quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Pra esperar...


Andando pelas ruas da cidade
Tremendo de tremenda ansiedade
Olhando para os lados, passos fundos
Passando pelos fundos sem vontade.

Jogando umas moedas pro mendigo
Dei conta que isso aí eu não concordo
Cresci dando comida, aí não ligo
Mas quando é pra dinheiro, então acordo.

Gosto de comida pronta
Microondas pra mim, raras as vezes
Eu crio mil idéias, fico tonta
Me perco na semana, esqueço os meses.

Tento pensar em mil coisas, abrir a geladeira
Dou uma de escritora, depois de cozinheira
Penso no coelho, olho-me no espelho
Olho o meu cabelo
O cabelo está sem brilho
Penso no meu carro
Penso no meu filho.
No carro que talvez eu tenha
No filho que talvez eu faça
Eu leio tudo acima
Sorrio e acho graça.
Dou uma de artista
Enfim peço uma pizza
Isso não tem rima
Mas traz um certo clima.

A pizza espedaçada
Gostosa e engraçada
Pedi Guaraná Dolly, Antartica incomoda
A marca é só a marca
O brega é que faz moda.

Vinte e quatro anos
Mas logo, aniversário
E como adolescente
E como estagiário
Eu olho à minha volta
E perco o meu horário
Quem mandou nascer tão solta?
Quem mandou nascer de aquário?
Quem mandou ser esquisita?
Quem mandou ser tão aflita?
Tudo isso veio à tona
Parecendo sem noção
Mas é só ansiedade
De esperar a ligação.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Posso desejar?

Quero arrebatação. Não tô falando do amor, e sim dos dias. Tô querendo ser surpreendida, empurrada, puxada por alguma coisa que eu não saiba de antemão, quero conhecer, quero ver um sentido pra isso tudo, pertencer a algo maior do que essa grande ilusão diária.

Quero ligar a TV e assistir ao vivo a alguns jornalistas se rebelando, quero sair na rua e ver todos os carros parados na marginal por puro protesto e não porque algo os parou, quero que todos tenham algo pra amar, e amem do fundo do seu âmago e não porque alguma propaganda mandou. Quero profundidade, quero risada de verdade e não de desespero. Não é questão de querer mudança, é questão de só ter apatia e desejar mais, muito mais.

Tô precisando sentir. Sentir arrepios de concordância, de deleite, de alegria em pertencer. Isso tudo me paralisa, eu sou tão mais, tão mais eu queria ser. O mundo é pra jogar na nossa cara as verdades, mas o que ele manda é o que a gente planta: ilusão, das ruins. Erro, dos piores. Apatia. Preguiça. Involução. Comodismo. Ignorância.

Fico presa aqui comigo, nas surpresas e delícias que o meu mundinho pode ter, desejando que isso fosse maior, muito maior e sem fronteiras.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Uma pessoa comum como todas as outras

Estes dias eu estava vendo um documentário sobre um casal obeso que queria emagrecer. Então a nutricionista os fez comer pepinos e afins.
Não pude evitar observar o quanto a mulher era peluda e obesa.
E ela realmente era muito, muito peludinha.
Foi então que comentei com minha tia: Nossa, que gorda peluda!
Foi então que começou o espetáculo. Ela disse que era insuportável assistir televisão comigo porque sempre eu criticava as pessoas, e que algumas pessoas não me dizem nada mas no fundo me acham insuportável quando estão vendo TV em minha companhia.
É engraçado que na hora de achar que homossexualismo é doença e que gays são bizarros, ela não pensa duas vezes em falar. Mas se eu comento sobre uma obesa peluda, eu sou chata, insuportável e só vejo o lado ruim das pessoas.

O que eu acho estranho é que eu tenho certeza que se ela visse uma obesa peluda caminhando ao seu lado na rua, provavelmente ela repararia. Ou seja, reparar pode, mas não se pode comentar.
Acho que tudo hoje em dia para as pessoas é ofensa e preconceito. Eu não demonstrei preconceito, eu apenas comentei sobre o que a mulher é em sua mais pura forma: uma obesa peluda.
Não a ofendi. Não disse que ela era ridícula, escrota, fedida, incapaz.
Isso seria ofender.
Quando vejo uma mulher bonita na televisão ou em qualquer outro lugar, sou a primeira a comentar.
Mas dos obesos peludos, das magrelas dentuças, das velhas narigudas, não podemos comentar, pois é preconceito!
Uma coisa é você tratar mal um ser humano por suas condições, outra completamente diferente é você comentar sobre suas condições.
E é hipócrita quem diz que não repara no aleijado torto dentuço que atravessa a rua, na gorda com pneus de banha da Michelin com uma pizza embaixo do suvaco, no garoto com síndrome de down esfregando a cara nas mãos e com ranho escorrendo pelo nariz, na magrela crente com o cabelo ensebado, bigode e bíblia na mão, nos góticos com sobretudo em pleno calor de 45 graus no meio da Avenida Paulista, no tatuado que parece que saiu de um circo, cheio de piencings e cabelo rosa-socorro.
Impossível.
Todo mundo repara.
Você pode não ficar encarando por minutos seguidos porque foi educado assim, mas reparar você repara. Todos reparamos.
Agora...comentar! Não podemos comentar!
É normal quando você vê uma pessoa orelhuda, você pensar: Nossa, que pessoa orelhuda.
Ao mesmo tempo em que é normal quando você vê uma mulher linda de olhos verde-mar, você pensar: Caralho, que olho da muléstia!
Acho que muita gente tenta incorpar uma mistura entre Jesus Cristo e Poliana, aquela mesmo que fazia o jogo do contente. Pra quem não sabe, o jogo do contente, segundo aquela personagem Poliana, consiste em você ver sempre o lado bom das coisas, independente do que lhe acontece.
Por exemplo: Você sofreu um acidente e perdeu sua perna. Mas opa! Pra que ficar triste? Você ainda tem a sua boca e pode cantar lindas canções!!!!

No caso de Jesus, parece que rola uma parábola em que ele e os discípulos estavam passando num lugar e viram um cachorro morto apodrecendo, todo em decomposição.
Foi então que os discípulos comentaram sobre o fedô incontestável daquela carcaça nojenta, ao passo que o afável Nazareno comentou sobre a dentição perfeita e bela do animal.
Acho o jogo do contente muito útil. Acho essa parábola (sei lá se é uma parábola) muito bonita também, mas há um porém. Eu não sou Mr. J.C. e tampouco a Poliana.
E por mais que tentemos levar estes ensinamentos por nossas vidas, nunca seremos Jesus e nem a Poliana, porque ninguém consegue ser otimista o tempo todo, e ninguém consegue ver o lado positivo do chefe seboso que te humilha diante dos funcionários.
Você só conseguirá tal façanha se for muito, muito, mas muito evoluído, amiguinho. Porque esse trabalho Poliana-Jesus é um conjunto de ensinamentos para que as pessoas levem para suas vidas em todos os momentos (e não só quando lhes é conveniente).
Mas de qualquer forma, há pessoas que são mais críticas do que as outras, mas pensar na crítica, todos pensam, alguns em maior quantidade do que outros.

