você?
Nem todos os sucos de laranjas do mundo.
Nem todas as águas de côco ou sorvetes com cobertura.
Céu azul, bicileta, tinta, caneta, peteca.
Nem desenhar.
Mas existe uma coisa que talvez me faça sentir melhor.
Talvez, eu disse.
Escrever.
Minhas escritas são psicografias das lágrimas.
E ditam de lá de dentro o que eu devo escrever.
E na verdade, tudo isso aqui não passa é de um grande berreiro
Como o de uma criança mimada que nem ao menos sabe escrever.
Mas choro de criança também é crônica
Choro de criança também é poesia.
Talvez muito mais poesia do que as poesias de muitos que se dizem poetas.
Porque choro de criança vem indiscutivelmente da alma.
Se for birra, é uma birra que vem da alma.
Se for manha, é uma manha que a alma faz.
E se for medo de ficar sozinha
As lágrimas são da alma infantil que treme insegura embalada por um pequeno corpo.
No fundo, toda alma é criança,
Porque o amor não se contém
Nós que contemos o amor.
A lágrima não se segura
Nós que seguramos as lágrimas
O desejo não se reprime
Somos nós que o reprimimos.
E nessa selva de sentimentos, vamos aprendendo a domá-los
E os contemos tanto, tanto, que acabam deformados, encolhidos
Dentro de uma caixinha sem ver a luz do sol.
Acabam por sua vez, quadrados.
E se porventura saírem, saem com medo, com os olhos ardendo
Com medo de algum animal
De um predador
E quando expostos, muitas vezes voltam correndo
Para suas devidas prisões. Já sentimento exposto, sem ser segurado
Sai correndo a mil e um por hora
Rasgando tudo
Inclusive o peito.
Atraiçoa, é sarcástico
É fantástico
É elástico
É atirado como num estilingue.
Voa rápido e ninguém vê
Porque ninguém está acostumado a acompanhar a rapidez de um sentimento verdadeiro, voador!
Afinal,
Eles vivem todos enclausurados, não é mesmo?
Mas quando ele voa, você tem que olhar
Tem que acostumar seus olhos à visão, porque ele voa lindo.
E ele não pára de voar, só que ninguém acompanha
Então, um dia, ele cansa.
De que serve tanta beleza se não existem olhos para admirar?
Se não existe um dono que o queira cuidar?
Então, ele vai parando de bater suas asas
Pouquinho por pouquinho
Então ele cai
E cabisbaixo, anda devagarzinho sem ser notado
Abre uma caixinha
Entra nela
E fecha a tampa.
E ele se enclausura
E se deforma, como todos os outros.
E come suas próprias asas para que caiba na caixa.
E acaba geométrico.
Não porque alguém o colocou lá, porque ele nasceu livre
Mas simplesmente porque sua liberdade já não serve de mais nada.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Literalmente de Foder

Infelizmente, quando se está há quase seis meses desempregada, você começa a apelar para anúncios que não estão assim tão dentro do seu perfil. Pelo menos é o que você pensa. E começa a ler as vagas dos jornais. Erro.

Foi assim, lá em meados de 2004, que eu descobri que eu tinha sim o perfil. O anúncio dizia: jovem do sexo feminino, boa comunicação, inglês fluente, marketing, período integral, cinco vagas. Mesmo sem ter feito comunicação e querendo mesmo é ser contratada para uma vaga de pesquisa mercadológica, fui lá ver o que dava.

Local chique, agradável, algumas salas fechadas, muitas plantas, em pleno Business Center da cidade, meninas lindas andando pelo local, eu seria a segunda entrevistada. Estranhei que a candidata na minha frente entrou na salinha fatídica e saiu rapidinho, como se a tivessem dispensado. Lembro de ter pensado: será que ela não é de marketing? Já me dispensaram por não fazer um risco tão reto na folha em branco, é o mundinho capitalista, ué. Nem quiseram falar com ela.

Ouvi meu nome, entrei e dei um sorriso estendendo a mão. Um menino de 20 e poucos anos se apresenta como um dos sócios de um site que está migrando suas atividades para o Brasil, dizendo-se especialista em venda on-line. Começou com o maior clichezão das entrevistas: me fale sobre você. Depois de vinte minutos discorrendo sobre a minha capacidade de comunicação e bom relacionamento interpessoal, ele começa a falar sobre a vaga. As meninas que seriam contratadas ficariam a postos para manter os clientes no site por quanto tempo conseguissem, sempre teclando em inglês, a remuneração seria variável e teria bônus.

