A cidade da garoa ácida e das estrelas encobertas pela etérea poluição. A cidade das possibilidades, do dinheiro, das opções, dos guetos e da massa, da moda e da gula. Das pessoas vestidas com ternos caros e suas máscaras. Da comida rápida, dos amores rápidos, do trânsito lento. São Paulo.
Aqui, pouco é o que parece. Eles correm pra ficar parados, se aglomeram e sentem-se sós, comem pra perder tudo depois, saem pra caçar no limbo da noite e reclamam do vazio das pessoas. A cidade dos absurdos.
Tanta gente jogada nos bueiros, na sarjeta, na vida. E a vida passando por eles. Mendigos, maltrapilhos, loucos, vadios, morrendo no chão quente dos carros importados e blindados. A cidade da disparidade.
Tanta gente culta, que lê, que aprende, que dissemina, tanta coisa errada acontecendo e eles frigindo que não vêem. A cidade das aparências.
Tanta fila, tanta loucura, tanta procura pela paz interior nos yogas da vida. A corrida pelo primeiro milhão, pela promoção depois de horas a fio perdidas dentro de um prédio com ar condicionado e tanta procura pelo tempo livre e pela qualidade de vida. A cidade das controvérsias.
Tanto possibilidades, quanto decepções. Tantas vertentes e nenhuma verdade. Tantos estilos diferentes e tantos interiores apodrecidos. A cidade do curto-prazo.
O equilíbrio procurado nos amigos. As pessoas que se juntam pra serem inteiras. A cidade dos vínculos que precisam ser fortes.
A cidade da madrugada, a cidade dos solitários. A cidade dos restaurantes do mundo, a cidade das moedas diversas, a cidade das empresas imponentes e dos bairros feios, a cidade da variedade que segrega.
Onde existe a night comparável aos melhores países, onde menores bebem e matam, onde as pessoas têm medo de colocar o pé para fora de casa, onde todos nós vivemos.
A cidade que me faz arder os olhos de sujeira ao voltar de algum paraíso por aí.
----------------------------------------------------------------------------------------------
Esse texto é uma re-edição, além de um desabafo. A autora julgou merecedor, ao ler que em 2010 seremos o terceiro local mais populoso do mundo. Durmamos num barulho desses.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Vamos fugir, please?
Quem serviu?? Tha Basile às 05:17 5 mais chá?
sábado, 3 de maio de 2008
Nas Entranhas de Marina
O que você estava fazendo ao lado do móvel, Marina?
O que você estava fazendo ali?
Eu matei você, eu enterrei você
Cobri você com terra
Depois eu atirei cimento
Coroei seu túmulo com flores
Enchi seu velório de velas!
E como você me aparece, Marina
Como se jamais tivesse sido enterrada?
Como você aparece bonita, sorrindo, corada!
Como se não fosse você
Como se não passasse por nada!
Como se jamais
Tivesse sido assassinada.
Saltite, Marina!
Saltite sobre mim, mecha nos meus cabelos
Me enfie o dedo no nariz
Me pegue pelos cotovelos.
Mas apesar de tudo, menina
Eu me odeio, eu me culpo, Marina
Porque fui eu
Quem escavou a terra
Quem restaurou suas fotos
Quem apagou suas velas
E pôs sua imagem nos fogos.
E bebeu a sua bebida
Ligou na sua programação
Beijou você nos meus delírios
Perdeu o texto e a noção
Plantou valquírias, plantou líros
Na porta da sua mansão.
Ah, Marina, morra Marina!
Morra pra sempre sem precisar de mim
Morra de sede, de câncer, dos rins!
Morra de tanto beber
Morra de tanto sofrer
Morra de ódio contido
Morra de peito ferido
Sangre até falecer.
Morra, menina, já não posso mais te suportar
Sua cabeça eu irei coroar
Com a auréola dos anjos caídos.
Morra, Marina, morra para que eu não me apaixone
Para que eu não pegue o telefone
Para que eu comece a te ligar!
Ah, menina Marina, por você eu cortei meus braços
Por você eu desfiz meus cachos
Por você eu me arrebentei
Arranquei para fora os meus pés
Minhas mãos na foguera atirei
Fiquei completamente dependente de você
Parece música sertaneja!
Enfeitei teus lábios com cereja,
E mordi como se fosse doce
E como se nem isso me desgraçasse!
Chorei no seu travesseiro
Estiquei na sua caminha
Levei choque no chuveiro
Saí de casa sem calcinha.
Dirigi com os meus pés descalços
Bati num poste da avenida
Venci você pelo cansaço
Puxei você pela saída.
Marina! Perdi a Luta!
Marina, filha da puta!
Marina, sua desgraçada
Menina desnaturada!
Marina...ei, Marina, acorda.
Que foi? Tá muito forte a corda?
Que foi? Não vou chamar ninguém!
Já que é pra sofrer, que eu sofra
Mas que você sofra também
Enforca, enforca, putinha!
Quero ver você morrer
Sem a mesma ladainha!
Ah! Doce sofrimento eterno
Que gira ao contrário meu mundo
Pois se eu me foder no inferno,
Sorria que você vai junto.
Quem serviu?? Thaís SBA às 07:11 6 mais chá?
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Vamusimbora PRUMBÁ
Pouca coisa boa se pode tirar de uma reunião regada a cerveja e derivados de álcool. Certo?
Claro que não! Pra armar aquele boteco, não necessariamente tem que ser num bar da modinha, lotado, pagar 15 contos pra pararem seu carro na rua e quase fazer xixi nas calças por causa da fila. Um botequinho pode ser tocado em qualquer lugar, na porta de casa, na pracinha Benedito, pode ser na areia, pode ser num Bistrô, pode ser tomando um açaí. Isso me leva a pensar que não precisa ter bebida alcoólica envolvida... Ok, é mentira, precisa.
Junte alguns seres que ajudem na idéia como um todo. Se não forem amigos, pode ser alguém desconhecido que tenha algo de diferente e/ou engraçado pra contar, de preferência alguma historinha bizarra, sobre a vida, sobre o trabalho, sobre aquela pessoa que merece um comentário digamos sarcástico. As dúvidas mais existencialistas também podem ser discutidas, mas cuidado: existem pessoas que bodeiam ou travam no decorrer do boteco, escolha pessoas confiáveis.
Coisa boa é quando tem segredinhos explicitados. Algumas exigências: precisa rir do ex. Precisa rir da ex dele. Precisa rir de histórias passadas com a turma da adolescência. Precisa rir de si mesmo. Não pode falar de nada que passe na TV aberta. Precisa falar mal do Lula. E é bom que tenha comida bem trash envolvida. Praticamente ninguém se preocupa com o próprio peso no decorrer do processo. Eu disse praticamente porque sempre tem alguém que pede caipirinha com adoçante. Exclua a pessoa da próxima armação, modelos não tocam o boteco.
Os clássicos não podem faltar, então se acha que vai esquecer dos melhores contos envolvendo pessoas presentes, aqueles que precisam de verdade serem jogados na roda, anote. E leve sempre num caderninho com você. Nunca se sabe quando alguém vai te puxar pra uma dessas.
Lembre-se, música é opcional, mas Créu e afins estão para sempre barrados, Legião Urbana é depressivo para uma dessas, qualquer coisa acústica que tenha Groove é aceita e Jorge Vercillo não é MPB.
Mesmo com a barriga de cerveja beirando os quatro meses de gravidez, que lentamente se transforma mas nunca volta ao normal ao ser esvaziada vinte e cinco vezes no banheiro, não há quem não se sinta mais leve depois de uma dessas. Mesmo que todos os problemas do mundo continuem existindo. Terapia sai muito mais caro.
Quem serviu?? Tha Basile às 07:44 7 mais chá?
sábado, 19 de abril de 2008
Amor Geométrico
Olhe-me por trás dos meus olhos
Existe algo muito maior do que meu globo ocular.
