segunda-feira, 6 de julho de 2009

Marcos Júnior.

"A vida da gente não é nada"

"Nós não somos nada"
"Nós não somos ninguém"
É o que eu escutei hoje cedo de mais de uma boca.
A Val é uma mocinha de 20 anos que trabalha aqui no setor da limpeza.
Por seu riso infantil e seu jeitinho de chamar a todas nós de "neguinha" com seu sotaque incomparável, tínhamos todos um carinho especial por ela. Era a nossa menininha. No dia em que disse que era casada há 6 anos, a gente não acreditou. E quando ela disse estar tentando ter um bebê nesse tempo todo, acreditamos menos ainda.
No começo do mês, quando a menstruação atrasou, veio toda ansiosa nos contar, afinal, a menstruação nunca havia atrasado.Não sabia se comprava o teste de gravidez ou não, mas a gente insistiu.
"Vai lá, deixa de ser boba, compra o teste logo!"
E foi na semana passada se não me engano, com um sorriso no rosto veio nos dar a notícia de que finalmente ia poder ter seu bebê! Estava no primeiro mês.
Se nascesse, teria o nome do pai: Marcos!
Marquinhos! Marcos Júnior!
E eu ainda cutucando, dizendo que Marcos já tinha um, então não tinha que chamar Marcos Junior coisa nenhuma!
"Vai Val, que outro nome você gosta?"
"Ah minha neguinha, tem tanto nome bonito por aí! Eu queria mesmo era Marcos Junior, mas está todo mundo implicando porque o pai já tem o nome."
"Ah, Valéria, põe...sei lá, Fernando! Fernando não é bonito? Eu te ajudo a escolher, vou fazer uma listinha!"
"Fernando é bonito, mas eu ainda não sei. Vamos ver mais pra frente então."
Enquanto escrevo aqui me vem alguns flashes na cabeça do dia em que eu pulei em cima dela e passei a mão na barriguinha. Ainda na semana passada pedi pra ela gravar o DVD do ultrassom e nos mostrar!
"A gente dá a mídia, Val, não se preocupa!" - disse a Silmara, também grávida (mas de 7 meses), também feliz.
Bom.
Estou escrevendo isso numa segunda-feira, dia 6 de Julho. Eram umas 9 da manhã quando a Nega chegou pra trazer o café (Nega, leia-se a senhora que nos traz café).
Eu estava no telefone com meu namorado mas quando ela adentrou não pude deixar de saudá-la com meu costumeiro grito de "Neeeeeeeeeega bom dia!"
Mas desta vez a Nega não deu seu gritinho em resposta também. Não veio me abraçar. Simplesmente com um sorriso fraco no rosto disse um "oi amor" meio xoxo.
Então ela saiu da sala e depois de alguns minutos desliguei o telefone.
A Nega entrou novamente para pegar não-sei-o-que.
"Nega!" - chamei.
"Oi meu amor."
"O que você tem, Nega? O que aconteceu pra você estar com essa cara?"
"Lembrei muito de você e da Silmara no fim de semana."
"O que aconteceu?"
"A Val. O marido dela. Faleceu num acidente de moto."
Antes que eu pudesse processar direito o que havia acontecido, as lágrimas já começaram a cair sobre o teclado do computador.
"O que você está me dizendo, Nega? Você está brincando comigo?"
"Eu adoraria estar brincando, filha, mas foi isso o que aconteceu. Sexta-feira, às três da tarde. E ela só foi saber no sábado, no mesmo horário. Ele sumiu e começaram a procurar desesperados. A irmã foi reconhecer no IML. Do peito pra baixo só sobraram...tripas."
Tive que respirar fundo pra continuar a escrever. Parece que a moça que tentou socorrê-lo teve que ser recolhida aos pedaços. No caixão me disseram que ele parecia um boneco. O couro cabeludo teve que ser colado de volta à cabeça.
Me veio uma vontade de rir.
De rir de desespero.
Rir de pânico.
Rir de medo.
Rir de desespero e chorar de desespero ao mesmo tempo.

"A vida da gente não é nada"
"Nós não somos nada"
"Nós não somos ninguém"

Eu não concordo com o que eu tive que escutar.
O que eu acho é que a gente dá pouco valor às coisas, apenas isso.
O que eu acho é que a gente faz muito pouco, a gente vive muito pouco.
Mas nada nós não somos, tampouco a nossa vida se assim quisermos.
O nosso corpo, isso sim, embora estruturalmente perfeito, pode ser desfeito em questão de segundos.
É comestível, destrutível, altamente inflamável, descolável, despedaçável.
Mas não nós, não nossa vida.
Repito: se assim quisermos.