Assim que eu pedi o link para dar uma olhada no site, ele desconversou, disse que somente depois de contratada e que gostaria que eu voltasse para uma segunda entrevista com o sócio dele. No dia seguinte, lá estava eu para discorrer mais 40 minutos sobre cada empresa que trabalhei, prós e contras, idas e vindas. Era dia de rodízio do meu carro e na ânsia de conseguir o emprego, nem me importei com a possibilidade de atrasar em voltar pra casa. Só que para minha completa surpresa, ao final da longa entrevista eu tomo essa: “Nosso site ERÓTICO precisa de pessoas como você para aparecer na webcam e teclar com os clientes, acho que você TEM O PERFIL.”

Existe a definição de ódio mortal na Wikipédia ou no dicionário, mas esqueça. Ódio foi o que eu senti naquela hora. Antes de começar a sentir o ímpeto de quebrar a sala toda e fazer o computador sumir por entre o intestino grosso e o delgado do sujeito, eu comecei a gritar que aquela enganação barata era um absurdo. Que eu tinha gasto gasolina, tempo e energia. Saí meio chorando de raiva pelo elevador do prédio em direção ao centro de negócios da cidade, de onde eu sairia sem emprego, com uma multa pelo rodízio e com uma vontade maluca de passar na Augusta e sugerir algumas candidatas não-operadas pra vaga.


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PS* Antes de comentar algo engraçadinho, pense que a sua irmã, mãe, tia, namorada não têm os seus respectivos empregos garantidos para todo o sempre. Got it?

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Seja bom com você

Meu tráfego é livre pelos elevadores, porque não uso roupinha azul e vassoura na mão. Caso contrário eu seria banida por dividir o mesmo espaço com um dos gravatas do prédio. Caso contrário eu seria ignorada pelas moças do sexto e sétimo andar.
"Não chora, Jojô. Gente que faz isso com você é gente infeliz. Gente que está feliz com si próprio, não trata mal os outros por causa de condição social."
Gente que está feliz com si próprio não magoa, não é grosso, não é estúpido, não te olha de baixo pra cima.
Gente que está feliz com si próprio não precisa provar nada pra ninguém.
Gente que está feliz com si próprio não usa máscaras e paga o preço caro, caríssimo da transparência.
Gente que está feliz com si próprio não se engana e não engana os outros.
Gente que está feliz com si próprio não reclama o tempo todo e não é capaz de sorrir com as coisas mais simples.
Gente que não está feliz com si próprio vive querendo se impor, mostrar medo e respeito. Mas não se engane, essa pessoa realmente não está feliz. E geralmente tudo isso gira em torno de três únicos fatores: baixa auto-estima, complexos e traumas.
Uma pessoa amarga, falsa, mentirosa, ruim, aproveitadora, pode ter certeza que tem lá em seu âmago alguma coisa que a incomoda, que a faz sentir mal e infeliz.
É por isso, Jojô, que o mundo está assim, minha querida. Quantas pessoas você conhece que estão felizes com si mesmas, com a própria vida?

Um pouco de complexos aqui, um pouco de baixa auto-estima ali, e pronto! Está pronto um mundo cercado por todos os elementos que envolvem a teoria da conspiração. E aí, da baixa auto-estima nasce o medo, que origina a falta de confiança, que origina a necessidade de se auto-afirmar, que origina a arrogância, que origina a ignorância, que origina muitas vezes no sadismo e que origina essa bosta de mundo em que vivemos.
Em um dos livros do Dennis Lehane diz algo mais ou menos assim, que cada caso de violência e terrorismo é um caso completamente diferente do outro, mas a impressão que dá é que existe um fio que liga todas essas coisas, que se desenrolado, começa a fazer com que tudo faça o maior sentido do mundo.
Não seria isso mesmo?
O mundo todo é vitrine, como diria o DDC. E quem não é paga um preço caro.
Eu sei DDC, e você também sabe, não é mesmo? Embora saibamos que ninguém é 100% vitrine, e ninguém é 100% transparente. Mas você escolhe pra que lado quer pender.