Ouça o que há por trás de minha voz
Existe muito mais do que a respiração entre seus intervalos.
Sinta o que existe por trás do meu abraço
Existe muito mais do que um calor inocente.
Olhe por trás da minha inocência.
Aliás, não olhe. Não sei se ainda a tenho.
Me enxergue. Onde quer que esteja.
Te mostrarei muito sem que eu diga nada
E escutarei sua voz mesmo que você se cale...
Terei de parar com isso?
Terei que buscar outra ideologia?
Terei que ser igual aos demais?
Sufocar meu amor? Que bobagem.
Uma pessoa que não dá valor ao amor em si
E que não dá valor ao próprio amor e não tem paciência com ele
Jamais vai aceitar o meu amor.
Mas deve existir alguém nesse mundo que enxergue o que eu quero dizer
Vai existir alguém no mundo que me olhe e entenda
E que sorrirá ao entender.
Mas ele não sabe de nada
Meus pais não sabem de nada
Meu irmão não sabe de nada
Meus amigos tampouco imaginam
Minhas amigas tentam saber
Estou perdendo um pouco a cabeça
Nessas horas penso: Será que se eu fumasse
Eu me sentiria melhor?
Será que se eu me drogasse
Eu me sentiria melhor? Será que se eu bebesse...Não, não.
Neste estado me daria sono.
Ou lágrimas. E eu não quero lágrimas
Elas estão aqui dentro fazendo festa mas ainda não resolveram sair
Por que não chegou a hora
Mas quando a hora chegar elas saltarão de meus olhos como se salta de um tobogã
E se divertirão por entre meus traços delineados do rosto
E serão absorvidas pela roupa
Ou formarão pequenas pocinhas no chão, até que sequem
Ou até que alguém pise. Ou até que eu mesma pise.
O que fazer para se sentir melhor quando se gosta de alguém e a pessoa não gosta de você?
Nem todos os sucos de laranjas do mundo.
Nem todas as águas de côco ou sorvetes com cobertura.
Céu azul, bicileta, tinta, caneta, peteca.
Nem desenhar.
Mas existe uma coisa que talvez me faça sentir melhor.
Talvez, eu disse.
Escrever.
Minhas escritas são psicografias das lágrimas.
E ditam de lá de dentro o que eu devo escrever.
E na verdade, tudo isso aqui não passa é de um grande berreiro
Como o de uma criança mimada que nem ao menos sabe escrever.
Mas choro de criança também é crônica
Choro de criança também é poesia.
Talvez muito mais poesia do que as poesias de muitos que se dizem poetas.
Porque choro de criança vem indiscutivelmente da alma.
Se for birra, é uma birra que vem da alma.
Se for manha, é uma manha que a alma faz.
E se for medo de ficar sozinha
As lágrimas são da alma infantil que treme insegura embalada por um pequeno corpo.
No fundo, toda alma é criança,
Porque o amor não se contém
Nós que contemos o amor.
A lágrima não se segura
Nós que seguramos as lágrimas
O desejo não se reprime
Somos nós que o reprimimos.
E nessa selva de sentimentos, vamos aprendendo a domá-los
E os contemos tanto, tanto, que acabam deformados, encolhidos
Dentro de uma caixinha sem ver a luz do sol.
Acabam por sua vez, quadrados.
E se porventura saírem, saem com medo, com os olhos ardendo
Com medo de algum animal
De um predador
E quando expostos, muitas vezes voltam correndo
Para suas devidas prisões. Já sentimento exposto, sem ser segurado
Sai correndo a mil e um por hora
Rasgando tudo
Inclusive o peito.
Atraiçoa, é sarcástico
É fantástico
É elástico
É atirado como num estilingue.
Voa rápido e ninguém vê
Porque ninguém está acostumado a acompanhar a rapidez de um sentimento verdadeiro, voador!
Afinal,
Eles vivem todos enclausurados, não é mesmo?
Mas quando ele voa, você tem que olhar
Tem que acostumar seus olhos à visão, porque ele voa lindo.
E ele não pára de voar, só que ninguém acompanha
Então, um dia, ele cansa.
De que serve tanta beleza se não existem olhos para admirar?
Se não existe um dono que o queira cuidar?
Então, ele vai parando de bater suas asas
Pouquinho por pouquinho
Então ele cai
E cabisbaixo, anda devagarzinho sem ser notado
Abre uma caixinha
Entra nela
E fecha a tampa.
E ele se enclausura
E se deforma, como todos os outros.
E come suas próprias asas para que caiba na caixa.
E acaba geométrico.
Não porque alguém o colocou lá, porque ele nasceu livre
Mas simplesmente porque sua liberdade já não serve de mais nada.
Quem serviu?? Thaís SBA às 12:29 9 mais chá?
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Literalmente de Foder
Infelizmente, quando se está há quase seis meses desempregada, você começa a apelar para anúncios que não estão assim tão dentro do seu perfil. Pelo menos é o que você pensa. E começa a ler as vagas dos jornais. Erro.
Foi assim, lá em meados de 2004, que eu descobri que eu tinha sim o perfil. O anúncio dizia: jovem do sexo feminino, boa comunicação, inglês fluente, marketing, período integral, cinco vagas. Mesmo sem ter feito comunicação e querendo mesmo é ser contratada para uma vaga de pesquisa mercadológica, fui lá ver o que dava.
Local chique, agradável, algumas salas fechadas, muitas plantas, em pleno Business Center da cidade, meninas lindas andando pelo local, eu seria a segunda entrevistada. Estranhei que a candidata na minha frente entrou na salinha fatídica e saiu rapidinho, como se a tivessem dispensado. Lembro de ter pensado: será que ela não é de marketing? Já me dispensaram por não fazer um risco tão reto na folha em branco, é o mundinho capitalista, ué. Nem quiseram falar com ela.
Ouvi meu nome, entrei e dei um sorriso estendendo a mão. Um menino de 20 e poucos anos se apresenta como um dos sócios de um site que está migrando suas atividades para o Brasil, dizendo-se especialista em venda on-line. Começou com o maior clichezão das entrevistas: me fale sobre você. Depois de vinte minutos discorrendo sobre a minha capacidade de comunicação e bom relacionamento interpessoal, ele começa a falar sobre a vaga. As meninas que seriam contratadas ficariam a postos para manter os clientes no site por quanto tempo conseguissem, sempre teclando em inglês, a remuneração seria variável e teria bônus.
Assim que eu pedi o link para dar uma olhada no site, ele desconversou, disse que somente depois de contratada e que gostaria que eu voltasse para uma segunda entrevista com o sócio dele. No dia seguinte, lá estava eu para discorrer mais 40 minutos sobre cada empresa que trabalhei, prós e contras, idas e vindas. Era dia de rodízio do meu carro e na ânsia de conseguir o emprego, nem me importei com a possibilidade de atrasar em voltar pra casa. Só que para minha completa surpresa, ao final da longa entrevista eu tomo essa: “Nosso site ERÓTICO precisa de pessoas como você para aparecer na webcam e teclar com os clientes, acho que você TEM O PERFIL.”
Existe a definição de ódio mortal na Wikipédia ou no dicionário, mas esqueça. Ódio foi o que eu senti naquela hora. Antes de começar a sentir o ímpeto de quebrar a sala toda e fazer o computador sumir por entre o intestino grosso e o delgado do sujeito, eu comecei a gritar que aquela enganação barata era um absurdo. Que eu tinha gasto gasolina, tempo e energia. Saí meio chorando de raiva pelo elevador do prédio em direção ao centro de negócios da cidade, de onde eu sairia sem emprego, com uma multa pelo rodízio e com uma vontade maluca de passar na Augusta e sugerir algumas candidatas não-operadas pra vaga.