Mas agora, já que estamos falando em críticas e já que eu inevitavelmente gosto de fazê-las, vou falar sobre uma coisa que me irrita um pouco. Claro que não irrita a ponto de eu começar a roer a mobília da casa, mas irrita no sentido de "Caceta, como alguém pode ser tão pouco original?".
Só abrindo uma aspas, estes dias um cara que começou a trabalhar aqui disse que eu era uma pessoa original.
Quase lhe beijei os pés, dizendo que se há um elogio que gosto de ouvir é este.
Bom, mas voltando ao assunto, vou comentar aqui sobre algo nada original: Pessoas que querem ser os velhinhos do NEOQEAV!
Chega!
Não aguento mais todo mundo querendo ser os velhinhos esdrúxulos do NEOQEAV!
Tudo bem gente, a primeira vez que escutei essa história eu achei linda. Nossa! Tema de filme! Que terna história geriátrica! Mas passou né. Já faz mais de 10 anos que esse cacete rola na internet e até hoje o povo fica falando dessa merda.
Que nem aquela bosta do Filtro Solar cujo sábio Rafinha Bastos teve a magnífica idéia de fazer uma sátira!
Essas baboseiras não me tocam, não me dão esperança, me enchem é o saco.
Por exemplo, faz um tempo aí eu postei um texto chamado "Texto 'apaixone-se' com meus devidos comentários".
Bom, vieram 2 anônimos (claro!) me encher o saco. O primeiro disse que provavelmente eu sou mal amada e devo ser infeliz, algo assim. O segundo eu nem lembro direito o que disse mas me chamou de hipócrita e que eu quis dar uma de "intelectual" e engraçada. Não sei onde ele viu que eu quis ser intelectual, mas engraçada eu consegui, visto que algumas pessoas deram risada, eu inclusive. É o mesmo que você for na praia, chegar bronzeado e um babaca perguntar: Nossa, você quis se bronzear?
O que você supõe, seu pequeno acéfalo?

Vamos analisar os fatos. Não sei se esses amiguinhos me conhecem, mas pelos seus argumentos não, mas conhecendo ou não, o fato é que fiquei pensando sobre as apresentações de Power Point que minha mãe e outras pessoas me mandam falando sobre o amor e um mundo perfeito cercado de passarinhos e rouxinóis cantarolando canções da Noviça Rebelde.
Tipo...
Pessoas curtem isso! E elas se sentem bem vendo isso. Sentem-se bem lendo palavras bonitinhas e muitas vezes sem o mínimo contexto. E quem não concorda com isso ou tenta pensar sobre algo que para elas não deve ser pensado e sim sentido, é uma pessoa mal comida.
Vou dar um exemplo. Aquele texto "Apaixone-se" é como a música da Dani Carlos, "Coisas que eu sei". Nossa, é tão nostálgica aquela música, é tão linda de escutar, você fica tão apaixonado! Mas se parar pra analisar a letra você vai chegar à conclusão que a Dani Carlos deve ter fumado sua própria mãe quando escreveu aquilo, porque não faz o MÍNIMO sentido.
O lance do NEOQEAV, pelo contrário, tem muito sentido, é uma linda história. Mas o que me incomoda são casais que escrevem a sigla na aliança, no orkut, no MSN, nas tetas e adotam para suas vidas algo que já está tão batido. Tudo bem, problema deles, cada um faz o que quer e de repente eu deveria ter mais coisas com o que me preocupar, mas vai ver que minha tia tem razão mesmo, vai ver que sou uma chata imutável.
Criem uma sigla de vocês, cacete, por exemplo A.N.D.E.R.S.O.N. - Amor Nativo de Elisângela Raiando Sobre Onório Nelson.
ARGH!
Eu NÃO SUPORTO falta de originalidade, principalmente no que se refere à escrita.
Ou então, se você gostou tanto assim do vídeo do filtro solar BEBE ELE! Mas não encham o saco mandando essas porcarias de texto e falando o quanto isso tudo é valioso e lindo, sendo que nem você utiliza na sua vida!
Isso cansa! E meu, tudo bem, vivemos numa democracia, cada um faz o que quer e não é problema meu, mas como eu disse, estamos numa democracia e eu tenho meu direito de detestar qualquer coisa (desde que não seja considerado racismo saca, senão vou presa) e de falar sobre isso. Muitos já me mandaram me foder por algumas opiniões minhas, mas enquanto eu puder expressá-las podem mandar eu me foder o quanto quiserem, inclusive até agradeço. Problema mesmo seria a falta disso.
E vejam bem, amiguinhos, não sou uma pessoa infeliz! Só não brinco e forço minha felicidade. Procuro ver algumas coisas com bons olhos mas o que não se dá pra ver com bons olhos, não vejo com bons olhos e acabou. Não tenho a síndrome da felicidade eterna de contos de fadas e dos passarinhos pimpões do mundo mágico de Walt Disney.

Não estou falando das pessoas que gostam dessas porcarias (tá bom, estou sim), mas de quem fica enchendo o saco com essas coisas em todo lugar.
O que é mais dantesco ainda é ver centenas de milhares de pessoas com fotos ao melhor estilo Geysi da Uniban, descrevendo-se com a seguintre frase: A Original! Recuse imitações.
Isso me dá vontade de passar a me descrever com uma pessoa comum como todas as outras.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Não é machismo, é crime

Vocês acompanharam, né? A menina da Uniban, que entrou na faculdade com um vestido curtinho. Ela se exibia andando na passarela da Uniban. Os meninos gostaram. Ela continuou se exibindo, más línguas até disseram que ela levantou a saia mais ainda. Durante a aula, ela saiu da sala, entrou no banheiro e aí aconteceu: ela saiu quase que sob urros de um grupo de homens e, depois, quase da faculdade inteira, chamando-a de Gostosa, Gostosa, Gostosa, Puta, Puta, Puta. Teve que ser escoltada por policiais pra sair sem ser atacada ou ser estuprada.

Claro que a menina é estranha. Ela teve um comportamento agressivo do ponto de vista da sedução, se é que a gente pode usar essa palavra, e num local nada apropriado. Ela estava se exibindo. Não estava tendo um comportamento “adequado” a uma faculdade. Mas podemos pensar que fumar maconha, transar na escadaria, também não é. E acontece. E nada disso trouxe vandalismo nem agressão como conseqüência. E nem deveria.

Justificar um crime de agressão, vandalismo e machismo sob esses pretextos, é a mesma coisa que dizer que um estupro é culpa da vítima. E é a mesma coisa que justificar quem bate em prostitutas. Quem xinga travestis. E a lista cresce.
Gente, a menina não estava pelada. Ela só estava com um vestido curto e se exibindo. E se ela fosse mesmo uma prostituta, qual seria o problema? Não gostou, chama o reitor. Ele resolve se a roupa é curta demais e se a atitude é errada, e toma as atitudes cabíveis.

O mais hipócrita disso tudo é que, os mesmos homens que cometeram esse crime, são aqueles que babam e adoram tudo que essa menina representa: a imagem da puta, da mulher-objeto, daquela que usa seu corpo a seu favor. E esses mesmos meninos, se fossem pra faculdade seduzindo, se exibindo e como ela foi, seriam aclamados como fodões .

Estão falando ainda que ela “fez” isso para poder sair em revistas e entrar num reality show. Quantas meninas e quantos homens por aí não dão o cu para entrarem numa novela e ninguém as xinga na rua. Muito pelo contrário, também são aclamados como fodões!

Porque todo mundo se mobilizou pra agredir essa menina? Necessidade de aprovação do grupo? Histeria masculina coletiva? Libido (deles) reprimida? Covardia mesmo?

O pior de tudo são as pessoas dizendo que ela mereceu ou pediu para ser agredida. 700 pessoas xingando e avançando e, se não fosse a polícia, vai saber mais o quê. Isso não aconteceria nem com o Sarney, mas aconteceu com essa menina. Inclusive a expulsão da universidade. Vai entender.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Bin Laden