Eu sei que é caro e pagar caro às vezes cansa porque dói no bolso, mas ainda assim me rende uma boa noite de sono e não me gera sérios problemas com minha consciência.
Que mundo, né?
Como dizia Renatão, os bons morrem jovens. E você já parou pra pensar que isso é a mais pura verdade? Os bons estão morrendo por aí, todos os dias, assassinados, em acidentes, em afogamentos, vítimas de bala perdida, não importa. Estão deixando esse mundo. E quem é ruim continua populando e espalhando o câncer por todos os lados.
Neste fim de semana estava eu passeando pelo orkut porque não tinha nada o que fazer, então me deparei com comunidades do tipo:
-Amamos Suzane Von Richtofen.
-João Hélio arrastou POUCO.
E tinha também outra comunidade relacionada em uma destas sobre o pessoal que era a favor de poluir o Brasil.
Quanto ao João Hélio, todo mundo deve saber que é aquele garotinho que morreu arrastado por alguns quilômetros no Rio de Janeiro.
Quanto à Suzane, menininhas alegavam que ela só teve coragem de fazer o que muitos não tiveram. Outros a admiram porque ela foi corajosa em assumir o crime, outro maluco tem já sua opinião diferenciada: Considera a garota uma artista! Porque assassinato planejado nada mais é do que uma arte! E ele a parabeniza por isso!
Podem parecer simples comunidades do orkut, mas as pessoas que estão por trás delas são reais. E assim como muitas outras que nem devem acesar a internet fazem apologia à esse tipo de coisa.

Eu não tenho muito o que falar sobre isso, poderia passar horas e horas expressando minha revolta, mas é o tipo de coisa que as palavras não conseguem expressar. Não tenho exatamente a dizer sobre isso, não posso fazer nada a não ser lamentar em ter que dividir o meu espaço terrestre com seres desse gênero e ser considerada da mesma espécie que indivíduos tão repugnantes como estes.

Seriam mesmo seres humanos? Seriam humanos estes seres? O que diferencia um ser humano de outros seres? Acho que precisamos rever estes conceitos.
Seres como este que possuem grande capacidade de diferenciar-se dos animais, mas não o fazem. O que exatamente diferencia essas pessoas dos animais?
Hoje já tenho lá as minhas dúvidas. Mesmo porque animais só atacam para se defender ou por fome e fazem sujeira porque não podem limpar. E existem pequenas atitudes que nos diferenciam dos animais, como por exemplo, jogar lixo no lixo. Eu ia falar sobre solidariedade aqui, mas a gente consegue ser pior, porque animais são solidários uns com os outros. Recentemente foi feita uma pesquisa, depois vou até ver se coloco o link aqui, sobre formigas que usam seu próprio corpo para tapar possíveis "buraquinhos" no meio da trilha para que as outras possam seguir o caminho sem se desviarem e assim cumprir a chegada ao seu destino sem maiores problemas.
Quantas das pessoas que você conhece fariam isso? Usariam a si mesmas para te protegerem, te ajudarem? O normal de um animal é preservar a espécie! E nem isso nós fazemos. Se somos animais racionais isso tem alguma lógica, embora eu sempre achei que essa expressão "animal racional" fosse bizarra, afinal, não somos animais, somos seres humanos. "Humanos", mas hoje tenho lá minhas dúvidas se somos lá tão evoluídos quanto sugere este termo.

Eu sempre tive medo de morrer. Mesmo. Aquele medo desesperador. Sempre fui um pouco paranóica com isso, mas estes dias me peguei pensando que talvez morrer não seja a pior das coisas. Talvez os bons morram jovens porque não cabem nesse mundo, porque não merecem estar aqui. Talvez ficar aqui é que seja o verdadeira castigo.
Não chorem por aqueles que se foram, chorem pelos que ficam. Os que foram provavelmente terão mais paz do que aqueles que ficam por aqui.
Por mais que eu acho tudo muito justo neste mundo, existem coisas que a gente não vai entender nunca, mas o fato de eu não entender não significa que eu tenha que me revoltar e virar uma atéia frustrada.
Mas realmente existem coisas que me intrigam.

Existem atitudes que não cabem no meu mundo, como por exemplo esse fato da Jô não poder entrar no elevador com um engravatado porque ela é da faxina. Estes dias me peguei pensando: Gente! Mas esse tipo de coisa ainda existe?
Não na minha realidade, mas na realidade do mundo existe, como fui inocente. Existe um mundo estragado por aí, e se as pessoas fazem o que fazem, tratar mal uma faxineira não passa apenas de um aperitivo.

E estão por aí as faxineiras chorando, as mães honestas viúvas, os órfãos de gente justa, os amigos que perderam seus amigos pra burrice do álcool em acidentes ou para balas perdidas do tráfico.