--------------------------------------------------------------------------------------------
PS* Antes de comentar algo engraçadinho, pense que a sua irmã, mãe, tia, namorada não têm os seus respectivos empregos garantidos para todo o sempre. Got it?
Quem serviu?? Tha Basile às 05:57 10 mais chá?
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Seja bom com você
Meu tráfego é livre pelos elevadores, porque não uso roupinha azul e vassoura na mão. Caso contrário eu seria banida por dividir o mesmo espaço com um dos gravatas do prédio. Caso contrário eu seria ignorada pelas moças do sexto e sétimo andar.
"Não chora, Jojô. Gente que faz isso com você é gente infeliz. Gente que está feliz com si próprio, não trata mal os outros por causa de condição social."
Gente que está feliz com si próprio não magoa, não é grosso, não é estúpido, não te olha de baixo pra cima.
Gente que está feliz com si próprio não precisa provar nada pra ninguém.
Gente que está feliz com si próprio não usa máscaras e paga o preço caro, caríssimo da transparência.
Gente que está feliz com si próprio não se engana e não engana os outros.
Gente que está feliz com si próprio não reclama o tempo todo e não é capaz de sorrir com as coisas mais simples.
Gente que não está feliz com si próprio vive querendo se impor, mostrar medo e respeito. Mas não se engane, essa pessoa realmente não está feliz. E geralmente tudo isso gira em torno de três únicos fatores: baixa auto-estima, complexos e traumas.
Uma pessoa amarga, falsa, mentirosa, ruim, aproveitadora, pode ter certeza que tem lá em seu âmago alguma coisa que a incomoda, que a faz sentir mal e infeliz.
É por isso, Jojô, que o mundo está assim, minha querida. Quantas pessoas você conhece que estão felizes com si mesmas, com a própria vida?
Um pouco de complexos aqui, um pouco de baixa auto-estima ali, e pronto! Está pronto um mundo cercado por todos os elementos que envolvem a teoria da conspiração. E aí, da baixa auto-estima nasce o medo, que origina a falta de confiança, que origina a necessidade de se auto-afirmar, que origina a arrogância, que origina a ignorância, que origina muitas vezes no sadismo e que origina essa bosta de mundo em que vivemos.
Em um dos livros do Dennis Lehane diz algo mais ou menos assim, que cada caso de violência e terrorismo é um caso completamente diferente do outro, mas a impressão que dá é que existe um fio que liga todas essas coisas, que se desenrolado, começa a fazer com que tudo faça o maior sentido do mundo.
Não seria isso mesmo?
O mundo todo é vitrine, como diria o DDC. E quem não é paga um preço caro.
Eu sei DDC, e você também sabe, não é mesmo? Embora saibamos que ninguém é 100% vitrine, e ninguém é 100% transparente. Mas você escolhe pra que lado quer pender.
Eu sei que é caro e pagar caro às vezes cansa porque dói no bolso, mas ainda assim me rende uma boa noite de sono e não me gera sérios problemas com minha consciência.
Que mundo, né?
Como dizia Renatão, os bons morrem jovens. E você já parou pra pensar que isso é a mais pura verdade? Os bons estão morrendo por aí, todos os dias, assassinados, em acidentes, em afogamentos, vítimas de bala perdida, não importa. Estão deixando esse mundo. E quem é ruim continua populando e espalhando o câncer por todos os lados.
Neste fim de semana estava eu passeando pelo orkut porque não tinha nada o que fazer, então me deparei com comunidades do tipo:
-Amamos Suzane Von Richtofen.
-João Hélio arrastou POUCO.
E tinha também outra comunidade relacionada em uma destas sobre o pessoal que era a favor de poluir o Brasil.
Quanto ao João Hélio, todo mundo deve saber que é aquele garotinho que morreu arrastado por alguns quilômetros no Rio de Janeiro.
Quanto à Suzane, menininhas alegavam que ela só teve coragem de fazer o que muitos não tiveram. Outros a admiram porque ela foi corajosa em assumir o crime, outro maluco tem já sua opinião diferenciada: Considera a garota uma artista! Porque assassinato planejado nada mais é do que uma arte! E ele a parabeniza por isso!
Podem parecer simples comunidades do orkut, mas as pessoas que estão por trás delas são reais. E assim como muitas outras que nem devem acesar a internet fazem apologia à esse tipo de coisa.
Eu não tenho muito o que falar sobre isso, poderia passar horas e horas expressando minha revolta, mas é o tipo de coisa que as palavras não conseguem expressar. Não tenho exatamente a dizer sobre isso, não posso fazer nada a não ser lamentar em ter que dividir o meu espaço terrestre com seres desse gênero e ser considerada da mesma espécie que indivíduos tão repugnantes como estes.
Seriam mesmo seres humanos? Seriam humanos estes seres? O que diferencia um ser humano de outros seres? Acho que precisamos rever estes conceitos.
Seres como este que possuem grande capacidade de diferenciar-se dos animais, mas não o fazem. O que exatamente diferencia essas pessoas dos animais?
Hoje já tenho lá as minhas dúvidas. Mesmo porque animais só atacam para se defender ou por fome e fazem sujeira porque não podem limpar. E existem pequenas atitudes que nos diferenciam dos animais, como por exemplo, jogar lixo no lixo. Eu ia falar sobre solidariedade aqui, mas a gente consegue ser pior, porque animais são solidários uns com os outros. Recentemente foi feita uma pesquisa, depois vou até ver se coloco o link aqui, sobre formigas que usam seu próprio corpo para tapar possíveis "buraquinhos" no meio da trilha para que as outras possam seguir o caminho sem se desviarem e assim cumprir a chegada ao seu destino sem maiores problemas.
Quantas das pessoas que você conhece fariam isso? Usariam a si mesmas para te protegerem, te ajudarem? O normal de um animal é preservar a espécie! E nem isso nós fazemos. Se somos animais racionais isso tem alguma lógica, embora eu sempre achei que essa expressão "animal racional" fosse bizarra, afinal, não somos animais, somos seres humanos. "Humanos", mas hoje tenho lá minhas dúvidas se somos lá tão evoluídos quanto sugere este termo.
Eu sempre tive medo de morrer. Mesmo. Aquele medo desesperador. Sempre fui um pouco paranóica com isso, mas estes dias me peguei pensando que talvez morrer não seja a pior das coisas. Talvez os bons morram jovens porque não cabem nesse mundo, porque não merecem estar aqui. Talvez ficar aqui é que seja o verdadeira castigo.
Não chorem por aqueles que se foram, chorem pelos que ficam. Os que foram provavelmente terão mais paz do que aqueles que ficam por aqui.
Por mais que eu acho tudo muito justo neste mundo, existem coisas que a gente não vai entender nunca, mas o fato de eu não entender não significa que eu tenha que me revoltar e virar uma atéia frustrada.
Mas realmente existem coisas que me intrigam.
Existem atitudes que não cabem no meu mundo, como por exemplo esse fato da Jô não poder entrar no elevador com um engravatado porque ela é da faxina. Estes dias me peguei pensando: Gente! Mas esse tipo de coisa ainda existe?
Não na minha realidade, mas na realidade do mundo existe, como fui inocente. Existe um mundo estragado por aí, e se as pessoas fazem o que fazem, tratar mal uma faxineira não passa apenas de um aperitivo.
E estão por aí as faxineiras chorando, as mães honestas viúvas, os órfãos de gente justa, os amigos que perderam seus amigos pra burrice do álcool em acidentes ou para balas perdidas do tráfico.
Está por aí um mundo cuja trilha sonora é o grito dos desesperados e cujo pano de fundo é o sangue e a miséria. Está por aí um mundo onde a inspiração são as lágrimas nossas e dos outros e não mais as gotinhas de orvalho pela manhã.