Fiquem tranquilos que esse não é nenhum texto falando sobre o atentado de 11 de Setembro, tampouco sobre o responsável pelo próprio. O Bin Laden a quem me refiro é outro, cuja única coisa em comum com o original talvez seja a barba, mas ainda assim, de tonalidade e tamanho diferentes.
Mas antes preciso voltar a história um pouco.
Quem me conhece sabe que a minha relação com a minha mãe não é das melhores. Na verdade ela tem fases, nessas últimas semanas por exemplo a gente tem até se falado, se abraçado e passado uma perto da outra sem que surjam faíscas. Mas foi num dos dias de atrito (de enorme atrito) que eu saí de casa chorando e sem rumo.
Se não me engano o motivo da briga é que eu ia fazer um corujão de cinema na Av.Paulista com um namorado novo que eu tinha arranjado, e pelo fato de eu conhecê-lo apenas há duas semanas, um corujão, na opinião dos meus pais, não era muito recomendado.
Isso porque eu veria filmes e não participar de uma orgia com 12 prostitutas e 7 travestis.
Mas na opinião dos meus pais, o cinema com um recém-conhecido era muito perigoso de madrugada, mesmo sabendo que eu já era uma adulta, e que se eu decidisse ir para um corujão com um namorado novo, eu iria, e que se eu quisesse participar de uma orgia com 12 prostitutas e 7 travestis, eu também iria, e nem eles nem ninguém iriam me impedir.
Foi uma briga logo de manhã, derivada da seguinte frase:
-Não esqueçam que hoje eu vou pro corujão e só volto amanhã.
-Blá blá blá blá blá!
-Mas eu já tinha avisado vocês que ia!
-Blá blá blá blá blá!
Entendam, queridos leitores, que os "blá blá blá" que citei, eram muito mais do que simples advertências paternas, mas sim frases sem o menor contexto que magoariam qualquer pessoa, seguidas de gritos e portas batendo. De qualquer forma, melhor não entrar em detalhes, pois isso me traz lembranças não muito agradáveis e também porque não é conveniente.
Inconformada com o tanto de absurdos que tinha acabado de escutar, bati a porta de casa e saí sem rumo.
Chorando.
Na verdade a cena "chorando e saindo sem rumo pelas ruas" é algo que combina muito com a minha vida. =X
Sim, eu era a "garota maluca que saiu chorando pela rua" que as pessoas comentam quando chegam em casa e ficam se perguntando o motivo.
Pro meu conforto, já vi garotas malucas como eu, e vi que eu não era a única que se lixava para as interrogações públicas e que as minhas lágrimas e a minha tristeza eram problemas exclusivos meus, do meu mundo.
Fui até uma praça, era uma sexta-feira, logo cedo, deveria ser umas 9h da manhã. As pessoas caminhavam apressadas, senhores abriam suas barraquinhas de frutas, mendigos festejavam mais uma manhã de porre e crianças pediam coisinhas para suas avós. E tudo passava pela minha vista como um filme irreal que acontecia fora do meu mundo.
Eu ali, sentada num banquinho da Igreja perto de casa, pensando pra onde iria, o que faria, e que estava de saco cheio dessas cenas repetitivas na minha vida: briga - sair de casa chorando - querer morrer - não conseguir conversar com os pais - querer morrer - briga - gritos - querer sumir - conversar - ninguém querer conversar - ninguém saber conversar - choro - querer morrer.
Estava cansada.
E talvez tivesse me atirado duma ponte se não fosse contra o suicídio e vai se saber o que acontece com suicidas né.
De qualquer forma, jamais teria coragem de cometer uma atrocidade dessa contra mim, mas pra não fazer nenhuma outra besteira, sempre preferi sumir pra esfriar minha cabeça.
Depois de um tempo parada no banco, com o rosto inchado de tanto chorar, como se fosse por instinto segui rumo ao cemitério.
Pode parecer maluquice, talvez vocês digam que sou exagerada, que qualquer pessoa no meu lugar teria deixado entrar por um ouvido e sair pelo outro e em vez de seguir rumo ao cemitério, teria parado num boteco e pedir um suco pra esfriar a cabeça.
Mas lembrem-se, amiguinhos, vocês não fazem idéia de como são essas brigas, e além disso a Thaís é uma garotinha com tendências depressivas, pra não dizer depressiva mesmo. Hiperativa e alegre, mas contraditoriamente depressiva.
Mas não fui pro cemitério pra querer curtir uns túmulos, como fazem os nossos amiguinhos góticos, mesmo porque eu odeio cemitérios e acho que sempre tive mais o que fazer do que ficar vendo túmulos (exceto umas duas vezes e acompanhada, por pura falta do que fazer, pois já estava lá perto). Anyway, eu só queria um lugar silencioso onde eu pudesse chorar em paz, afinal, lá é ou não é um lugar propício pra se acabar nas lágrimas?
Se tem um lugar onde ninguém se perguntaria o motivo das minhas lágrimas, esse lugar seria num cemitério. E embora eu não me importe com pessoas se perguntando sobre a minha vida (mentira, me incomodo, mas nessa ocasião eu não me incomodei cacete), enche o saco a quantidade de olhares que não te permitem chorar em paz. Normal. Eu também notaria uma garota maluca a chorar em algum canto da cidade.


Quando a gente entra num cemitério é uma coisa esquisita, parece que quando você põe o pé lá rola um "TCHARAM!" saca? Não sei explicar. Parece que tem coisas lá que se focam em você, que notam a sua presença. Parece que tudo se volta pra você. Eu pelo menos sinto isso.
Mas ignorei o Tcharam e fui seguindo pelas ruinhas tétricas da 4ª Parada.
Inevitável não ler as lápides, mas uma em específico me deixou pior do que eu estava.
Era uma foto preta e branca, de um garoto tocando uma guitarra, e pelas contas que eu fiz ele deveria ter uns 19 ou 20 anos. Morreu acho que em 2005, algo assim, agora não lembro. Mas abaixo da foto havia a frase: "Saudades de sua mãe, de seu pai e de suas irmãs".
Chorei feito uma criança traumática.
"A gente não precisa disso" pensei.
Tudo o que eu mais queria era me acertar com meus pais, mas parece que existem pessoas com as quais você não consegue se entender nunca.
É claro que amo meus pais, e é claro que temos momentos ótimos juntos, mas os momentos tristes acabam infelizmente sendo muito intensos, e acabam deixando marcas que não podem ser esquecidas tão facilmente.
De repente eu me via lá, sozinha num cemitério, e talvez naquele dia mesmo ou no dia seguinte eu não poderia estar mais por aqui e nem eles, e aí a gente perdeu nosso tempo discutindo em vez de curtir uma vida familiar normal, substituindo momentos que poderiam ser bons por momentos ridículos como aqueles.
Pra mim, o túmulo do garoto já era o suficiente.
Saí de lá.
Foda-se se iam olhar pra minha cara de choro, ficar num cemitério cheio de adolescentes
que tocavam guitarra não adiantar muita coisa mesmo.
Segui até uma pracinha que tem lá perto e sentei num banco.
Respirei fundo.
Olhei pro céu.
Foi quando de repente passou por mim a figura que dá nome a este texto.
Uma figura terrivelmente vestida, suja e com olhos azuis dignos de inveja.
Passou por mim falando alguma coisa sozinho, esbanjando bom humor, e então me sorriu.
Acho que ele não esperava que eu fosse sorrir de volta, mas eu sorri.
Então ele caminhou mais um pouco, parou, e se virou para me olhar novamente.
-Mas o que uma menina tão linda está fazendo aqui sozinha e chorando ainda por cima?
-Estou com uns problemas em casa. Não quero voltar pra lá tão cedo.
-Mas que bobagem! Uma menina como você, que tem família, não pode pensar uma coisa dessas! Volta pra casa, conversa com seus pais!
-Não dá. Não dá pra conversar com eles.
Silêncio.
-Como é seu nome, menina?
-Thaís. O seu?
-Você pode me chamar de Bin Laden! É por causa da barba! Todo mundo aqui me conhece por Bin Laden!
-Sei. Bin Laden! - Não pude deixar de esboçar um sorriso. - Qual o seu nome verdadeiro?
-Maurício! Maurício de Carvalho! Olha aqui, eu tenho documentos viu! - no mesmo instante tirou do bolso uma porrada de papeizinhos junto ao RG. E estava lá "Maurício de Carvalho".
-Eu moro na rua, mas tenho aqui os meus documentos!
Bom, alguns minutos se passaram e eu fiquei lá trocando algumas idéias com ele, o que fez com que eu me sentisse bem melhor do que estava, me fazendo tirar uma foto mental da garota de classe média sentada num banco conversando com um mendigo de igual pra igual. O que não é sempre que se vê por aí.


