terça-feira, 15 de junho de 2010

As cordinhas dos fantoches são de náilon.

Nem todas as pessoas que gosto muito eu admiro.
Nem todas essas pessoas possuem lá muitos fatores para que eu as admire.
Eu sei que não sou a pessoa mais admirável do mundo. Veja bem, as últimas roupas que eu tinha, eu vendi em vez de doar, e eu já ia me justificar aqui do motivo, mas não preciso. Não faço parte de uma ONG que cuida de animais carentes e não sou nenhuma voluntária que cuida de velhinhos e crianças, embora eu gostaria.
Mas do que adianta? Não procuro! Se eu procurasse provavelmente eu acharia, mas essa é a minha parte indolente não tão admirável.
Acredito que eu deva ser digna de admiração sim. Não sou de grandes feitos, mas acho que só de respeitar as pessoas e não piorar o que já está uma merda, é uma grande coisa comparado às pessoas (a maioria delas) que termina de sujar o que já está apodrecendo.
Verdadeiras catalisadoras da decomposição de matéria que não precisaria ser decomposta.
Catalisadoras de decomposição daquilo que poderia ser útil e muito.
Hoje em dia muita gente tem mania de reclicar o lixo.
Lá lá lá vamos reciclar o lixo porque é assim que deve ser.
Perfeito. Acho lindo quem recicla! Mas aí me pergunto...elas falam tanto de reciclagem e de aproveitar as coisas que um dia poderiam virar lixo, mas inutilizam tantas outras coisas importantes.
Reciclam aqui, decompõem ali.
O que adianta reciclar a garrafa pet mas jogar fora a oportunidade de elogiar e provar respeito?
Querem plantar árvores mas ao mesmo tempo destróem toda a natureza dentro de si.
Querem tornar o ar mais respirável mas ao mesmo tempo sufocam-se com coisas banais.
Querem cuidar do Planeta Terra mas esquecem que eles também são o Planeta Terra e eles se acabam.
Querem revolucionar e cantam aos quatro ventos que vão lutar para não serem escravos do sistema e...e são verdadeiros idiotas porque o sistema é este e você não vai fugir dele a não ser que se enterre ou que vá pra Cuba viver num sistema pior.
Querem que a filhinha seja uma menina direita mas não descarta a oferta do carro feita pelo ricaço que queria dar uma bimbadinha.
Acha um absurdo o filho chantagear os pais mas...espere! Opa! O pai é o ricaço que oferece carros em troca de uma bimbadinha!
Acha todo mundo um idiota e...Opa! Eu também sou um deles! =D
Esfregam vicky vaporub no peito da criança quando esta está com dificuldades para respirar mas dia seguinte baforam fumaça de cigarro na cara da inocente.
Acham vadia a amante do marido mas fazem boquetinho no chefe na hora do almoço!
Reclamam da barriga de fora da menina de salto alto na plataforma do metrô, mas não perdem uma oportunidade de jogar charme em cima de homem casado.
É a melhor pessoa do mundo quando se trata de ajudar o outro, mas é a primeira a jogar na cara o favor quando precisa.
Acariciam o rosto do mendigo mas só quando tem platéia para poder assistir o espetáculo de suas dignas atitudes.
Cumprimentam a esposa do amigo com largo sorriso no rosto, mas quando essa se vira, não perde tempo em arranjar um lugar secreto para alargar a cueca do cara.
Reclamam do idiota no trânsito e xingam o coitado até a saliva se extinguir, mas quando um dia precisa passar voando por alguém porque a mãe está morrendo no hospital, reclamam que as pessoas deveriam ser mais compreensivas.
Reclamam da lerdeza da loira burra do carro da frente mas se esquece que um dia foi pior que ela na autoescola quando ainda era um jovem garoto que não sabia miérrda nenhuma do mundo.
Caem na balada porque querem mostrar que não devem nada a ninguém e que são livres e seguros de si mesmo, mas à noite em suas camas chupam seus dedos porque não há ninguém que os ama verdadeiramente a ponto de dar sua vida por eles.
Transam com quase todas as pessoas do mundo e dizem ser felizes com isso, mas são os primeiros a lacrimejar quando percebem o olhar apaixonado de um velhinho de mãos dadas com uma velhinha fofa.
Traem a namorada fiel porque sentem medo de que ela traia primeiro. "Ah! Vou traí-la porque se ela me trair eu já me vinguei". Aí a coitada é uma santa que nunca olhou pra ninguém e te adora incondicionalmente. E mesmo se não fosse, se você namora alguém de quem desconfia, que tipo de idiota é você?
Sentem-se adultos porque ficam em frente na computador com um cigarrinho de merda entre os dedos, mas fazem questão de esquecer que foi a mamãe que pagou o cigarrinho, a comida, a conta do telefone, o computador e a papinha do bebê que adormece no bercinho lá atrás.
Espetam os outros com suas palavras afiadas e sangrentas, para que ninguém tenha a oportunidade de chegar tão perto e notar o quanto são fracassados, podres e infelizes!=D E o quanto fedem.
Exigem respeito com suas religiões mas são os primeiros a limpar a bunda com as folhas da bíblia de outra crença.
São belíssimos e aparentam cheirar a lavanda. Mas se a gente chegar muito perto, começa a perceber que o ar está ficando pesado e fétido. E que o rosto outrora perfeito, se deforma com tão pouco.
São engraçados e sujos.
São lindos e perigosos.
São cheios de opiniões, mas manipulados.
As cordinhas dos fantoches são de náilon.
O coração de muitos que doam o dízimo, é de pedra.
A pele lisa e reluzente é áspera e suja.
Todos andando sobre suas duas pernas, independentes, cheios de si e cheios de fralda pra disfarçar o cheiro da podridão que vaza.
Todos são lindas esculturas do Louvre até que o primeiro sopro os despedace levando pedacinhos de vidro de açúcar ao vento.
Onde caralhos estão todas aquelas palavrinhas bonitas da campanha da fraternidade?
Pois sabe-se que o amor é raro.
O respeito é raro.
E hoje em dia infelizmente o lugar onde com certeza encontraremos tudo isso é no dicionário, porque se depender do coração humano, daqui a alguns anos esqueceremos de quase tudo.
Planeta Terra.
Infelizmente,casa abandonada e nostálgica com frestas de luz, e não casa iluminada com frestas de trevas.
Que mesmo que não enxerguemos um passo adiante, possamos enxergar a nós mesmos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ana.