Um mundo que tem como rima o fogo dos acidentes e não mais o fogo do sol. Um mundo que coloca flores nos versos não por serem belas e enfeitarem os campos, mas por enfeitarem os caixões das vítimas. Um mundo que escreve não mais sobre o futuro porque já não tem mais tanta certeza que ele vai chegar.
Um mundo que se atrai pela tragédia e pela miséria como mariposas se atraem pela luz.
Pagamos a liberdade dos banidos, pagamos a sobremesa dos injustos, pagamos a arma que matou o nosso filho, pagamos a alimentação da Suzane von Richtofen, o edredon dos políticos que os aquecem em noites de frio e suas regalias.
E estamos de mãos atadas.
Passeatas, um minuto de silêncio, faixas pela Avenida Paulista, faixas em frente à Casa Branca, camisetas desenhadinhas, tudo isso faz cócegas na barriga de todos aqueles que decidem como exatamente este mundo deve ser, porque você, reles humano, não decide nada sobre o mundo, só decide sobre você (quando decide.)
Contribua você também com pequenos gestos dizendo que caga pro aquecimento global, vamos! Colabore com sua fumaça! A fumacinha que você solta depois de um trago que te faz sentir superior pode ser a responsável pelo último suspiro do seu filho amanhã, do seu neto amanhã. Quiçá do seu.
Polua! Polua mesmo a cidade e depois coloque a culpa no governo porque existe destruição na cidade por causa de enchentes! Alguns alegam que poluem a cidade para dar emprego aos garis!
Legal! vamos então assassinar bastante gente para gerar mais emprego no IML e nos cemitérios!
Assassine, mate, drogue-se, drogue seus filhos, seus amigos! Contribua com a devastação. Vamos! Faça sua parte e depois coloque a culpa no Lula, no Bush, na puta que te pariu.
Você pode achar que eu estou misturando os assuntos, claro que não vou generalizar, mas tudo está absolutamente muito bem relacionado. A mesma cabecinha que diz que "meus netos que se virem com o aquecimento global" é a mesma cabecinha que defende a Bispa Sônia porque ela "roubou o meu dinheiro e não o seu, então cala essa boca."
Ou então aquele tipo de gente que diz: "Eu sei que fumar é errado, mas eu já fiz tanta coisa boa que Deus vai me perdoar!". Já escutei isso sim. Deus não tem nada a ver com isso, afinal, quem não vai te perdoar é o seu pulmão.
Reclame mesmo da corrupção e da palhaçada com o seu dinheiro! Você não tem direito nenhum de defesa! Sabe por que? Porque você também ou é corrupto, ou é mentiroso ou contribui de alguma outra forma com sua parcela de merda para que o mundo se afunde (ou tudo isso junto.)! E os outros que não o são mas ainda assim sofrem com as injustiças, são os bons que morrem jovens, mesmo com seus 80 anos nas costas.
Você não tem direito de defesa. Como reclamar que o mundo está estragado se de uma forma ou de outra você também está contribuindo com isso, mesmo que seja com atitudes que podem parecer minúsculas? "Pequenos acontecimentos interferem em grandes eventos." Ou se preferir, como diz a Teoria do Caos: "O simples bater de asas de uma borboleta pode desencadear um tufão em outra parte do mundo".
Seja bom pelo menos com você, porque provavelmente o mundo não será.
Quem serviu?? Thaís SBA às 06:07 6 mais chá?
segunda-feira, 31 de março de 2008
Crua
Acredito em mudanças, mas não acredito em nada repentino. Não acredito em acaso, mas o uso como desculpa às vezes. Meu armário é uma zona, mas meu quarto é arrumado. Antes eu achava que quem escondia as bagunças tinha muita bagunça escondida dentro de si. Descobri que eu exponho a minha bagunça interior e esse é meu charme. Sou mais feliz hoje.
Num passado distante, eu não sabia se queria morar junto com qualquer namorado que eu viesse a ter. Sabia que a dificuldade seria saber entrar em acordo sem perder a individualidade. Hoje vejo que isso vira um desafio maravilhoso quando acontece a seu tempo e com uma pessoa bacana. Casei. Sou mais feliz hoje.
Tem dias que eu não agüento, tenho calafrios de desesperança e vontade de vomitar, por passar o dia inteiro às voltas com cronogramas, relatórios, pesquisas, vendas e mensurações quando o mundo precisava é de amor, paz, plantas, amizade e pureza nos dias úteis e não-úteis. Alguns dias eu gosto. Sem perceber, antes eu fingia que era importante ter um cargo com um nome bonito numa empresa de nome bonito só porque o mundo todo achava isso. Não finjo mais. Sou mais feliz hoje.
Tenho medo. Medo de morrer, de avião, de sem querer fazer alguma merda pra alguém e ficar culpada, de acidente de carro, de não realizar tudo que eu acho importante, de perder momentos, de ficar doente. E acabo ficando doente por isso. Antes eu achava que eu não merecia toda felicidade que eu tenho na vida. Hoje sei que não preciso pensar muito nisso, tenho que fazer por merecer. E o medo faz parte. Sou mais feliz hoje.
Quando deixo de pensar demais, viro uma pessoa muito mais bacana. Gosto muito de gente, embora não consiga me presentear pra todo mundo que eu queria. Gosto das coisas simples, idiotas, não-convencionais, não-materiais. Só não sou hippie porque é anti-higiênico. Deixei, numa época da vida, outras pessoas me influenciarem com sua maneira pesada de ver a vida. Meu medo provavelmente veio daí. Não importa. Sou mais feliz hoje.
Eu achava que papo sobre cuidar do corpo e da alma era coisa de religioso, de professor de academia ou de quem não trabalhava. Hoje, aprendi que minha alma é minha casa e que preciso manter ela limpa, isso envolve consciência. Meu corpo é meu hardware, tenho respeito às pessoas que me gostam e que querem que eu viva muito tempo bem e com saúde. Estou fazendo a minha parte. Sou mais feliz hoje.
Sei ter maturidade para resolver situações muito problemáticas. Mesmo sendo muito emotiva, fico racional nos momentos de tensão. Antes, eu sentia orgulho por ser um pouco diferente da média nesse quesito. Hoje, sei que orgulho é a morada dos fracos e que a humildade verdadeira é um ótimo caminho pro autoconhecimento e pra outras coisas boas. Vou atrás disso. Sou mais feliz hoje.
To sempre numa conversa fiada e sei que dela pode-se extrair genialidades. Amo animais e a natureza. Gosto demais de música. Choro com livros, crianças de rua, filmes, mendigos, atitudes honradas. Antes eu dormia até tarde. Hoje eu acordo um pouco mais cedo pra viver a vida, porque sei que tempo é um dos meus bens mais preciosos. Sou mais feliz hoje.
Eu já fui de falar mais e ouvir menos. Eu sempre falei muito. Agora ouço atenta porque essa é a melhor receita pra uma amizade verdadeira durar. Aprendi que só risadas e monólogos não se traduzem em amizades reais se não houver o cuidado e a atenção mútua. Sou mais feliz hoje.
Eu leio biografias, trechos, textos, contos, crônicas. Eu achava que só as pessoas importantes tinham o direito de escrever qualquer coisa porque só o que é estudado, moldado e aprovado era bom. Hoje posso ir de mim mesma, nua, crua, sem maquiagem, cheia de sins e de nãos. Sou muito mais feliz hoje.
Quem serviu?? Tha Basile às 07:34 9 mais chá?
quinta-feira, 20 de março de 2008
Uma cruz a carregar.
Pessoal, o blog é de crônicas mas hoje postarei uma poesia, espero que as meninas não se importem!
Ela está muito convencida
De que onde ela for, ele vai
Ele está sabendo de tudo
Ela assassinou os seus pais.