Depois tive que ir embora, uma amiga iria me buscar de carro lá perto e ele não permitiu de jeito nenhum que eu fosse sozinha até a rua de cima. Fez questão de me acompanhar.
-Thaís, eu moro na rua, mas sabe que tudo tem o seu lado bom? Eu conheço tanta gente que vale a pena. Você por exemplo! Se eu estivesse na minha casa agora, eu jamais teria te conhecido.
Me despedi de Bin Laden frente ao carro da minha amiga, apresentei os dois, que ficaram falando sobre a Bíblia por quase 10 minutos. Prometi ao Bin Laden que voltaria, e alguns dias depois cumpri minha promessa, me recordando da frase que ele havia me dito antes de virar a esquina:
-Se você realmente vier me visitar, pode falar pro pessoal lá que você é amiga do Bin Laden! Se você disser isso, ninguém vai mexer com você! Todos vão te respeitar!
Naquele dia que o conheci eu sumi, minha amiga me deixou no metrô e de lá não vou dizer pra onde fui, mas eu fui e só voltei pra casa no dia seguinte umas 14h. Não, eu não
estava numa orgia com as prostitutas e os travestis.
Quando cheguei em casa, ninguém perguntou pra onde eu tinha ido, ninguém falou comigo e depois eu nem lembro o que fiz o resto da tarde.
Mas também não importa.
O que sei foi do dia em que eu voltei para vê-lo.
Quando cheguei no fundo da praça, perguntei por ele, mas ele não estava.
-Quem é você?
-Sou amiga do Bin Laden.
-Amiga? Bonita desse jeito? Novinha desse jeito?
-Onde ele está?
-Ele foi entregar uns panfletos no Cabral ("balada" lá perto) e daqui a pouco deve estar de volta. Enquanto você espera ele aí, poderia nos emprestar o celular para ligarmos pro Samu? O "fulano" lá está tendo um ataque epilético de novo.
Quando olhei pro lado, um mendigo babando se debatia no chão.
"Deus é pai" - pensei. - Mas quase dei risada ao imaginar a cara dos meus pais se me vissem parada no meio da praça rodeada de mendigos curiosos a meu respeito.
Liguei pro Samu, que veio buscar o fulano do qual não me lembro o nome, e na hora em que o estavam colocando na maca, me virei para trás, como se eu soubesse que ele estava chegando.
-Mas ela veio mesmo!!!!!
Nos abraçamos como é típico daquelas amizades especiais que a gente encontra pela vida.
-Eu trouxe um caderno. - eu disse - Você havia comentado comigo que sabia escrever poesias e eu quero que você escreva uma pra mim e assine.
Ele não acreditou.
Repetiu que era uma honra incontáveis vezes...e passou a dizer que eu era "sua rainha Ester". Ai ai.
Rainha Ester...hahaha...
De qualquer forma, é graças àquele nosso momento juntos que hoje posso mostrar à vocês isso aqui:


"Eu não posso duvidar - por Maurício de Carvalho
Se me atinge a aflição
Se o momento me é cruel
Se a dor provoca o pranto
E a tristeza tira o encanto
E escurece no meu céu
Sem saber do amanhã
Indeciso me encontrar
Se o minuto ainda vem
Mil tristezas ele tem
Eu não posso duvidar.
Não duvido pois eu sei
Que Jesus meu grande Rei
Ele está sempre a me proteger
Ele está sempre a me guardar
por maior que seja a prova
Minha fé mais se renova
Com Jesus hei de vencer
Eu não posso duvidar".


Muito bem escrito, lembrando do detalhe que ele é mendigo e não deve ter estudado muito. Na verdade, eu achei essa poesia linda.
Bom, resumindo a história, senão vai ficar muito grande...
Naquele dia ele me acompanhou até a Avenida que eu teria que atravessar pra voltar pra casa, e quando havia atravessado a primeira rua, eu me virei, mandei um beijo, e com as mãos ele fez um coração no ar.
Depois daquele dia ainda voltei algumas vezes.
Uma vez voltei e ele estava dormindo. Daria uma fotografia bonita. Eu lembro que ele estava bem rosa enquanto sonhava.
Outra vez voltei com uma amiga minha, e ele fez questão de pagar uma tubaína pra gente no bar.
Desta vez ele estava bebaço. E isso me fez lembrar agora de uma circunstância onde eu havia perguntado o motivo de ele beber tanto. Mas é óbvio que eu já deveria ter adivinhado. Qual é o único motivo que leva a beber uma pessoa nessas condições?

"Bebo pra esquecer que eu existo".

E foi com ele bebaço daquele jeito que a gente descobriu que já faz alguns anos, ele foi internado numa clínica psiquiátrica por ter esquartejado não sei quem, mas diz ele que a pessoa queria fazer mal à ele. Vai saber. Aí ele cumpriu uns anos e depois saiu.
Foi nesse mesmo dia que ele tentou pegar no meu peito e perguntou se eu e minha amiga nos depilávamos.
-Ah um pouco a gente tira né, senão vira a Amazônia. (Thaís eu não acredito que você me trouxe aqui pra contar sobre detalhes da minha xana pra um mendigo) - sussurrou ela.
-Como eu ia saber que ele ia perguntar da nossa depilação, filha?