Está por aí um mundo cuja trilha sonora é o grito dos desesperados e cujo pano de fundo é o sangue e a miséria. Está por aí um mundo onde a inspiração são as lágrimas nossas e dos outros e não mais as gotinhas de orvalho pela manhã.
Um mundo que tem como rima o fogo dos acidentes e não mais o fogo do sol. Um mundo que coloca flores nos versos não por serem belas e enfeitarem os campos, mas por enfeitarem os caixões das vítimas. Um mundo que escreve não mais sobre o futuro porque já não tem mais tanta certeza que ele vai chegar.

Um mundo que se atrai pela tragédia e pela miséria como mariposas se atraem pela luz.

Pagamos a liberdade dos banidos, pagamos a sobremesa dos injustos, pagamos a arma que matou o nosso filho, pagamos a alimentação da Suzane von Richtofen, o edredon dos políticos que os aquecem em noites de frio e suas regalias.
E estamos de mãos atadas.
Passeatas, um minuto de silêncio, faixas pela Avenida Paulista, faixas em frente à Casa Branca, camisetas desenhadinhas, tudo isso faz cócegas na barriga de todos aqueles que decidem como exatamente este mundo deve ser, porque você, reles humano, não decide nada sobre o mundo, só decide sobre você (quando decide.)
Contribua você também com pequenos gestos dizendo que caga pro aquecimento global, vamos! Colabore com sua fumaça! A fumacinha que você solta depois de um trago que te faz sentir superior pode ser a responsável pelo último suspiro do seu filho amanhã, do seu neto amanhã. Quiçá do seu.

Polua! Polua mesmo a cidade e depois coloque a culpa no governo porque existe destruição na cidade por causa de enchentes! Alguns alegam que poluem a cidade para dar emprego aos garis!
Legal! vamos então assassinar bastante gente para gerar mais emprego no IML e nos cemitérios!
Assassine, mate, drogue-se, drogue seus filhos, seus amigos! Contribua com a devastação. Vamos! Faça sua parte e depois coloque a culpa no Lula, no Bush, na puta que te pariu.

Você pode achar que eu estou misturando os assuntos, claro que não vou generalizar, mas tudo está absolutamente muito bem relacionado. A mesma cabecinha que diz que "meus netos que se virem com o aquecimento global" é a mesma cabecinha que defende a Bispa Sônia porque ela "roubou o meu dinheiro e não o seu, então cala essa boca."
Ou então aquele tipo de gente que diz: "Eu sei que fumar é errado, mas eu já fiz tanta coisa boa que Deus vai me perdoar!". Já escutei isso sim. Deus não tem nada a ver com isso, afinal, quem não vai te perdoar é o seu pulmão.
Reclame mesmo da corrupção e da palhaçada com o seu dinheiro! Você não tem direito nenhum de defesa! Sabe por que? Porque você também ou é corrupto, ou é mentiroso ou contribui de alguma outra forma com sua parcela de merda para que o mundo se afunde (ou tudo isso junto.)! E os outros que não o são mas ainda assim sofrem com as injustiças, são os bons que morrem jovens, mesmo com seus 80 anos nas costas.
Você não tem direito de defesa. Como reclamar que o mundo está estragado se de uma forma ou de outra você também está contribuindo com isso, mesmo que seja com atitudes que podem parecer minúsculas? "Pequenos acontecimentos interferem em grandes eventos." Ou se preferir, como diz a Teoria do Caos: "O simples bater de asas de uma borboleta pode desencadear um tufão em outra parte do mundo".

Seja bom pelo menos com você, porque provavelmente o mundo não será.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Crua

Acredito em mudanças, mas não acredito em nada repentino. Não acredito em acaso, mas o uso como desculpa às vezes. Meu armário é uma zona, mas meu quarto é arrumado. Antes eu achava que quem escondia as bagunças tinha muita bagunça escondida dentro de si. Descobri que eu exponho a minha bagunça interior e esse é meu charme. Sou mais feliz hoje.

Num passado distante, eu não sabia se queria morar junto com qualquer namorado que eu viesse a ter. Sabia que a dificuldade seria saber entrar em acordo sem perder a individualidade. Hoje vejo que isso vira um desafio maravilhoso quando acontece a seu tempo e com uma pessoa bacana. Casei. Sou mais feliz hoje.

Tem dias que eu não agüento, tenho calafrios de desesperança e vontade de vomitar, por passar o dia inteiro às voltas com cronogramas, relatórios, pesquisas, vendas e mensurações quando o mundo precisava é de amor, paz, plantas, amizade e pureza nos dias úteis e não-úteis. Alguns dias eu gosto. Sem perceber, antes eu fingia que era importante ter um cargo com um nome bonito numa empresa de nome bonito só porque o mundo todo achava isso. Não finjo mais. Sou mais feliz hoje.