Ela o está comendo pelas beiradas
Preparando a vingança
E ele: "Não sei de nada."
Parece que é uma criança.
Ele gosta desse suave veneno.
Ele ama aquela menina.
Ele gosta de ser torturado
Famigerado e aflito
Ele gosta de ser salpicado
Com sangue, fofura e grito.
Sado
Sadomadoquista
A mulher, Ana Cruz, maldita
E o homem, Miguel golpista.
Acaba em pizza! Tudo acaba em pizza!
Parece política!
Parece que aqui se fala em comida.
E se fala, se fala sim!
Canibal, menina ruim!
Come o fígado com gergelim.
E ele? Ele se diverte
Diante de seus rins cortados
E a musculatura inerte.
Ele se contenta escrevendo umas coisas
E dando uns tragos e lavando a louça.
Contenta-se com prostitutas
Ostenta-se com suas vadias
E vive em constante luta
Com ela que fode seus dias.
Então ele come Lulu.
Lulu, vagabunda novinha
Chupetinha e sexo anal
Mas Ana é sua princesinha
Sua princesinha do mal.
"Você é burro!" - grita Lulu!
"Burro como uma porta!
É burrice amar alguém
Que não te ama ou se importa!
É burrice amar o seu próprio carrasco
Beijar a mão que derruba ao penhasco
A sua carcaça amarela"
"Eu volto todos os dias
Porque eu não vivo sem ela."
Parece até brincadeira
De um homem de cérebro oco
Ana acende a fogueira
E ele se atira no fogo.
Ele certa vez resolveu transar
Com uma ex namorada
E enquanto metia chorava
Pensando em Aninha, amada.
E Aninha do outro lado do bairro
Bebia licor de menta
Fumava um negócio esquisito
Soltava fumaça magenta!
E ria, e ria da vida!
E de bêbada deu pra um cara
E lembrou do ex no momento
Quando o homem gritou "não pára!"
Mas recuou!
Pensou não parar mas parou.
Vestiu seu sutiã
A calça e o colete de lã
Deixou o homem parado,
Com seu genital esfolado
De tanta força que fez.
Aninha saiu pela rua
E olhando pro céu viu a lua
E sentou sobre os próprios pés.
Ficou ali, agachada
Quietinha, sem ser notada
Sentindo sua perna tremer
Sentindo a virilha doer
Sentindo a saudade danada.
E ele agora lambia
Os seios de Rosa Maria
Rosa, a velhota profissa
Que se masturbava na missa
E os homens que lá frequentavam.
Um dia trepou com o padre
No meio da sacristia
E as fofoqueiras contavam
Que o padra pagava por dia.
Mas isso já é outro assunto
O que importa é que a velha entendia.
Voltando agora à história:
No momento em que Rosa gemia
Ele lembrava de Ana
Da bunda durinha de Ana
Da coxa gostosa de Ana
E do jeito que ela gostava
De abraço depois que gozava.
Então quando se deu conta
Deixou a velhota tonta
Berrando na cama de quatro.
Sujou todo o cobertor
Saiu pelo corredor
Perdeu a chave do quarto.
E por pura ironia do destino
Encontrou pela rua um menino
Com sangue nas mãos e gritava:
"A moça! A moça bonita
Morreu com a garganta cortada!"
E ele seguindo o pirralho
Gritou um sonoro "Caralho"
quando teve a terrível visão:
Aninha sua menina amada
Um anjo e uma desgraçada
Jazia jogada no chão.
E Lulu ao lado chorava
Com uma faca encravada
No meio do coração.
"Matei, eu matei sua menina!
Não é mais sua, ela é minha
E eu vou atrás dela também.
Se não tenho você comigo
E você não me quer contigo
Eu não quero mais ter ninguém.
E então deu um grito alto
E sangrando, deitou no asfalto
Morrendo naquela calçada
Então ele olhou para Ana
Beijou-a e levou para cama
Enquanto se lamentava.
E lambendo-lhe o sangue no peito
Olhou-a e falou "bem feito"
Depois lhe tirou a roupa.
Pegou seu revólver guardado
Atirou-se com Ana ao seu lado
E morreu lhe beijando a boca.
Thaís S.B. Araujo
Quem serviu?? Thaís SBA às 07:29 5 mais chá?
sexta-feira, 14 de março de 2008
Ao futuro, com carinho
Tem muita gente torcendo para que você exista logo. Mas, como uma boa taurina, signo da terra, gente bem realista, te digo que ainda vai demorar um bocadinho de tempo pra gente se conhecer. Mas eu te prometo uma coisa: vai valer à pena ter esperado.
Sinto que tem muita coisa pra acontecer. Você vai acabar percebendo ou até já sabe, mas quero te dizer: sua futura mamãe é uma pessoa que sente medo. Alegre, meio idiota, segura aos olhos alheios, corajosa até, mas ainda assim meio medrosa. E ansiosa. Veja que você já é tão precioso que consegue colocar essa ansiedade no lugar dela: eu posso e quero esperar a hora certa de te ter nos braços. E digo braços porque nem sei se você será filho da nossa barriga, ou do nosso coração. Isso é algo que eu espero poder te ensinar, bebezinho: que a vida traz um monte de surpresas e até aquelas que a gente pensa que são tristes, não necessariamente são. Confuso, né? Eu sei.
Preciso te falar outra coisa. Seu futuro pai. Se você fosse puxar qualquer coisa dele e eu pudesse escolher, escolheria o coração. Ele tem o maior coração que eu já conheci. E é uma pessoa sensível, ainda que não goste muito de escrever nem seja dado a dançar uma música lenta. Ele sabe perceber. E isso é uma coisa que junta a mente e o coração de uma pessoa e faz ela ser adoravelmente charmosa. Espero também que você tenha um pouco da luz dele.
Você também precisa saber que será fruto de um amor que se transformou. Éramos dois amigos, bebezinho. Daqueles de falar bastante besteira, dar bastante risada, compartilhar medos e tomar café juntos todo dia. Nossa vida andava meio esquisita, bebê. E um dia a gente se encontrou. E de lá pra cá, não passa um dia sem que a gente se fale o dia inteiro, por e-mail, por telefone, por pensamento. A gente tem saudade um do outro no pouco tempo que ficamos separados. Nós temos os nossos rituais e as nossas viagens. Nós não lembramos mais como era viver sem ter um ao outro.
A gente também se desentende, viu? Pouco, mas costuma ser assim com quem se relaciona por inteiro. Nunca acredite nem queira ter um relacionamento à perfeição, acredite em humor, espontaneidade e respeito ao espaço do outro. Lembrando disso, essas briguinhas sem valor logo acabam, assim como as nossas. Não quero, mas acho que em algum momento nós podemos errar com você, bebê, porque o ser humano se perde de si mesmo às vezes. Você vai sentir na pele o sentido de ter uma família. Vai aprender que existem famílias diferentes. Que a nossa poderá ser diferente, quem sabe, mas vai saber que se sentir acolhido e entendido independe disso.
Uma coisa que eu sei que vai acontecer: você vai ensinar muita coisa pra todo mundo. Vai me ensinar a dar exemplos, a ser menos desastrada, menos ansiosa, mais atenta às prioridades da vida. Vai ensinar ele a ter mais paciência. Vai nos ensinar a resistir a uma bela chantagem emocional. Não vai ser fácil, mas acho que podemos nos sair bem. Já preciso te avisar: você será mordido, apertado, amado.
E, se me falta confiança para saber que eu tenho condições de dar toda felicidade que você merece, o tempo deve tratar disso. Se fôr pra ser, será. Até lá, eu e seu futuro pai vamos andando pela estrada, mudando de direção, ouvindo algumas canções, falando outras besteiras, perdendo e ganhando, mastigando e digerindo a vida. Que, apesar de todas as agruras, é o maior presente que alguém pode receber, futuro bebezinho.