Tudo bem, tudo bem. Ele poderia nos esquartejar se quisesse? Podia!
Ele poderia nos estuprar? Podia!
Ele poderia nos perseguir? Podia!
Mas a situação foi tão ridícula que chegou a ser engraçada, mas séria o suficiente pra eu não voltar mais lá, afinal, se dessa vez ele havia perguntado da minha depilação e tentado pegar no meu peito, da próxima vez ele me traria cera depilatória e camisinhas!
Não voltei lá. Se eu tivesse noção de que o mesmo cara das poesias poderia me esquartejar um dia caso eu negasse fogo...
Bom...Hoje, mais de um ano depois, eu fico pensando nessa história me achando um pouco bizarra e sem noção.
Mas fazer o que?
Eu sou um pouco bizarra e sem noção.
Alguns nascem bem humorados, outros nascem de mal humor, outros nascem com o dom de ser padre, outros nascem um pouco bizarros e sem noção...outros nascem completamente bizarros e sem noção.
Se bem que, perto de muita gente eu não passo de uma ovelha comum no meio do rebanho.
Tem gente que diz que eu sou completamente sem juízo. O meu ex namorado (namorado naquela época, se bem que fiquei tão pouco tempo com ele que nem deveria considerar aquilo um namoro), havia achado minha atitude linda. "Oh que amor, ela faz amizades com mendigos". Mas o que esperar de um estudante de teatro que adora analisar pessoas do nada, e que chegou a conclusão através do meu olhar, que eu era capaz de carregar ódio em meu coração, só porque eu estava seriamente comendo uma esfiha de carne? Affe como tem gente que adora uma seção psicanálise. Saca? Gente que curte analisar os outros e chega às conclusões mais absurdas através das coisas mais bestas, nos momentos mais inoportunos?
FILHO EU TAVA OLHANDO A ESFIHA QUE EU TAVA COMENDO, NÃO TAVA ODIANDO A HUMANIDADE! Meeeuuu, da onde você tirou isso, cara?
Pronto! Isso tava entalado.
Bom, mas a questão é que eu não saio por aí fazendo amizade com mendigos (assim como não saio fazendo amizade com qualquer pessoa) metida à "Garota-Caridade" como ele deve ter pensado. Tampouco acho que são pessoas "especiais" como acham alguns metidos à Nossa Senhora. Tipo...mendigos são mendigos, padeiros são padeiros, crianças são crianças, ornitorrincos são ornitorrincos.
Maaaaas....cada pessoa tem sua peculiaridade. Alguns acham lindo garotas que usam minissaia. Outros, ficam babando numa loura de cabelos compridos. Uns preferem mulatas que usam decote, e outros, preferem garotas que curtem mendigos. Quer dizer, na cabeça dele, eu curtia mendigos.
Não é porque você come açaí com ovo uma vez que você sempre comeu e sempre vai comer. Se numa circunstância você quiser comer ou a situação pedir que você coma, você vai comer...ou não vai. Mas enfim.
Já meu atual namorado quando soube da história, fez questão de arrastar seu queixo pelo chão, dizendo que tudo foi um absurdo e que "como eu pude deixar um mendigo dizer essas coisas pra mim e ainda passar a mão no meu rosto e me pedir em casamento, não prometendo sexo por ser broxa mas tudo bem, por que a língua ainda funcionava?"
Tá, eu concordo com ele, mas como raios eu ia adivinhar que o velho ia me dizer esse monte de merda? Vai trouxa, fica dando trela pra mendigo!.
A história é bizonha. Ponto! E talvez eu não tenha mesmo noção da realidade, ou talvez eu tenha mais noção da realidade do que a maioria das pessoas. Talvez todo mundo seja muito acostumado com as coisas e eu não, talvez seja o contrário, mas às vezes eu tenho ataques de "e por que não?" e acabo fazendo umas coisas malucas que ao meu ver não são. A questão é que (voltando ao assunto), querendo ou não, Bin Laden pode ser um amor de pessoa e escrever livros de poesias incríveis (que ele lembra tudo de cabeça), mas não está lá porque é santo. Pra maioria das pessoas é muito óbvio o motivo pelo qual a maioria delas não dá trela pra mendigos...mesmo porque, elas evitam pessoas que falam sozinhas, dançam sozinhas, dão risada sozinhas e fedem. Para muitos, mendigos são sinal de audiência no Youtube, para outros, são a escória da cidade. Pra mim nada em relação a eles era óbvio, a não ser o básico, afinal, "por que não?" Afinal, são seres humanos como eu. Aliás, ainda me resta alguma parte da essência teatral que diz que se deve respeitar as pessoas independente de quem sejam e da essência aquariana que não tem tabus em fazer amizade com qualquer pessoa (desde que não façam coisas que fujam muito dos meus princípios).Mas pra maioria das pessoas é óbvio um monte de coisa, a questão é que muitas delas não fazem algumas coisas simplesmente porque não fazem, porque dizem pra não fazer, porque são acostumadas a não fazer. Eu sou assim, todos são assim. Inclusive já melhorei muito, eu já fiz coisas muito ridículas ao longo da minha vida e já agi feito uma completa retardada só por querer ser diferente e fazer o que ninguém fazia.
Hoje não preciso disso (não muito), só quando a síndrome do "e por que não" fala mais alto do que minhas boas maneiras.
Em algumas ocasiões eu "prefiro métodos empíricos" mesmo, o que faz com que por mais que eu seja meio sonsa em relação a isso, pelo menos tenho algumas histórias como essa pra contar. Isso porque esse texto é só um resumo, ainda há muito mais coisas que eu poderia contar aqui. Poderia contar dos mendigos que conheci, que lembro o nome da maioria deles, poderia falar que o cachorro do Bin Laden chamava Mortadela e tinha mais uns dois ou três que não me lembro o nome. Poderia falar aqui do mendigo que chamava Marcelo, que andava com uma muleta e tinha incendiado a própria casa. Poderia falar que uma semana antes de conhecer o Bin Laden, um dos amigos dele havia morrido doente lá na praça. Poderia falar que Bin Laden catava papelão na rua pra conseguir comprar algumas comidas pra ele e pros amigos. Poderia falar que um dos mendigos achou que eu era de alguma comunidade católica e me pediu uma calça nova. Poderia falar que tem mais uma poesia linda que o Bin Laden me escreveu, mas eu deixei o papel lá em casa. Poderia falar que eu decorei a poesia lá em cima que digitei pra vocês lerem e em uma das vezes que eu o visitei, eu recitei a poesia pra ele sem ler e ele morreu de orgulho e se sentiu importante.


Poderia dizer que essa história toda vai ficar na minha cabeça pro resto da vida. E quando eu for uma velha caquética, em vez de contar pros meus netos o que "aprontei quando jovem" tipo aquele texto que fala "ah o verão é a estação da perdição e tudo o que acontece no verão é o que você vai contar pro seus netos", enquanto todo mundo vai contar sobre os porres que deu na praia, os namorados escondidos, eu vou contar sobre a minha amizade com mendigos que esquartejavam pessoas e escreviam poesias.
Eu dou risada de lembrar do Bin Laden que me disse um monte de pornografia, tenho medo do Bin Laden que esquarteja pessoas no passado, mas o Bin Laden que sentou ao meu lado pra conversar num banco qualquer da cidade, e que escreveu uma linda poesia no meu caderno, eu lembro com uma ternura quase surreal, como se ele não existisse.
E lembrar dele, me dá ainda mais a impressão de que se minha vida fosse um livro e eu fosse uma leitora qualquer, esse ia ser um capítulo que eu jamais esqueceria.
Na verdade, se isso fosse um livro mesmo, eu seria a moça que teve uma leal amizade
com o mendigo pro resto da vida, e ele a ensinou as coisas simples e de valor e ambos cultivaram momentos mágicos de amizade.
Mas não, na realidade, a maioria dos mendigos quer comer a garotinha bonitinha de 20 e poucos que caiu de pára quedas na vida deles por alguma circunstância, ainda mais se essa mocinha se perguntar "e por que não ter uma amizade com um mendigo?"
Aí já era! Bora ser esquartejado!
Por que quem esquarteja uma vez, esquarteja outra né.
Vai que ele me pedisse 1 real um dia que estivesse bêbado e eu não tivesse?
Hoje minha vida poderia estar em pedaços...literalmente.
Eu sou uma garota esquisita, convenhamos.
Mesmo porque, muitas vezes "os que dançavam, foram considerados insanos por aqueles que não ouviam a música".
E eu estou sempre dançando por aí
Mas como todo ser humano comum, não é toda música que escuto, e também já cansei de ver gente dançando no silêncio.
Afinal, por mais peculiaridades absurdas que tenhamos, todos temos um ponto em comum, porque o clichê está corretíssimo em dizer que de perto
Ninguém é normal.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Tristeza social

Aconteceu ontem. Uma menina potencialmente inteligente, do alto dos seus vinte e poucos anos, numa aula qualquer sobre políticas públicas, falou umas frases defendendo o uso do "caveirão" (carro de guerra blindado do Batalhão de Operações Policiais Especiais, da PMRJ). Deu briga.

A aula era sobre cidadania, políticas públicas, quais melhoras já ocorreram, quais precisam ocorrer, pelo prisma governamental, com base na nossa constituição e suas diversas manifestações (organizações regionais e estaduais). E surgiu um assunto muito bacana chamado "criminalização da pobreza". Basicamente ele coloca toda a farinha no mesmo saco, ou seja, se é pobre é ladrão e traficante. Um sociólogo percebeu que isso está ultrapassando fronteiras e se tornando um preconceito de todos, demonstrado em atos diários como a não contratação de pessoas que moram em lugares perigosos (isso vem acontecendo muito no RJ). E aí chegamos no assunto violência gerando violência, e sei lá porquê motivo alguém mencionou o Caveirão.

Antes da discussão, alguns fatos: somente 3% da população é considerada por especialistas como psicopatas ou sociopatas, ou seja, pessoas que fazem de tudo para satisfazer seus prazeres sem sentirem culpa ou remorso genuínos. Essas pessoas não têm tratamento, precisam mesmo ficar isoladas da sociedade. Porém, os outros 97% dos criminosos, está no crime por pura contingência: foi mais fácil esse caminho, ou ainda, a outra opção estava muito distante. Posto isso, podemos constatar que numa sociedade bacana que os provessem de oportunidades, 97% dos criminosos teriam recuperação.

Voltando à briga, o senso comum se manifestou através dessa menina, que disse as frases básicas que já ouvi de muita gente por aí: "tem que matar todo mundo e começar de novo mesmo", "violência tem que ser punida", "ladrão tem mesmo que morrer" e "os fins justificam os meios". Quando questionada se ela não achava que a violência deveriaser olhada pelo prisma da causa (desemprego, fome, desespero social) e não da consequência (crimes em sí), ela respondeu: "política social leva muito tempo pra acontecer, precisamos punir enquanto isso".

O que ela não percebe - e toda a nossa sociedade que pensa assim também não percebe - é que desde SEMPRE a política social demora. Ou seja, ela NUNCA funcionou. E provavelmente nunca vai funcionar. Mas, ao invés de discutir o porquê disso, ficamos discutindo se é certo ou não policial blindar um carro e disparar 140 tiros por minuto contra a sociedade, composta de criminosos E de inocentes.