Quando a tia dele estava grávida, a gente namorava há poucos meses.
Ele sempre foi muito carinhoso, lindo, maravilhoso, espetacular, o melhor namorado do mundo.
E eu sempre adorei bebês.
Eu ficava imaginando como seria quando a Nana nascesse.
Será que ele seria muito apegado à ela? Será que sentiria ciúme dela? Será que ele agiria como pai dela? (Já que os pais não moram juntos).
Bom, aí um dia, como todo bebê tem que nascer, a Nana nasceu.
Ele me ligou dizendo que ela havia nascido e na hora meus olhos encheram de lágrimas e eu sorri.
Ele disse que ela era linda e bem pequenininha.
Fiquei feliz, mas aí no fim de semana seguinte eu fui conhecê-la.
E confesso que o que senti foi um dos sentimentos mais idiotas que já pude sentir em toda a minha vida.
Senti ciúme do bebê.
Fiquei pensando:agora que ele vai ter um bebê praticamente morando na casa dele, acho que ele não vai mais me dar tanta atenção assim, acho que ele vai preferir ficar com o bebê do que sair comigo.
Sim.
Confesso.
Foi ridículo.
E eu me envergonhei desse sentimento tão besta.
Eu sempre tive ciúme de tudo. Dos meus namorados, do meu edredom, dos meus bichos, das minhas meias, dos meus shampoos, dos meus amigos. E acreditem, incomoda muito sentir pelas pessoas a mesma posse que se sente pelo próprio edredom.
Se hoje eu amadureci em relação à isso foi graças ao meu passado esdrúxulo, mas PRINCIPALMENTE por causa do De.
E também porque eu quis mudar.
Mas hoje o meu ciúme não é mais possessivo, é apenas um ciúme normal, transformado à base de muito custo, auto controle e de muita, muita reflexão, porque eu não queria perder o amor da minha vida pra bobagens idiotas provenientes de um sentimento que não deveria ser maior do que o sentimento de amor.
Bom, mas voltando ao assunto.
Embora com essa bobagem cutucando o fundo do coração, eu estava ansiosa para ver o bebê. E então adentrei o quarto e pude ver aquela coisinha tão pequenininha, com o umbiguinho que nem tinha caído ainda, toda rosinha, toda lindinha.
E a cada fim de semana que passava ela estava ainda mais linda.
Bastou vê-la apenas uma vez para que eu me apaixonasse completamente e esquecer que um dia, por uns segundos, eu fiquei com ciúme daquela pessoinha tão perfeita.
Quando a gente convive com um bebê, é impossível não se apaixonar, mas convenhamos, existem crianças que são realmente um pé no saco. Choram por tudo, não deixam chegar perto, fazem escândalo e não dão risada nem com plumas deslizando por seus pequenos sovacos.
Mas a Ana...
Ah, a Ana!
A Ana é diferente! A Ana é especial.
Ela tem algo ao redor dela que faz com que os nossos olhos brilhem.
Ela tem um jeitinho todo único de conquistar, de sorrir, de fazer gracinhas.
Eu vi a Nana se arrastar pelo chão, vi engatinhar e vi os primeiros passinhos.
Vi a ponta branquinha do dente começar a nascer e vi desabrochar o sorriso mais doce naquela boquinha outrora sem dentes.
Vi os cachinhos louros começarem a se formar e vejo até hoje os progressos que ela faz, mesmo quando se trata de um simples "óla" quando ela aponta para alguma coisa.
A Nana dá risada de tudo! Tudo pra ela é engraçado, tanto que quando ela descobriu o próprio umbigo foi motivo de gargalhadas. Ela colocava o dedo no umbigo e ria, ria como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo!
Hoje ela está com 1 ano e acho que três ou quatro meses, e quando a gente pergunta quantos anos ela tem, ela responde: Dois!
Não, Nana, você tem UM aninho.
E ela repete: Nui!
Modéstia a parte, quando ela me vê ela agarra na minha perna e não me deixa andar, quer ficar grudada comigo, e eu por mim ficava grudada nela o tempo todo.
Fico pensando quando eu tiver meus filhos como vai ser.