Quem serviu?? Tha Basile às 06:07 6 mais chá?
terça-feira, 4 de março de 2008
Verdades-Vergonhas
Vou parar com essa mania estúpida de "presentear" os outros com as verdades de meus sentimentos. Verdades raras, que por serem raras, são preciosas.
É mentira.
Não vou.
Não vou parar.
Em horas como essas, eu deveria. Mas não vou parar. Acho que sou diferente de qualquer outra pessoa desse mundo.
Quando as pessoas rompem um relacionamento, a maioria quer mostrar ao outro que está bem, que esqueceu tudo num passe de mágicas. Eu não. Eu não faço isso. Eu conto a verdade.
A verdade que está no íntimo, a verdade que para os outros é vergonha, é fraqueza, é medo de se humilhar. A verdade que não pode ser contada, a verdade escondida por trás do salto alto, das unhas pintadas, da balada do sábado, do cara que deu em cima de você, da cerveja que você toma, da risada que você dá. A verdade escondida por trás de tudo isso, porque por trás do salto alto que você usa há um pé calejado de tanto esperar um sinal de vida, por trás das unhas pintadas há uma unha linearmente lixada para não dar a impressão de que foi roída de ansiedade e nervosismo, por trás da balada do sábado há um pensamento roedor que fica imaginando o que será que ele está fazendo agora? Por trás do cara que dá em cima de você, está ele te olhando com olhos de quem - não adianta tentar - não vai deixar você em paz. Por trás da cerveja que você toma há o gosto dele e de por trás do riso que você dá há o desespero da saudade.
Verdades falsas. Verdades-mentiras. Verdades-vergonhas. Você só quer mostrar ao outro a superficialidade do que te rasga por dentro.
Eu não faço isso. Eu assumo. Eu falo pra ele que toda cerveja tem o gosto dele, que por trás de todo cara ele me olha, que por trás da minha risada existem as lágrimas. E não só com ele. Com todos. E em troca sou congelada com sua imparcialidade vazia.
Essa minha estúpida mania de ter medo de morrer sem que os outros saibam o quanto os amei. E eles nem merecem. E ninguém merece a minha verdade, ninguém merece a vergonha que eu passo, a humilhação que me deixo passar.
Eu mostro o sangue, eu os faço sentir o cheiro das minhas lágrimas nos travesseiros, eu mando as letras de músicas que me fazem lembrá-los, eu questiono sobre o que ainda sentem por mim, eu me rasgo toda, tiro tudo o que existe dentro e coloco em cima de uma mesa para que olhem, para que conhecem o que existe ali, para que sintam o gosto daquilo, a textura daquilo. E então pego tudo e entrego à eles, com minhas próprias mãos. E como se não bastasse eu digo: Está vendo tudo isso? É seu.
Óbvio que ninguém sabe o que fazer com aquilo tudo. Óbvio que muitos se sentem enjoados com tudo aquilo.
Óbvio que acham esquisito, que ficam sem saber o que dizer, que não entendem o motivo de eu lhes entregar algo que talvez não seja nem necessário.
E então vem o susto: Como você pode me amar tanto assim?
Veja só, a diferença é que muita gente ama tanto quanto eu mas preferem lhes entregar uma realidade feita com as próprias mãos, enquanto eu lhes entrego o material bruto. Prefiro não modelar as minhas verdades. Prefiro não modelar minha angústia para que pareça felicidade. Se eu sofrer, vou lhe entregar meu sofrimento exatamente do jeito que ele é, com o cheiro que ele tem.
Isso quer dizer que eu te ame mais do que qualquer outra pessoa no mundo, a ponto de te assustar?
Não. Isso quer dizer que eu não tenho saco pra brincar de fazer escultura.
E isso quer dizer que outras pessoas preferem se sacrificar esculpindo sentimentos para não ver a cara de assustado de seus amados e se sentirem malucas com isso.
Eu prefiro vê-los me olhando como se eu fosse uma maníaca do que ficar inventando mentiras e sujando minha mão com esculturas que uma hora ou outra vão desmoronar.
Só poupo meu tempo em algo que mais tarde vai se revelar.
Mas...
E se ninguém soubesse de tudo isso? E se eu morresse hoje cedo? E se ninguém soubesse? E se eles tivessem morrido? O que adiantaria? Mas que idiotice a minha de falar, falar, falar. E se os outros não quiserem ouvir? Mas dentro de mim algo diz que os outros precisam saber. Talvez eles usem isso futuramente pra alguma coisa. Talvez seja um modo de consolá-los que em alguma época de suas vidas eles foram amados desesperadamente por alguém.
Só há um lado bom nessa história toda. É que quando eu esquecer uma pessoa, essa pessoa não terá a menor dúvida de que eu a esqueci, pois do mesmo modo que falo sobre um amor, eu falo sobre a indiferença.
A primeira vez que terminei um namoro, eu jurei que nunca mais me apaixonaria. Me achava esperta, achava que ninguém poderia me enganar, que eu estava acima de tudo, que eu poderia controlar meus sentimentos.
Burrice de menina.
Esforço em vão.
Isso tudo só me serviu para me provar que eu não vou controlar porra nenhuma. E desde então foi que comecei a falar a verdade desesperadamente. Já que não posso controlar meus sentimentos, e já que o tempo passa e cura todas as feridas, porque esconder o que sinto?
Sim, é humilhante escutar da pessoa que você ama que evitá-la vai tornar as coisas mais fáceis pra você.
Você se sente burra. Você se sente doída. Você se sente frágil.
E aí você evita essa pessoa porque não evitá-la seria humilhar-se mais ainda.
Precisa ser forte. Precisa ter as costas fortes pra carregar a dor de um mundo, porque nisso tambérm existe a recompensa. Os outros podem tentar me enganar mas eu jamais sofrerei com a dor da minha própria enganação, que é a dor que mais dói. Mas tudo tem seu preço. Esse "sincerocídio" vive em busca de respostas que não existem, de algo que busco e que não vou ter, de uma esperança ilusória, de palavras que não vou escutar. Mas ele me conforta, porque me permite saber de tudo isso, e é justamente por conta disso que acaba tudo bem depois. Sou de certa forma uma "lunática lúcida."
Não existe mais medo. Não tanto quanto antigamente, que eu escondia tudo e todas as verdades modeladas me causavam dor de estômago, ânsia, mal-estar.
Todas as pessoas que eu amar vão saber disso.
E todas as pessoas que eu for tentar esquecer vão saber disso.
E todas as pessoas que eu esquecer de vez , vão descobrir isso, porque eu não vou precisar contar.
E eu já sei como essa história vai acabar.
E é exatamente por isso que eu não me importo em expor minhas "vergonhas", porque não existe vergonha em amar e em deixar que o outro saiba. Vergonha é tratar o amor como se não fosse digno de ser amor. O amor não nos torna fracos, o que nos torna fracos é o medo que nos esquiva de amar.
Quem serviu?? Thaís SBA às 07:58 12 mais chá?
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Salve Jorge
Jorjão levanta da cama, quando consegue uns bicos de pedreiro ou de chapa, veste sua calça menos surrada, a camisa de sempre, dá um beijo na mulher que dorme com os mesmos bobes na cabeça de quinze anos atrás e sai pro mundo. Entra na fila do seu metrô lotado às cinco e meia da manhã. Adora o cheiro das mulheres logo cedo. No caminho, dá um sorriso porque seu time de futebol está quase completo: o décimo filho está a caminho, mais um molequinho pra aumentar a renda em casa.