A metáfora é a seguinte: vamos num supermercado (que neste caso representa o governo), damos dinheiro a ele, pagamos por um produto que o supermercado teria condições de nos dar, porém ele nos diz: então fulano, não vou te entregar o produto agora e não sei quando te entregarei. E aí, nós, acostumados que estamos com isto, aceitamos a falha do supermercado e vamos brigar entre nós por comida. Nos matamos por algo que deveríamos exigir lá do supermercado.

Nunca discutimos os motivos pelos quais as políticas públicas não funcionam. Discutimos a morte, o caos. Mas não os motivos. Culpa do pão e circo, culpa das pessoas que mandam no sistema, burguesia que domina não só a política, mas os meios de comunicação e as empresas de bem de consumo. Por causa desse sistema, não é muito lucrativo acabar com a seca do nordeste, com a educação precária. Pra quê munir as pessoas de arma contra essa mesma burguesia? Mas também, culpa das pessoas que poderiam ver a situação como ela é, e decidem continuar cegas, mesmo depois de uma discussão como essa que aconteceu em sala de aula.

A pergunta que ficou e não teve resposta: porquê então não usamos o Caveirão lá no Morumbi, nas casas ricas, se lá naquele bairro também estão os traficantes?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Saco Cheio

Tô de saco cheio de gente que fica citando Nelson Rodrigues.
O cara era um verdadeiro idiota, o midas da pornografia e da tragédia. Tudo o que fazia tinha que ter pelo menos uns 10 peitinhos e uns litros de sangue. Ah, e traição, muita traição, revólver, arrependimento, lágrimas e todo aquele drama insuportável.
Tô de saco cheio de intelectuaizinhos de merda classificarem qualquer porcaria com nome de escritor / autor famoso + o final "ano".
Tipo, "Rodriguiano", "Shakspeareano". Por que vocês não vão tomar no Meiodoânus Rodriguiânus de vocêzânus?
Gente que não tem idéia própria e tem que citar sempre um "já dizia" ou "como dizia" no meio de suas frases.
Já dizia Nietzsche, Já dizia Fróliczsche, já dizia Sacozsche. Ninguém cita as frases da dona Gumércia da Padaria da Esquina. Ninguém cita a sábia frase de um mendigo que teve um surto de genialidade em meio à cachaça da tarde!
Não...são SEMPRE as mesmas referências. Ainda se usassem o tempo pra discutir isso e chegar à uma conclusão útil, mas só ficam esmiuçando as frases, as obras e etc e não chegam à conclusão nenhuma.
Bom, fiz teatro por um tempo, aliás faculdade de teatro (não terminei, não tive estômago). Imaginem o tamanho do meu saco ao longo do tempo. Quantas vezes escutei o termo "Rodriguiano" e quantas vezes não tive que aturar garotinhas rodriguianas de 18 anos defendendo a nudez no palco sem o mínimo contexto.
Mas não se preocupem, para pessoas como essas que estou citando aqui no geral, sempre haverá um nexo para a coisa mais sem nexo do mundo e sempre, sempre haverá um contexto pra aquilo que jamais terá um contexto. Então você pode ser um verdadeiro idiota, mas se concordar com tudo o que disserem, estará feito!
Será que esse povo pensa que citar esse povo os torna mais inteligentes?
Tô de saco cheio, MUITO CHEIO de gente que ao falar sobre a lei anti fumo, começa a dar uma palestra sobre a ditadura.
Amiguinhos, vocês não precisam disso! Querem esbanjar seus conhecimentos sobre ditadura? Vão dar aula de história pro colegial!
Ninguém no meio de uma conversa num buteco ou numa comunidade, quer saber sobre o seu conhecimento de ditadura só porque o povo tá discutindo sobre a lei anti fumo, que a propósito não tem nada a ver com ditadura mas o povo gosta de botar a ditadura no meio de qualquer coisa que envolva leis que proibam alguma coisa, mesmo que o alguma coisa seja a fumaça atirada involuntariamente em nossos pulmões.
Aliás, esse pessoal metido a USP sempre vem com esses papos. Tudo pra eles é a ditadura, é o capitalismo, o comunismo, o fascismo, o liberalismo, o Hitler e viva o Anarquismo. Digo metido a USP mas nem sempre o povo é da USP, e nem sempre quem é da USP tem pensamentos assim, but anyway, eu tô dizendo no geral, não venham me encher o saco.
Quer ser Anarquista? Vai pra marte! A sociedade não tem mais lugar pra babacas como você. Aliás, vamos fazer um teste! Aja como um anarquista completo por 1 semana. Vamos ver o que te acontece.
-"Ah dei um peido na praça"
-Sim, porque já dizia Trotsky...
-Oi, tudo bem? Comprei um pirulito de manga!
-Que ótimo! Sabe....viva o anarquismo!
-Atchim!
-Saúde! Estamos sendo tomados por uma Neo-Ditadura Simplista e Barbárica de teor fixo no fluxograma!
Saca?
Tipo...foda-se!
Eu não sei que mania é essa de todo mundo querer parecer que sabe das coisas.
E as pessoas não saem disso, qualquer discussãozinha já estão lá falando do modelo-imperialista-grutânico-nazista-imperialista brasileiro-babânico-europeu.
Agora eu vou dar um recadinho pra vocês, pessoas "super cultas": Vocês são um pé, mas um pé bem grande, daqueles cheios de joanete inflamada, pus e chulé, BEM GRANDE no saco. E naqueles sacos gordos que arrastam no chão!
Vocês são insuportavelmente chatos, e não percebem, o quanto, mas O QUANTO vocês são ridículos.
Um dia perguntei pra um cara o motivo de ficar citando a ditadura e frases prontas durante uma conversa sobre um assunto qualquer, e ele disse que quando a pessoa faz isso, ganha mais credibilidade.
Sim, se você é um ratinho comandando que não pensa por si próprio e não tem os próprios argumentos, talvez!
Credibilidade o meu rabo!
Haha! Brasil é um lixo mesmo.
Um lixo bem grande cheio de moscas brilhantes de sebo.
Tô de saco cheio.
Saco cheio de gente que gosta de Cazuza e Raul Seixas. Aquelas músicas do Cazuza tocando na Nova Brasil FM? PORRE! Marina Lima cantando as músicas do Cazuza na Nova Brasil FM? PORRE! Gente que até hoje endeusa o Cazuza? PORRE! Filme do Cazuza? PORRE! Marina Lima cantando aquela música do "todas de bundinha de fora?" Ou cantando qualquer outra porcaria? MEGA ULTRA PORRE de vodka com vinho seguido de vômito.
Meu...Cazuza, meu! Cazuza! O que ele fez? Ele revolucionou o que? Vem me dizer que ele revolucionou? Filhos, se ele tivesse revolucionado alguma coisa, alguma coisa teria mudado desde suas músicas, mas a nossa piscina continua cheia de roedores e blá blá blá wyskas "COMO DIZ" um amigo meu! Saca? Tipo, músicas reclamandinho da politiquinha em meio à showzinhos regadinhos nos bastidorezinhos de bebidinhas e droguinhas! Não tenho saquinho pra fãzinho do Cazuzinha que não foi absolutamente nadinha! Se eu subir num palco e cantar a seguinte canção:"

Blá blá blá
Os políticos nos roubam!
Blá blá blá, o Brasil é uma selva
Blá Blá Blá
Os políticos nos roubam!
Blá blá blá, vou deitar na relva!

Também serei endeusada pela massa de lasanh...ops, pela massa "intelectual".