Já faz uns 5 anos que tenho uma vontade quase incontrolável de ser mãe, e às vezes fico pensando que talvez para mim seja esse o sentido da minha vida. O que é muito engraçado, pois quando eu era adolescente eu queria mais era ser solteira e morar sozinho pelo resto da vida.
Não sei de onde apareceu essa vontade de ser mãe e essa loucura por bebês.
Há anos vejo bebês nas ruas e fico desesperada querendo logo ter o meu.
Dizem que é instinto, sei lá.
Mas a questão é (voltado novamente ao assunto), antes da Ana eu não tinha contato próximo com nenhuma outra criança. Não sabia como funcionavam, como era a sensação quando eles te pedem colo, quando eles querem ficar com você, exclusivamente com você, quando eles te trazem uma bola para que você brinque com eles, quando eles acham alguma coisa e querem te mostrar. Eu não sabia como era lindo e avassaladoramente cuti-cuti quando eles começam a dançar quando passa a música de um comercial ou quando eles imitam o gesto das pessoas ou tentam repetir o que você está falando.
Eu acredito ser impossível não se apaixonar por uma criança ao conviver com ela. Não amar, não sorrir e não dar risada das palavras que elas inventam.
E então fico me questionando a respeito de pessoas como aquela procuradora satânica que fez aquelas barbaridades com aquela garotinha.
Eu não tenho nem o que comentar sobre isso, sobre pessoas assim, sobre pedófilos e suas monstruosidades. Eu não consigo expressar a revolta, o nojo, o asco, o horror que sinto em relação à monstros como estes. Mas acho que não preciso expressar, acho que todas as pessoas normais sabem exatamente o que eu sinto, porque sentem o mesmo que eu.
Sim, dizem que são doentes, psicopatas, sei lá, mas eu acredito que essas pessoas não são nem pessoas, não são humanas, são frutos da criação de alguma coisa paranormal, esquisita, sei lá.
A própria menina que foi maltratada, ela tem 2 anos, mas por mais psicólogos e remédios que ela possa vir a tomar, a vida dela que poderia ser uma vida linda digna de amor e carinho, se transformará numa vida traumatizada e sabe-se lá as formas que o fantasma daquela cadela podre ainda vão perseguí-la.
Todo ser humano precisa de amor e carinho. Não há meios de uma pessoa ser feliz sem um mínimo de amor e carinho. As crianças e pessoas mais traumatizadas assim são em boa porcentagem porque não tiveram talvez amor e atenção o suficiente.
A sua atitude hoje perante uma criança, pode desencadear uma reação em cadeia que talvez ajude a tornar o mundo melhor um dia, e talvez ajude o mundo a se deteriorar com todo o resto do lixo.
Se você acredita não ser capaz de amar uma criança, de cuidar, de ter paciência e de fazer o melhor por ela, não tenha e faça de tudo para não ter. Não seja imbecil ao ponto de colocar a culpa na camisinha que furou o na pílula esquecida. Se você acredita não ser capaz de dar o seu melhor para uma criança, então seja pelo menos um pouco inteligente e cuide-se. Hoje em dia métodos contraceptivos não faltam.
Mas se o "acidente" mesmo assim acontecer, trate-o como um presente e não como uma fatalidade.
Nenhuma criança pode ser tratada como fatalidade.
Nenhuma criança merece ser tratada como um acidente.
Se veio antes da hora, encare como um presente que chegou mais cedo, e então tenha a certeza que a sua vida acabou de ganhar o maior sentido que já pôde ter.
Muitos alegam que um bebê em suas vidas em determinado momento, poderia estragar tudo, desencadearia uma tragédia, por bilhões de motivos, falta de condição e etc. Mas eu sinceramente duvido que um dia a alegria de tê-lo não vai compensar o seu pânico momentâneo.
Por mais difícil que seja ter um filho numa hora errada, se você não é capaz de amá-lo, você não deveria merecer estar aqui.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Se eu fosse você