Tenho medo. Medo de morrer, de avião, de sem querer fazer alguma merda pra alguém e ficar culpada, de acidente de carro, de não realizar tudo que eu acho importante, de perder momentos, de ficar doente. E acabo ficando doente por isso. Antes eu achava que eu não merecia toda felicidade que eu tenho na vida. Hoje sei que não preciso pensar muito nisso, tenho que fazer por merecer. E o medo faz parte. Sou mais feliz hoje.

Quando deixo de pensar demais, viro uma pessoa muito mais bacana. Gosto muito de gente, embora não consiga me presentear pra todo mundo que eu queria. Gosto das coisas simples, idiotas, não-convencionais, não-materiais. Só não sou hippie porque é anti-higiênico. Deixei, numa época da vida, outras pessoas me influenciarem com sua maneira pesada de ver a vida. Meu medo provavelmente veio daí. Não importa. Sou mais feliz hoje.

Eu achava que papo sobre cuidar do corpo e da alma era coisa de religioso, de professor de academia ou de quem não trabalhava. Hoje, aprendi que minha alma é minha casa e que preciso manter ela limpa, isso envolve consciência. Meu corpo é meu hardware, tenho respeito às pessoas que me gostam e que querem que eu viva muito tempo bem e com saúde. Estou fazendo a minha parte. Sou mais feliz hoje.

Sei ter maturidade para resolver situações muito problemáticas. Mesmo sendo muito emotiva, fico racional nos momentos de tensão. Antes, eu sentia orgulho por ser um pouco diferente da média nesse quesito. Hoje, sei que orgulho é a morada dos fracos e que a humildade verdadeira é um ótimo caminho pro autoconhecimento e pra outras coisas boas. Vou atrás disso. Sou mais feliz hoje.

To sempre numa conversa fiada e sei que dela pode-se extrair genialidades. Amo animais e a natureza. Gosto demais de música. Choro com livros, crianças de rua, filmes, mendigos, atitudes honradas. Antes eu dormia até tarde. Hoje eu acordo um pouco mais cedo pra viver a vida, porque sei que tempo é um dos meus bens mais preciosos. Sou mais feliz hoje.

Eu já fui de falar mais e ouvir menos. Eu sempre falei muito. Agora ouço atenta porque essa é a melhor receita pra uma amizade verdadeira durar. Aprendi que só risadas e monólogos não se traduzem em amizades reais se não houver o cuidado e a atenção mútua. Sou mais feliz hoje.

Eu leio biografias, trechos, textos, contos, crônicas. Eu achava que só as pessoas importantes tinham o direito de escrever qualquer coisa porque só o que é estudado, moldado e aprovado era bom. Hoje posso ir de mim mesma, nua, crua, sem maquiagem, cheia de sins e de nãos. Sou muito mais feliz hoje.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Uma cruz a carregar.

Pessoal, o blog é de crônicas mas hoje postarei uma poesia, espero que as meninas não se importem!