Ainda endeusar o Renato Russo vá lá, pois ele sim escrevia coisa inteligente de forma inteligente. Ele sim não fazia só música, ele escrevia muito bem, rimava muito bem, colocava as coisas muito bem. Mas de qualquer forma não sou de endeusar ninguém, então ele que se foda também.
Raul Seixas....tá! Tomar banho de chapéu! Foda-se! Tiro o chapéu pra você Raul, apenas para que você VÁ TOMAR BANHO e sem ele, mas eu esqueci, você já está morto, então que vão os seus fãs, pra não mandá-los fazer outra coisa!
Saco cheio também de filme brasileiro.
Acho que o povo nunca vai se cansar de fazer filme que defende bandido.
E ainda vai pro Oscar!
Claro, o bandido afinal é um coitadinho sem oportunidade.
As vítimas que trabalham honestamente tem mais é que serem destruídas mesmo.
Como diz meu irmão, o povo adorar faturar através da tragédia alheia.
Ganharam notas fazendo aqueles filmes / peças sobre a miséria nordestina, tipo Vidas Secas antigamente, e hoje com essas merdas de Cidade de Deus, Carandiru e afins, e jamais pensaram em ajudar nem os "coitadinhos" nem as vítimas com a grana que ganharam.
Vamos ver até que ponto os bandidos são coitadinhos. Até que um deles assassine o filho recém nascido de um dos nossos queridos e cultos cineastas, críticos fodões no próximo dia das mães.
Esse povo ainda é pior do que toda essa merda.
Tô de saco cheio do Brasil. Da burrice, do comodismo, da sujeira, da nojeira que é esse circo, esse chiqueiro.
E o povo brasileiro só tá na merda porque merece.
A culpa é do governo?
Dos políticos?
Se todo mundo fizesse a sua parte seria justo pensar assim.
Mas o povo também rouba, também se aproveita, também é desonesto, é sujo. É hipócrita!
Patria Amada, Salve, Salve!
Salve-se você, Pátria Amada, através de um milagre, porque os seus filhos só farão mesmo jus à bandeira se esta lhes for introduzida no reto.
Afinal, aqui é ou não é o país das bundas?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lá onde se ouvia coisa boa desde cedo..

Não sei se é questão de saudosismo. Mas gente, eu ouvia The Smiths, ACDC, Van Halen, Metallica, Iggy Pop, Iron Maden, Echo & The Bunnymen, amava Paralamas, Engenheiros, Titãs, sabia de Legião, – só não era de decorar todas as letras porque achava muito depressivo – de Michael Jackson, de Madonna, cresci ouvindo Beatles, Elis Regina, Cartola, descobri Pink Floyd, U2, Pearl Jam, Jamiroquai e muitos, muitos, muitos outros, muito cedo.

Se existiam os grupos da modinha? Claro. New Kids On The Block (ai que vergonha) bombava nas radios e nós com as fitinhas tentando gravar as músicas sem as propagandas junto. Mas era só pra ouvir com as amigas, dançar e pertencer. Pra tocar a alma e entender os sonhos, as angústias, as vontades e problemas de ser uma adolescente, só esse povo aí de cima. Não tinha Menudo que me entendesse melhor.

Daí eu olho pra NXzero, olho pra Fresno, pro que o Capital e Jota Quest se tornaram, pra toda moda de cafetão rapper tarado e falsa diva dos EUA e me pergunto: o que será desses meninos e meninas que, mesmo em meio a tanta facilidade de conhecer coisas bacanas, se prendem a esse tanto de música que não é tocada por uma mão humana, mas sim por uma máquina de sampler?

Reflexo dos tempos, do capitalismo que idiotiza, dos pais sem cultura pra passar pra frente, das pessoas rasas e vazias, ou simplesmente saudosismo de uma quase balzaca? Sei não, mas ainda prefiro a Infinita Highway...Highway....

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Esse texto tá um lixo.

Estou à beira do desespero.
Não, não é nada disso aí que vocês que escutam minhas lamentações estão acostumados.
Mas a questão é a seguinte.
Daqui desta sala de aula onde tenho estudado photoshop todas as noites, eu sou a mulher mais terrível que há.
Não por uma questão psicológica, mas sim por uma questão física mesmo.
Sobre minha cabeça, um ovo se instalou.
Exatamente isso.
Estou deixando o cabelo crescer.
Sempre nessa época quando batia o desespero, eu cortava de novo. Mas não desta vez.
Desde que cortei pela primeira vez, essa é a vez que ele está mais comprido.
A primeira camada tem 4 dedos de cumprimento. Imaginem a dimensão do ovo.
Passeio pelas ruas e pelos corredores com um ovo de avestruz sobre minha cabeça.
Todos os dias tenho apelado para o gel, presilhas, faixas...mas não adianta.
Sinto-me como aquelas garotinhas sebosas de 13 anos que escondem-se por trás de seus cachinhos oleosos enquanto os enrolam compulsivamente ao tropeçar nas próprias pernas.
Sim.
Estou me sentindo a mais terrível das terríveis.
Aliás.
Ando muito complexada.
Que merda tá acontecendo comigo? Ano passado eu tava tão bonita e agora tô aqui parecendo uma lombriga que não se acha no espaço.
Olha eu nunca liguei muito pra esse lance de aparência, tanto é que na maioria das vezes misturo malhas de avó com tênis, listras e bolinhas. Não quero que ninguém me ache maravilhosa, só não quero que olhem pra mim e digam: "Gente, a avícola tá chegando!"
Saca?
Tenho certeza que se eu cair de cabeça num chão quente, vai juntar uma galera pra comer uma omelete!
E eu não tenho o que fazer. De manhã lavo o cabelo, ponho um chapéu xadrez pra ver se o volume abaixa, mas o ovo tá ficando tão revoltado que daqui a pouco ele vai chocar, e eu serei obrigada a caminhar com um pintinho sobre meus cabelos, o que convenhamos, seria muito mais fofo.
O povo às vezes pensa que eu sou meio "foda-se", mas dependendo da época eu sou a típica menina de 13 anos sebosa. Fico olhando no metrô com medo das pessoas notarem o quão ovesca eu estou.
Ando tão distraída com meu ovo que hoje assinei a lista de presença do curso 3 VEZES!
Assinei no nome de 2 caras e no meu.
Não me perguntem como fiz isso.
Eu não sei.
Só sei que ele perguntou quem era Thaís, e eu respondi que era eu.
Heis que: Você assinou no meu nome e no nome dele!
A sala toda se virou para mim.
Neste momento senti a gema do ovo derreter.
Pensei: todos-devem-estar-observando-
meu-ovo!
Pedi desculpas e disse que não sei o que havia acontecido.
E EU NÃO SEI!
Que porra deu em mim de assinar essa merda 3 vezes?
Forças do além? Uma abdução?
Não queridos.
Era a força do ovo se apoderando do meu cérebro.
Na verdade vou ser bem sincera, faz uma década que não me sinto assim. A última vez que me senti assim mesmo foi exatamente quando eu tinha 13 anos e um cabelo semi-enrolado que fazia questão de armar.
Acho que na verdade eu sei o que é.
Este ovo reflete a minha situação interior.
Não ando bem estes dias.
Tenho certeza que quando eu me sentir melhor, um pavão albino e brilhante vai se instalar na minha cabeça.
E agora com convicção vos digo: Que grande lixo esse texto.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Partes

Meu coração muitas vezes se aperta. E me conhecendo como ele conhece, sabe a razão. Nunca pertenço, apesar de parecer livre e segura. Não me acho, apesar da auto-análise diária e de tanto esforço pra ir a fundo. Nunca chego no ponto, apesar de discorrer sobre ele como ninguém. Não mudo, apesar da constante reviravolta.

Minha cabeça pensa tudo, agora, ontem, amanhã. O corpo queria ser outro. As mãos já calejadas e algo experientes, tatearam muito nessa curta vida de 28 primaveras. Os pés, indecisos, sempre prontos pra próxima caminhada.

Meu estômago tem borboletas voando dentro dele. Meu peito tem coragem e uma raiva que consegue ir pra garganta e sair no formato que eu quero, suave porém ácida. No meu colo, a segurança das coisas aprendidas.

Meus olhos são livres, crianças pra dentro e fora de mim, sempre à frente, sempre no mundo criado, aprendido, usado pra se esconder e pra viver diferente. Eles guardam meus sonhos e sabem de tudo que se pode tocar.