Hora de acordar. Sei disso porque o xixi sempre avisa antes do despertador, estou ficando velha, sei lá. Ainda sonhando, olho no espelho: vejo uma cara de louca com um cabelo até que arrumado. Saio escovando os dentes, sentindo que algo está diferente. Não sei dizer se é o clima ou se realmente ainda tô dormindo. Abro o armário automaticamente. PLAF, tomo um tapa de uma blusa que cai lá de cima.

Normal. Pego a bolsa, a chave, coloco o sapato, abro a porta e...vejo o meu segurança lá fora. MEU SEGURANÇA?

- Vamos Jamal - falo pra ele quando na verdade queria dizer: que PORRA é essa? mas não sai nada, caraca, ainda tô dormindo??? Olho pra baixo, estou vestindo uma calça Diesel basiquinha de R$5.000 e um sapato Louboutin de R$12.000. Tudo que sai da minha boca é:

- Nossa, essa calça está apertada, preciso intensificar a dieta de 850 calorias pra sair dos 49kg, tô enorme.

ARGH, penso, agora onde será que esse corpo pontiagudo vai me levar, que desespero!!!! Olho de novo, estou no carro, um X6 blindado. Cadê meu Palio ano 2000??? Vejo um lugar apontando lá na frente, é a Daslu. Desço do carro, querendo fugir pro outro lado, mas tudo que faço é andar lá pra dentro. Percebo que a fome está me matando porque não tomei café, mas, eu começo a comprar loucamente, enquanto falo sobre "como a Pink Elephant virou povão" com a recepcionista que fez a primeira aplicação de botox quando tinha 15 anos de idade.

Me olho no espelho: tenho a boca mais projetada de preenchimento do que a da Jolie com alergia. Penso em me matar, mas sou puxada por mim mesma para o que seria meu próximo destino, a academia. Jamal me deixa pontualmente ao meio dia na porta, sei disso porque prefiro treinar do que comer. CARALHO! cadê meu almoço bandeijão com uma carne suculenta?? Entro, coloco minha bolsa esportiva edição limitada de Tom Ford no banco do vestiário exclusivo, sem deixar de reparar com desdém para as outras mulheres do lugar. QUEM DIABO É TOM FORD? sinto falta do Brás! alguém me salva!!