Ela está muito convencida
De que onde ela for, ele vai
Ele está sabendo de tudo
Ela assassinou os seus pais.
Ela o está comendo pelas beiradas
Preparando a vingança
E ele: "Não sei de nada."
Parece que é uma criança.
Ele gosta desse suave veneno.
Ele ama aquela menina.
Ele gosta de ser torturado
Famigerado e aflito
Ele gosta de ser salpicado
Com sangue, fofura e grito.
Sado
Sadomadoquista
A mulher, Ana Cruz, maldita
E o homem, Miguel golpista.
Acaba em pizza! Tudo acaba em pizza!
Parece política!
Parece que aqui se fala em comida.
E se fala, se fala sim!
Canibal, menina ruim!
Come o fígado com gergelim.
E ele? Ele se diverte
Diante de seus rins cortados
E a musculatura inerte.
Ele se contenta escrevendo umas coisas
E dando uns tragos e lavando a louça.
Contenta-se com prostitutas
Ostenta-se com suas vadias
E vive em constante luta
Com ela que fode seus dias.
Então ele come Lulu.
Lulu, vagabunda novinha
Chupetinha e sexo anal
Mas Ana é sua princesinha
Sua princesinha do mal.
"Você é burro!" - grita Lulu!
"Burro como uma porta!
É burrice amar alguém
Que não te ama ou se importa!
É burrice amar o seu próprio carrasco
Beijar a mão que derruba ao penhasco
A sua carcaça amarela"
"Eu volto todos os dias
Porque eu não vivo sem ela."
Parece até brincadeira
De um homem de cérebro oco
Ana acende a fogueira
E ele se atira no fogo.
Ele certa vez resolveu transar
Com uma ex namorada
E enquanto metia chorava
Pensando em Aninha, amada.
E Aninha do outro lado do bairro
Bebia licor de menta
Fumava um negócio esquisito
Soltava fumaça magenta!
E ria, e ria da vida!
E de bêbada deu pra um cara
E lembrou do ex no momento
Quando o homem gritou "não pára!"
Mas recuou!
Pensou não parar mas parou.
Vestiu seu sutiã
A calça e o colete de lã
Deixou o homem parado,
Com seu genital esfolado
De tanta força que fez.
Aninha saiu pela rua
E olhando pro céu viu a lua
E sentou sobre os próprios pés.
Ficou ali, agachada
Quietinha, sem ser notada
Sentindo sua perna tremer
Sentindo a virilha doer
Sentindo a saudade danada.
E ele agora lambia
Os seios de Rosa Maria
Rosa, a velhota profissa
Que se masturbava na missa
E os homens que lá frequentavam.
Um dia trepou com o padre
No meio da sacristia
E as fofoqueiras contavam
Que o padra pagava por dia.
Mas isso já é outro assunto
O que importa é que a velha entendia.
Voltando agora à história:
No momento em que Rosa gemia
Ele lembrava de Ana
Da bunda durinha de Ana
Da coxa gostosa de Ana
E do jeito que ela gostava
De abraço depois que gozava.
Então quando se deu conta
Deixou a velhota tonta
Berrando na cama de quatro.
Sujou todo o cobertor
Saiu pelo corredor
Perdeu a chave do quarto.
E por pura ironia do destino
Encontrou pela rua um menino
Com sangue nas mãos e gritava:
"A moça! A moça bonita
Morreu com a garganta cortada!"
E ele seguindo o pirralho
Gritou um sonoro "Caralho"
quando teve a terrível visão:
Aninha sua menina amada
Um anjo e uma desgraçada
Jazia jogada no chão.
E Lulu ao lado chorava
Com uma faca encravada
No meio do coração.
"Matei, eu matei sua menina!
Não é mais sua, ela é minha
E eu vou atrás dela também.
Se não tenho você comigo
E você não me quer contigo
Eu não quero mais ter ninguém.
E então deu um grito alto
E sangrando, deitou no asfalto
Morrendo naquela calçada
Então ele olhou para Ana
Beijou-a e levou para cama
Enquanto se lamentava.
E lambendo-lhe o sangue no peito
Olhou-a e falou "bem feito"
Depois lhe tirou a roupa.
Pegou seu revólver guardado
Atirou-se com Ana ao seu lado
E morreu lhe beijando a boca.

Thaís S.B. Araujo

sexta-feira, 14 de março de 2008

Ao futuro, com carinho

Tem muita gente torcendo para que você exista logo. Mas, como uma boa taurina, signo da terra, gente bem realista, te digo que ainda vai demorar um bocadinho de tempo pra gente se conhecer. Mas eu te prometo uma coisa: vai valer à pena ter esperado.

Sinto que tem muita coisa pra acontecer. Você vai acabar percebendo ou até já sabe, mas quero te dizer: sua futura mamãe é uma pessoa que sente medo. Alegre, meio idiota, segura aos olhos alheios, corajosa até, mas ainda assim meio medrosa. E ansiosa. Veja que você já é tão precioso que consegue colocar essa ansiedade no lugar dela: eu posso e quero esperar a hora certa de te ter nos braços. E digo braços porque nem sei se você será filho da nossa barriga, ou do nosso coração. Isso é algo que eu espero poder te ensinar, bebezinho: que a vida traz um monte de surpresas e até aquelas que a gente pensa que são tristes, não necessariamente são. Confuso, né? Eu sei.

Preciso te falar outra coisa. Seu futuro pai. Se você fosse puxar qualquer coisa dele e eu pudesse escolher, escolheria o coração. Ele tem o maior coração que eu já conheci. E é uma pessoa sensível, ainda que não goste muito de escrever nem seja dado a dançar uma música lenta. Ele sabe perceber. E isso é uma coisa que junta a mente e o coração de uma pessoa e faz ela ser adoravelmente charmosa. Espero também que você tenha um pouco da luz dele.