Meus lábios podem, percorrem, chamam, contam. Os ombros sofrem o peso. Agacho, levanto, dou a volta, vou até você. Todos estão aqui, em todas as partes. Me separo, mas não sei onde começo e onde acabo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Esqueminhas que na prática eu não entendo

Amar com desapego, como já ensinavam os budistas

Não namorar? não casar? transar aleatoriamente? ser feliz com múltiplos parceiros? desistir da monogamia pra sempre? largar mão de se preocupar com quem se gosta? Alguém me diz como DIABOS se ama com desapego, na prática?

Dinheiro não traz felicidade ou Só dinheiro traz felicidade

Ou nego apela pra religião pra justificar suas mazelas materiais ou se joga em qualquer merda que possa fazê-lo ficar famoso e rico, bem como venda de integridade no atacado. O meio-termo anda perdido por aí em algum lugar, onde?

Comercial de margarina e de Iogurte que faz cagar

Será que realmente existem mulheres que acreditam que sua barriga grande e que seu mal humor são causados somente por cocô estocado? Será também que existem famílias inteiras que tomam café da manhã juntas e sorriem, se amando saudavelmente com ômega três às seis da manhã?

Filmes pornôs

As mulheres não gozam, nessa vida real imaginária? E, quando se supõe que gozam, é dando um sorrisinho com o canto da boca e fazendo olhar de tigresa pra câmera?

Bonito por dentro, vulgo Não se julga um livro pela capa

Esquece então de usar aquela calça jeans que realça sua bunda e para de tirar as sombrancelhas. O mundo é cruel, eu estava lendo esses dias que a gente esteticamente é regido pela opinião primária, que consiste mais ou menos no seguinte: se eu ficar recendo informações do mundo ou da mídia só de gente bonita, magra e lisa, logo depois eu tendo a repelir tudo que seja diferente disso, os padrões viram aqueles lá. Ou seja, o troço só tende a piorar pro lado das pessoas que não tem uma capa lá muito bem diagramada. Alguém consegue REALMENTE não julgar pelo menos um pouquinho pela capa nos dias de hoje? Seria a definição disso namorar com o Xico Sá?


Produtos alimentícios e de higiene e beleza em geral

Como eu acredito que tudo que eu compro faz bem pra minha saúde, mesmo quando só tem nome de tabela periódica nos ingredientes? Quer dizer, sempre. Parabéns pra quem me fez acreditar que só cigarro dá câncer.


Willian Bonner e Fátima Bernardes

Pais de trigêmeos, trabalham juntos e devem ficar juntos mais de 90% do seu tempo. Casal-modelo em qualquer pesquisa que se faça. Tenho certeza que na vida real ele é crossdresser e ela é viciada em Benflogin.


Cursos Universitários em dois anos, ou Faculdade junto com Pós

A Pós então devia se chamar Durante. Nada contra faculdades baratas, tudo contra estudar só pra entrar numa empresa e sonhar com o dia em que vai parar de ganhar mil reais pra ganhar dois. Este tópico foi patrocinado pela campanha "estude o que você considera hoje seu hobbie, depois seja autônomo e mais feliz".

E por hoje é só, pessoal. Que infortúnio.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Pluma de Chumbo.

"Olhou pelo vidro do ônibus e viu um homem mal cuidado, feio, pobre, triste.
Com pena, ofereceu-lhe um sorriso.
E qual não foi sua surpresa ao perceber que o homem que via era na verdade o seu próprio reflexo no vidro."

"Somos só nós. Só nós e o Universo."

Pessoas não estão prontas para aguentar meu peso.
É lindo o peso do meu amor
Mas o peso da tristeza minha é esmagador.

Meu amor tem lindas cores e tons
Mas meu tom é triste e grudento, pegajoso e nojento.
Porque eu tenho dentro de mim todo o lixo do mundo
E ao mesmo tempo toda a tranquilidade dos golfinhos no mar.
Porque eu conheço o cheiro do inferno e do céu
Eu sei me afogar mas também sei nadar.
Eu não sou delicada
Falo palavrões
Falo e faço coisas nojentas
Mas sou a menina mais doce do Universo ao observar um esquilo a beber água
E ao sentir a brisa da tarde soprar no rosto.
Ao dar de beber a um hamster na palma de minha mão porque já não consegue matar sua sede pro si próprio.
Diante da inocência do mundo sou a delicadeza que ninguém vê
A tranquilidade que ninguém conhece
A suavidade que ninguém sente.
Apenas porque o conceito sublime do mundo está no que se é mostrado (e não percebido).
Eu tenho coisas terríveis dentro de mim
Mas que transformo em poesias bonitas.
Sei fazer obra de arte com o lixo e por isso me admiro.

Tenho pena de mim e às vezes gosto de imaginar um anjo mexendo em meus cabelos quando sento no chão do quarto e deito minha cabeça na cama.
Uma vez ele me disse que tudo daria certo, como uma mãe a um filho que caiu da bicileta ao aprender.
Mas eu, tenho já uma certa idade em que fica feio chorar pela vida.
O certo seria ir atrás, conforme os outros te dizem. O certo seria sequer pensar num anjo que acaricia uma menina triste e sim nos "relatórios de amanhã".

E aí a empresa me pergunta o que eu posso oferecer a ela e as únicas coisas que me passam na cabeça são quadros bonitos à venda numa praça do interior, e criancinhas jogando milho às pombas. E a cadeira onde sento me dá uma vontade doida de rodar nela.

Às vezes tenho um pouco de raiva de estar aqui, mas ao mesmo tempo, morrer é meu maior pavor.
Não me enquadro em absolutamente nada.
Não sou parte de absolutamente nada e discordo de tudo o que os outros concordam.

As pessoas tocam suas vidas, as vidas tocam suas pessoas.
Elas choram, sorriem e eu reparo na humanidade e escrevo.
Escrevo.
Escrevo
E escrevo.

O mundo é a minha televisão e o sofá é meu purgatório e minha dádiva.
Eu vejo coisas que ninguém vê e deixo de prestar atenção no que todo mundo presta.
Pergunto coisas absurdas pra algumas pessoas pra ver se também são tão malucas quanto eu.
Algumas delas chegam perto, mas nas principais questões elas me olham torto.

Minha mãe já disse que eu sou estranha
Algumas amigas disseram
Umas pessoas desconhecidas disseram
E eu disse também.
E até hoje, se você quer saber, eu não sei exatamente o que eu sou.
Ás vezes encaro tudo com tanto mistério
Mas sou só transparência.
Revelo tudo, mas ninguém entende o que é, então fica tudo escondido.

Sou estrapolada, faço absurdos, fujo da minha idade e viajo pra Terra do Nunca que infelizmente não existe,

Vivo como um cigano idiota em busca de respostas que jamais encontrará.
Um cigano infeliz mas que está feliz por não participar, embora quisesse dar só uma participadinha pra minar a tristeza quando pesa muito.

Mais um Natal
Mais um ano novo


E antes eu aguardava ansiosamente porque tudo era mágico
E hoje a única coisa que é mágica é o meu desespero ao ver que tais datas se aproximam. E minha ampulheta que eu jurei honrar, polui.

Eu queria que alguém saísse de um quadro e dissesse: já de volta!!!!

E que eu entrasse pra dentro do quadro e tudo fizesse sentido
Mas estou fora de um quadro que não existe, me lamentando e tentando martelar algumas molduras quebradas.
Escrevendo como gente que pensa e deixando de agir, como é típico dos que não sabem o que é pensar.

Ninguém aí sabe o que é ser estabanada, desligada, esquecida...e odiar isso.
E ver semblantes decepcionados que esperam mais de uma pessoa que não-pode-dar-mais.
Ninguém sabe o que é tomar cuidado para não fazer barulho logo cedo mas tropeçar acidentalmente em algo que faz muito, muito barulho.

A minha vida sempre foi um silêncio que acabou por acordar o mundo inteiro.

Em todos os aspectos.
E ninguém sabe
Ninguém imagina
Ninguém sequer imagina
O quanto é insuportável às vezes
Ser Thaís.