Eu tinha escrito muita coisa depois disso tudo aí que escrevi aí em cima. Muito diferente do que tudo o que escrevi aí embaixo. Inclusive já estava começando a xingar meio mundo por desprezar o que realmente importa. Por dar valor à coisas ignóbeis, estúpidas e hipócritas. Por desprezarem a capacidade que as pessoas tem de deixarem um legado de amor e justiça. E não estou falando de assassinos, psicopatas, drogados. Não estou "revoltadinha com o mundo porque o mundo é uma merda". Estou falando de pessoas comuns, estudadas, que tem inteligência para serem os melhores em suas profissões mas não tem inteligência para ouvir verdades e aceitá-las.
Gente que ensurdece às verdades e banaliza o fundamental. Gente cruel que indiretamente assassina os valores, mas que passam despercebidas à nós como nossos amigos de "gênio difícil", como nossos conhecidos "complicadinhos."
Tornando-se tão temerosas quanto um assassino e um psicopata. Valorizando a vingança, valorizando o ódio, valorizando picuinhas sem nexo.
Estamos cheios de assassinos aqui. E a gente muitas vezes os suporta num bar porque são legais e engraçados.
Mas enfim, alguns bons momentos de reflexão e de algumas lágrimas me fizeram parar pra pensar um pouco e escrever exatamente isso:
A única coisa que eu queria frizar aqui é que o que somos não é destrutível (abalável talvez), apenas invisível aos olhos, mas completamente visível ao coração.
Nosso corpo foi feito para ser utilizado, cuidado mas para desaparecer no final como atores por trás de uma cortina depois que o show acaba, mas o que fizermos pode ficar pro resto da vida e fazer uma grande diferença por gerações. Como um espetáculo que jamais será esquecido na lembrança.
Crentes de tudo
Ou descrentes de tudo
Que possamos fazer nosso melhor
Para dar sentido à nossa existência.
O sentido da vida a gente é quem cria
E aí, frases como aquelas tornam-se errôneas.
A vida da gente é tudo!
A gente é alguém!
É por isso que estamos aqui.
Que o sofrimento nos faça pensar, e não desistir.
E digo isso depois de muito descrer.
E digo isso depois de muito duvidar.
Mas saber eu não vou mesmo, ninguém vai. Embora todos questionemos, é um questionamento em vão.
Vamos todos questionar e chegar a algumas conclusões, porém talvez nunca à verdade.
Por isso repito: crentes ou descrentes, que possamos tornar visível o que é invisível.
Para não sofrermos
E principalmente para fazer valer a pena.
Que possamos amar enquanto vivos
Viver enquanto vivos
E sermos úteis, o que faz todo o sentido do mundo.
Eu soube que a Val pediu a Deus para que na hora do parto, ele a levasse e deixasse o bebê para sua família cuidar.
No lugar dela eu talvez não tivesse forças para falar
Mas como alguém que soube da notícia às 9 da manhã enquanto estava no computador, o que posso desejar é que seu filho lhe traga felicidades em triplo por tudo o que hoje ela sofre.
E que através dele, ela descubra um sentido em sua vida que hoje não é capaz de enxergar.
Que o tempo possa ajudar a trazer sentido àqueles que ficaram.

11 Comments:

Thaís said...

eu nem tenho o que falar...é muito dificil falar em destino e caminho certo por linhas tortas quando acontece coisas assim....espero que ela se recupere logo e que o marquinhos fique bem!!

Tha Basile said...

:(

Só o amor e muita força pra superar uma coisa dessas. Quando ela tiver melhor, daqui ha um tempo, leia pra ela alguns textos do blog "para francisco" (googla ele que vc acha)..o pai teve morte súbita e ela estava de 7 meses tbm...e hj ela é a pessoa mais feliz que existe, pois escreveu um blog pro filho ler quando for grande..e recebeu carinho de muita gente, oq a ajudou.

:(

Messias said...

Marcos Junior, um bom nome, mais do que nunca agora! Muito bom o texto. Muito triste, e que meu comentário não seja tão superficial quanto pode parecer, mas um filho sempre denota esperança... seja como for, faço minhas as suas ultimas palavras de esperança do final do texto que "ela descubra um sentido em sua vida que hoje não é capaz de enxergar.
Que o tempo possa ajudar a trazer sentido àqueles que ficaram"

beijos e obrigado por visitar meu blog nostalgico

Thaty said...

"Gente que ensurdece às verdades e banaliza o fundamental. Gente cruel que indiretamente assassina os valores, mas que passam despercebidas à nós como nossos amigos de "gênio difícil", como nossos conhecidos "complicadinhos."

amei!

Thaty said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thaty said...

(ai, apertei o botao antes de terminar o comentário...)

como a tha disse, so o amor e força e o tempo... é triste isso. a vida é curta e há um ponto final nos esperando, infelizmente!

:\

ADONAMANDA said...

Oi Tha... não conheci este espaço... mas gostei muito do seu texto...
é normal as vezes sentirmos não ser nada... senti isso quando meu pai, num acidente de moto, morreu com o corpo esmagado, e despedaçado da cintura pra baixo, exatamente como o Marcos.
viver é uma delícia, e eu só quero aproveitar.....

ADONAMANDA said...

desculpa, t chamei de thá pq a Thais_so no twitter que me indicou, li thais, e pensei que fosse dela.
mas muito bom o texto mesmo assim, parabéns.

Messias said...

atualiza mais não? Ou eu que ando dando volta nos blogs que acompanho rápido demais?! beijos

Milmoya said...

Oi Flor... criei dois blogs, um para consultoria natura e avon e outro pessoal... www.consultoramilena.blogspot.com e www.trevodelichia.blogspot.com
Depois da uma olhada :D
E vê se retorna minhas ligações que não aguento mais te ligar e ninguém me atender! rsrsrsrs
Beijos nas faringes!

M. said...

vc tb é colunista do Blônicas dois? Achei o máx por lá. Parabéns!!!!
beijos