Você também precisa saber que será fruto de um amor que se transformou. Éramos dois amigos, bebezinho. Daqueles de falar bastante besteira, dar bastante risada, compartilhar medos e tomar café juntos todo dia. Nossa vida andava meio esquisita, bebê. E um dia a gente se encontrou. E de lá pra cá, não passa um dia sem que a gente se fale o dia inteiro, por e-mail, por telefone, por pensamento. A gente tem saudade um do outro no pouco tempo que ficamos separados. Nós temos os nossos rituais e as nossas viagens. Nós não lembramos mais como era viver sem ter um ao outro.

A gente também se desentende, viu? Pouco, mas costuma ser assim com quem se relaciona por inteiro. Nunca acredite nem queira ter um relacionamento à perfeição, acredite em humor, espontaneidade e respeito ao espaço do outro. Lembrando disso, essas briguinhas sem valor logo acabam, assim como as nossas. Não quero, mas acho que em algum momento nós podemos errar com você, bebê, porque o ser humano se perde de si mesmo às vezes. Você vai sentir na pele o sentido de ter uma família. Vai aprender que existem famílias diferentes. Que a nossa poderá ser diferente, quem sabe, mas vai saber que se sentir acolhido e entendido independe disso.

Uma coisa que eu sei que vai acontecer: você vai ensinar muita coisa pra todo mundo. Vai me ensinar a dar exemplos, a ser menos desastrada, menos ansiosa, mais atenta às prioridades da vida. Vai ensinar ele a ter mais paciência. Vai nos ensinar a resistir a uma bela chantagem emocional. Não vai ser fácil, mas acho que podemos nos sair bem. Já preciso te avisar: você será mordido, apertado, amado.

E, se me falta confiança para saber que eu tenho condições de dar toda felicidade que você merece, o tempo deve tratar disso. Se fôr pra ser, será. Até lá, eu e seu futuro pai vamos andando pela estrada, mudando de direção, ouvindo algumas canções, falando outras besteiras, perdendo e ganhando, mastigando e digerindo a vida. Que, apesar de todas as agruras, é o maior presente que alguém pode receber, futuro bebezinho.