Como todos aqueles dias em que há trabalho, tira o pente do bolso da frente da camisa e dá aquela ajeitada no cabelo, anuncia a novidade, logo convidando o pessoal pra cair no samba, lá no alto do Capão Redondo. Jorjão chama Jorjão e não Jorginho porque não consegue ficar longe de uma rabada, uma buxada, uma feijoada, uma cervejada. Nem de um rabo de saia. Casou com dezesseis anos, o pai era da igreja e fez questão de honrar a família da menina que o filho tinha desvirginado, o pastor até perdoou.
Nada mal para seus trinta e seis anos, pensava. A mulher era passadeira em casa de família, vez ou outra dava para fazer um bate e volta na praia com a Kombi dos "truta". E que felicidade era poder abrir o guarda-sol, tirar a sua geladeirinha de isopor e beber a cerveja mais esperada do ano, olhando pro infinito malcheiroso do litoral sul. O emprego fixo de metalúrgico tinha ficado pra trás, mas o barraco de alvenaria era próprio.
Fez o primário e sabia ler, assim como metade de seus filhos. Um deles, ele havia perdido pra vida, aviãozinho do tráfico. Gostava de pegar o jornal e acabava dormindo em cima dele, depois de ler a parte de esportes. Nas eleições, votou num candidato engraçado lá do programa eleitoral que seus amigos indicaram. E quando a Belinha resolvia baixar a guarda, a vida ficava doce: passavam a noite no banheiro do barraco de dois quartinhos, como dois coelhos, ela com a sua bunda enorme de mulata brasileira e ele com a sua barriga de marido de mulata. Ela torcia para não ficar grávida, ele pouco se importava com isso.
E viviam a vida. Algum de vocês sabe o que eu mais invejo no Jorjão, no José, na Maria, na Marluce, na Josilde? A capacidade de viver na merda e rir disso tudo. A felicidade ingênua da irresponsabilidade. A falta do medo, da vontade, da saudade. A completa falta de idéia do que pode e irá acontecer e as conseqüências do que virá. E enquanto eu, parada no trânsito da Raposo Tavares, tento ao mesmo tempo ler um livro que acho importante dentre os milhares que não li e pensar nos porquês dos porquês, eles jogam tudo pro lado e vão sambar.
Quem serviu?? Tha Basile às 06:00 8 mais chá?
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
A Tatuagem que não é minha.
Como está sendo o começo de ano de vocês?
Ouvi dizer esses dias algumas pessoas falarem "Nossa! Esse ano está passando rápido!" e blá blá blá. Rápido? Não para mim. Tantas coisas aconteceram desde o primeiro dia do ano que me fez perder a noção do tempo. De repente abro os olhos e estou em Fevereiro. Meu Deus! Ainda em fevereiro? Mas aconteceu tanta coisa! Tanta coisa em um mês que não aconteceu em 1 ano na minha vida!
O meu final de ano, caso estejam interessados, foi bastante conturbado.
O que acontece é que nos últimos anos eu resolvi presentar meu corpo e minha alma com uma tatuagem. Na verdade eu não me "presenteei" com uma tatuagem, eu simplesmente a quis demais e de tanto querer isso foi se tornando uma necessidade. E assim foi, ela ficou lá, inerente à mim.
O tempo passou, os meses passaram e no começo deste ano a tatuagem começou a me fazer feridas. E as feridas cresceram. E sangraram. E sim, eu quase morri de hemorragia, e eu ainda teria de arrancar um pedaço da minha própria pele, pois nesse caso, não ia adiantar tirar a laser...eu realmente teria que arrancar um pedaço de mim. E ia doer. Eu sabia que ia doer, e eu JAMAIS contei com a hipótese de me desfazer dela, afinal, agora era parte de mim, oras.
E pouco a pouco, em meio à dor e ao sangue, comecei a me lembrar que a tatuagem não era parte de mim, era uma daquelas tatuagens que a gente cola igual adesivo, sabe? Mas eu havia me esquecido dessa parte fundamental da história. Eu havia me cegado. Então tive que começar a árdua tarefa de arrancá-la das minhas células. Pouco a pouco. Uma puxadinha a cada dia, uma dor a cada dia, e eu não conseguia arrancar tudo de uma vez. Como um band-aid. Mas no estágio final doíam tanto aquelas feridas, doíam tanto, que eu não tive escolha, tive de arrancar tudo num rápido puxão. E doeu tanto que achei que tinha arrancado um pedaço da minha pele, e doeu tanto que literalmente apaguei de dor. Meu cérebro não aceitou a realidade daquela dor, daquele momento.
Acordei. Um tempo depois. E é engraçado que ao mesmo tempo em que me senti esquisita, também me senti aliviada. Esquisita por ter arrancado de mim algo que conviveu tão intensamente comigo durante quase 2 anos, e aliviada porque não havia mais dor. Não teria como existir mais dor. Encontrei meu limite, mas não o obedeci. Dei-lhe um chute no saco e o ultrapassei, machucando-me ainda mais, prestes a ter uma infecção generalizada de corpo e alma, aprendendo que eu nunca mais devo ultrapassar meus limites e abafar minhas células com a cola nociva de uma tatuagem de plástico.
Passaram-se alguns dias e um dia, após o banho, olhei-me pela primeira vez no espelho sem a tatuagem. E aquela estranha olhou nos meus olhos como se tivesse encontrasse algo que estava perdido, como se estivesse pedindo para entrar de novo na casa que ela mesma deixou. E então eu a enxerguei mais detalhadamente, mais magra, cabelo mais curto, olheiras mais fundas, mas ainda assim, era ela. E então nós nos olhamos e eu me reconheci. E eu a abracei porque senti saudades. E eu a fiz prometer que nunca mais me deixaria por causa de mais nada, de mais ninguém.
Ela era minha, mas foi embora de casa porque não queria que eu me tatuasse.
Acalme-se! Não pretendo cometer o mesmo erro. - eu disse a ela.
Hoje, vida completamente nova, diferente, e eu morando com uma inquilina completamente diferente do que eu conheci quando era mais nova, mas ainda assim, a mesma pessoa, e melhor. Com a fome de seus sonhos ainda mais voraz.
Somos uma da outra e de mais ninguém! Foi assim desde o momento em que nascemos e será assim até o momento de nossa morte. E eu não posso me esquecer disso nunca mais. Eu não posso colocar mais ninguém à frente dela. E eu já sabia disso tudo, ou então, eu achava que sabia.
Por Deus. Eu a havia traído.
Mas ela ainda tem amor suficiente por mim para ter me perdoado.
Quem serviu?? Thaís SBA às 04:26 9 mais chá?
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Petit Manifesto
Quer receber cantada em balada gay - toda vez - e é mulher? Pergunte-me como.
Não me acho mais bonita ou gostosa que ninguém, cada um tem sua beleza e não é disso que estou falando. O fato é que alguns tipos de homem, entre aspas, pedreiros, motoboys, héteros (ou não) escondidos em baladas não ortodoxas, médicos sem escrúpulos e etcéteras, devem se sentir atraídos pelas mulheres que sentem nojo de suas investidas estilo Wando. Não pode ser outra coisa.
Já fui atacada pela mão nojenta de um motoboy em pleno trânsito da Radial Leste, através da minha janela. Ele queria fazer carinho no meu rosto, tadinho. Já fui perseguida por tarado em pleno metrô, onze e tantas da noite, voltando da pós, saindo por uma porta de funcionários, uma saída estratégica para cair pertíssimo da minha antiga empresa, pegar o carro e ir pra casa. Um homem, de terno, grande, começa a andar atrás de mim. Não tenha medo - penso - isso é ridículo, não está acontecendo nada, estamos no ano dois mil. Que erro. Logo percebo que ele está quase bafejando no meu cangote com cara de tarado e em dois segundos penso: se eu bater nele, tenho que bater forte, pode ser que ele me derrube e aí fodeu. Não tenho tanta força, melhor correr. Corri pela escada, sem olhar pra trás e consegui despistar o cara. E ao chegar no carro, desejei ter batido nele até que suas bolas saíssem pelos olhos. Quase voltei.