terça-feira, 4 de março de 2008

Verdades-Vergonhas

Vou parar com essa mania estúpida de "presentear" os outros com as verdades de meus sentimentos. Verdades raras, que por serem raras, são preciosas.
É mentira.
Não vou.
Não vou parar.
Em horas como essas, eu deveria. Mas não vou parar. Acho que sou diferente de qualquer outra pessoa desse mundo.
Quando as pessoas rompem um relacionamento, a maioria quer mostrar ao outro que está bem, que esqueceu tudo num passe de mágicas. Eu não. Eu não faço isso. Eu conto a verdade.
A verdade que está no íntimo, a verdade que para os outros é vergonha, é fraqueza, é medo de se humilhar. A verdade que não pode ser contada, a verdade escondida por trás do salto alto, das unhas pintadas, da balada do sábado, do cara que deu em cima de você, da cerveja que você toma, da risada que você dá. A verdade escondida por trás de tudo isso, porque por trás do salto alto que você usa há um pé calejado de tanto esperar um sinal de vida, por trás das unhas pintadas há uma unha linearmente lixada para não dar a impressão de que foi roída de ansiedade e nervosismo, por trás da balada do sábado há um pensamento roedor que fica imaginando o que será que ele está fazendo agora? Por trás do cara que dá em cima de você, está ele te olhando com olhos de quem - não adianta tentar - não vai deixar você em paz. Por trás da cerveja que você toma há o gosto dele e de por trás do riso que você dá há o desespero da saudade.
Verdades falsas. Verdades-mentiras. Verdades-vergonhas. Você só quer mostrar ao outro a superficialidade do que te rasga por dentro.
Eu não faço isso. Eu assumo. Eu falo pra ele que toda cerveja tem o gosto dele, que por trás de todo cara ele me olha, que por trás da minha risada existem as lágrimas. E não só com ele. Com todos. E em troca sou congelada com sua imparcialidade vazia.
Essa minha estúpida mania de ter medo de morrer sem que os outros saibam o quanto os amei. E eles nem merecem. E ninguém merece a minha verdade, ninguém merece a vergonha que eu passo, a humilhação que me deixo passar.
Eu mostro o sangue, eu os faço sentir o cheiro das minhas lágrimas nos travesseiros, eu mando as letras de músicas que me fazem lembrá-los, eu questiono sobre o que ainda sentem por mim, eu me rasgo toda, tiro tudo o que existe dentro e coloco em cima de uma mesa para que olhem, para que conhecem o que existe ali, para que sintam o gosto daquilo, a textura daquilo. E então pego tudo e entrego à eles, com minhas próprias mãos. E como se não bastasse eu digo: Está vendo tudo isso? É seu.
Óbvio que ninguém sabe o que fazer com aquilo tudo. Óbvio que muitos se sentem enjoados com tudo aquilo.
Óbvio que acham esquisito, que ficam sem saber o que dizer, que não entendem o motivo de eu lhes entregar algo que talvez não seja nem necessário.
E então vem o susto: Como você pode me amar tanto assim?
Veja só, a diferença é que muita gente ama tanto quanto eu mas preferem lhes entregar uma realidade feita com as próprias mãos, enquanto eu lhes entrego o material bruto. Prefiro não modelar as minhas verdades. Prefiro não modelar minha angústia para que pareça felicidade. Se eu sofrer, vou lhe entregar meu sofrimento exatamente do jeito que ele é, com o cheiro que ele tem.
Isso quer dizer que eu te ame mais do que qualquer outra pessoa no mundo, a ponto de te assustar?
Não. Isso quer dizer que eu não tenho saco pra brincar de fazer escultura.
E isso quer dizer que outras pessoas preferem se sacrificar esculpindo sentimentos para não ver a cara de assustado de seus amados e se sentirem malucas com isso.
Eu prefiro vê-los me olhando como se eu fosse uma maníaca do que ficar inventando mentiras e sujando minha mão com esculturas que uma hora ou outra vão desmoronar.
Só poupo meu tempo em algo que mais tarde vai se revelar.
Mas...
E se ninguém soubesse de tudo isso? E se eu morresse hoje cedo? E se ninguém soubesse? E se eles tivessem morrido? O que adiantaria? Mas que idiotice a minha de falar, falar, falar. E se os outros não quiserem ouvir? Mas dentro de mim algo diz que os outros precisam saber. Talvez eles usem isso futuramente pra alguma coisa. Talvez seja um modo de consolá-los que em alguma época de suas vidas eles foram amados desesperadamente por alguém.
Só há um lado bom nessa história toda. É que quando eu esquecer uma pessoa, essa pessoa não terá a menor dúvida de que eu a esqueci, pois do mesmo modo que falo sobre um amor, eu falo sobre a indiferença.
A primeira vez que terminei um namoro, eu jurei que nunca mais me apaixonaria. Me achava esperta, achava que ninguém poderia me enganar, que eu estava acima de tudo, que eu poderia controlar meus sentimentos.
Burrice de menina.
Esforço em vão.
Isso tudo só me serviu para me provar que eu não vou controlar porra nenhuma. E desde então foi que comecei a falar a verdade desesperadamente. Já que não posso controlar meus sentimentos, e já que o tempo passa e cura todas as feridas, porque esconder o que sinto?
Sim, é humilhante escutar da pessoa que você ama que evitá-la vai tornar as coisas mais fáceis pra você.
Você se sente burra. Você se sente doída. Você se sente frágil.
E aí você evita essa pessoa porque não evitá-la seria humilhar-se mais ainda.
Precisa ser forte. Precisa ter as costas fortes pra carregar a dor de um mundo, porque nisso tambérm existe a recompensa. Os outros podem tentar me enganar mas eu jamais sofrerei com a dor da minha própria enganação, que é a dor que mais dói. Mas tudo tem seu preço. Esse "sincerocídio" vive em busca de respostas que não existem, de algo que busco e que não vou ter, de uma esperança ilusória, de palavras que não vou escutar. Mas ele me conforta, porque me permite saber de tudo isso, e é justamente por conta disso que acaba tudo bem depois. Sou de certa forma uma "lunática lúcida."
Não existe mais medo. Não tanto quanto antigamente, que eu escondia tudo e todas as verdades modeladas me causavam dor de estômago, ânsia, mal-estar.
Todas as pessoas que eu amar vão saber disso.
E todas as pessoas que eu for tentar esquecer vão saber disso.
E todas as pessoas que eu esquecer de vez , vão descobrir isso, porque eu não vou precisar contar.
E eu já sei como essa história vai acabar.
E é exatamente por isso que eu não me importo em expor minhas "vergonhas", porque não existe vergonha em amar e em deixar que o outro saiba. Vergonha é tratar o amor como se não fosse digno de ser amor. O amor não nos torna fracos, o que nos torna fracos é o medo que nos esquiva de amar.