Fazendo um exame das veias da perna, de calçola (coloquei a maior que eu tinha), ouvi do médico, sem nenhum tipo de pré-conversa: nossa, que calcinha linda, o que está escrito combina com você. Eu me recuso a contar o que estava escrito. Só pedi para sair da sala e ele disse que já tinha acabado o exame, o safado. Dedei ele pelo site do laboratório. Fui boazinha de não processar a empresa.
Na night, pode ser ainda pior, basta ter mais de dois quilos e mais de dez dentes na boca. Certa vez um baixinho quase apanhou do meu namorado, na verdade ele podia até apanhar de mim, eu era dois metros maior que ele. Na balada gay, me chega um: meu amigo ali quer te conhecer e não aceita não como resposta. Uó, voltei aos quinze anos de idade em pleno Mundinho. E outro: gata, dança comigo ali (apontando pro escuro)? Não, querido, eu tenho síndrome do intestino irritável e ele está quase irritado. Fora que meu namorado está logo ali, ó.
Meninas, eu sei que algumas de vocês analisam o peso pela quantidade de cantadas dos pedreiros na rua, mas reajam: respeito é bom e a gente não só gosta como tem direito. A vida às vezes parece um comercial de cerveja com menor proporção de felicidade, não?
Quem serviu?? Tha Basile às 11:12 7 mais chá?
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Lágrimas, Sol e Poesias Não-Poéticas.
Eu te enxergaria à distâncias...e mesmo assim com alguma coisa subentendida.
Eu te veria através, porém, misteriosamente escondido por trás da própria transparência.
Eu te roubaria num beijo, como aqueles beijos que nascem num segundo eterno e morrem antes da eternidade!
Eu te ganharia num toque, como aqueles toques com trilha sonora de fundo, acompanhados de um olhar vindo de baixo para cima.
Mas como as únicas coisas no mundo que não são nossas são as pessoas e como eu não te roubo em um beijo e sequer te ganho num toque, e muito menos te olho nos olhos, me contento em respirar teu perfume, contemplar teu sorriso e sentir teu mistério no espaço entre nós dois.
Silencioso como silencia a morte, encantador como encanta a vida!
Teu sorriso ilumina um mistério regado à não sei que! Um fluido de dúvidas e curiosidade, que aumentam mais e mais ao deparar-se com a contradição que são teus olhos.
Suave como um suspiro e suplicante como uma prece.
Apagando os raios solares com as lágrimas e renascendo uma manhã com um coração vazio e fascinante!
Muitos são parecidos, tantos são tão iguais. Mas só você sabe ser você.
Cristal muito mais que lapidado e muito mais brilhante do que o próprio brilho.
Teu olhar é tão triste que chega a doer na alma
E teu sorriso é tão puro que chega a escorrer no sangue!
Eu ficaria horas só falando de você.
E você lá do outro lado com o coração ocupado em amar um alguém.
Gosto de você.
Gosto de você como se gosta de um fim de tarde de quadro.
Gosto de você como se gosta de um sonho sem fim.
Gosto de você como se gosta de um retrato do céu.
Gosto de você como gosta a brisa dos mares
Gosto de você como a lua gosta do amor.
Fixaram você como tatuagem de luz lá no peito.
Perturbadora e angelical.
Assim é tua índole
Destruidora e doente
É o gosto desesperador da tua ausência.
Quem serviu?? Thaís SBA às 08:57 5 mais chá?
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Pé no chão
Sempre que digo pra alguém que eu passei mais de dez anos da minha vida acampando nos finais de semana, férias e feriados, preciso explicar. Na verdade, eu adoro explicar. Porque eu nunca conheci outra criança, além daquelas lá do camping, que viveu com tamanha intensidade as coisas que nós vivemos.
Era uma vez, uma casa sobre rodas. Um trailler. E essa casinha, a primeira que meu pai comprara, era quase menor que a Caravan que nos levava até ela. Mas tinha tanta dedicação presente naquelas paredes de fibra de vidro. As cortininhas combinando com o estofado do sofá que virava cama, a pia do banheirinho sem chuveiro brilhando como diamante, o toldo que vinha de cima do trailler até o final do cimento de três por três, milimetricamente costuradas pelo meu pai. Sentado no meio do parquinho de diversões, com uma máquina de costura emprestada, ele dedicou dias e dias a cobrir nossas cabeças. Sempre.
E os amiguinhos. Um bando de crianças, uma de cada lado da cidade, unidas no interior de São Paulo com um só ideal: fazer do final de semana ou das férias as mais legais das nossas vidas.
Me lembro muito bem, até hoje, mesmo porque algumas amizades ainda sobreviveram ao caos da vida adulta: Vanessinha, a japinha da turma, um metro e quarenta e nove. Não ia crescer mais que isso. Beto, magrinho, com um tampão no lado direito dos óculos, dono do trailler maior e mais equipado, tinha até computador. Rodrigão, o mais velho, dono do jipinho, objeto de desejo das Maria-gasolinas-mirins. Carol, morena, era a mais maluca da turma, tinha uma chinchila que era o máximo e uma mãe que a fazia colocar abacate no cabelo todo dia. Ricardinho, o bebê Johnson da turma. Fabinho e Fabão. E muita gente que veio depois, veio e foi.
Meu primeiro amor, que me deu uma florzinha e disse que eu era linda bem na descida do escorregador, o primeiro beijo, com um menino, no carnaval, são lembranças delá. Assim como a lembrança do irmão da japinha correndo com a sua Caloi Cross: “Tha, sua mãe está doida atrás de você e você aí com esse menino!” . Aconteceram coisas horríveis, como o estupro de uma menina pelo filho do caseiro. As enchentes. O caso da abelha, eu picada na garganta pelo lado de dentro, jogando futebol ao gritar GOOOOOOOL, ou quando enchemos a cara e acabamos com a energia do lugar inteiro, tropeçando nuns cabos. Havia as brincadeiras dos copos, os jogos da verdade, os WAR, os banhos em conjunto no vestiário, os carnavais, as briguinhas, as noites na piscina, os bailinhos. Ahhhhhhhh os bailinhos. Havia piqueniques, a gente juntava toda comida disponível ou fazia as coitadas das mães cozinharem, pra gente enfiar tudo no jipe e ir pro lago, onde tentávamos pegar ovos de ganso do ninho. Havia as idéias mirabolantes, como quando coletamos todos os trevos de três folhas do mato e colamos numa cartolina com uma quarta folha falsa, cheia de cola tenaz, e vendíamos por dez centavos pros campistas adultos.
Também havia os campeonatos inter-camping onde até tijolo voava, em briga.E, mais tarde, as saídas em bando de carro para a Anzu, os casinhos mais fixos, as bebedeiras mais perigosas, o truco até seis da manhã, os churrascos-raves, as idas à pedra do vento só pra ver o sol morrer ao som de um violão.
Éramos todos irmãos, descobrimos muita coisa, lá. Meu respeito pela natureza, a escolha pelas pessoas puras, minha embriaguez ao sentir cheiro de mato cortado ou o barulho das cigarras à noite, meu medo de cobras, minhas alegrias mais intuitivas, meu amor por animais, minha necessidade de colocar o pé na areia ou na terra, minha ojeriza por urbanomania, tudo veio delá.
Mudamos de camping, de objetivos, alguns de ideais. Mas aquelas estrelas enormes no céu que parecia redondo, ao deitar no colo de alguém na quadra de tênis, jamais vão deixar de existir. Mesmo que hoje isso tudo tenha se transformado numa gigantesca fábrica de cimento de uma multinacional qualquer.
Quem serviu?? Tha Basile às 05:50 7 mais chá?