Pego minha água Evian e me dirijo para as máquinas de tortura, mas tudo que consigo pensar é: "preciso ainda perder dois milímetros de barriga porque a última lipo não ficou tão boa quanto as outras". Três horas depois, ainda estou lá, quando tudo o que eu queria era que Jesus fosse bom comigo e me levasse!

Olho pra fora: vejo uma Ferrari vermelha abrindo a porta, de dentro dela sai um cara meio Emo, meio gay, meio bombado, meio hétero, meio com o cabelo propositalmente desgrenhado. Andando na minha direção, ele dá um sorriso TÃO branco que preciso olhar pro outro lado. PORRA, O QUE VEM AGORA? Ele abre a boca e diz que estava com saudade, mas que precisávamos ir logo.

Pisco os olhos e estou dentro de palácio gigantesco em estilo gótico, onde todos vestem máscaras. Em cada quarto tem trinta pessoas peladas. SOCORRO!!!!!QUERO MEU MARIDO!! Mas logo menos, já estou doida de ecstasy sendo comida por três homens e uma mina mais magra que eu.

Estou emocionalmente abalada, mas aquele corpo ignora e ainda tem a manha de dizer:

- Será que Ecstasy engorda?

OOOOOOOH!!! FUI ABDUZIDA! Mas não adianta, porque volto pra casa e mamãe ainda me espera, com seu namorado 26 anos mais novo e cheio de amor pra dar. Fico sabendo que papai colocou ações de algumas de suas empresas no mercado e anda aproveitando a vida no Pacífico Sul, velejando com todas aquelas modelos que adoram andar com ele. QUERO MEU PAI CORINTHIANO E FUMANTE!


Quase sem forças para reagir mas ainda viva, olho pro céu e vejo refletida a imagem de uma paricinha loura DE-SES-PE-RA-DA dentro do Shopping D, comprando uma blusinha a R$18 e indo comer no Mc Donald's, pensando em como será a baladinha de hoje à noite lá na Zona Leste.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Quero - de Henrique Athayde

Pessoal, sei que o Blog está um tiquinho quanto desatualizado. Eu, particularmente não vim aqui hoje pra escrever uma crônica, meter o pau em alguém, querer contar minhas experiências com fantasmas, sonhos esdrúxulos e afins. Vim para divulgar o maravilhoso trabalho de um amigo, ator e compositor, o excelentíssimo Henrique Athayde.
Ele está lançando um CD com músicas maravilhosas (quem gosta de Chico Buarque com certeza vai adorar suas músicas) e semana passada gravamos seu primeiro clip (na correria, pois precisávamos até este último domingo).
O resultado vocês conferem abaixo!
Estamos concorrendo também na Garagem do Faustão! Se você não tiver com os dedos enfaixados, sugerimos obrigatoriamente (hehehe) que votem em nós entrando no site do Garagem e clicando na ultima estrelinha até que todas apareçam amarelas! Ebaaaa! Para votar basta acessar http://domingaodofaustao.globo.com/Domingao/Garagemdofaustao/0,,16989-p-V1250038,00.html

No Youtube:



Chega de bundas por enquanto! Vamos dar valor ao que realmente interessa, a quem realmente se esforça para receber reconhecimento!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sobre humoristas, inteligência e hipocrisia.

Vamos falar sobre inteligência, acidez e olhar crítico. Quantas pessoas do seu dia-a-dia e até mesmo da TV vocês conseguem enumerar com estas características? Não estou falando da inteligência que vemos por exemplo em notícias estrategicamente veiculadas de uma certa maneira para vender audiência e que dão "credibilidade" a jornalistas como Bonner. Estou falando de gente criativa e observadora, que tem backgruound, que lê coisas diferentes, que é curioso, de inteligência que nasce da crítica e que impulsiona tanto o riso quanto a raiva, para alguns, porque não estão acostumados a ela.

Pra mim, Danilo Gentilli é uma dessas pessoas da mídia que conseguem pensar diferente daquelas com quem estamos acostumados. Na segunda-feira, durante o programa de re-estréia da Hebe depois da sua doença, no twitter, ele fez uma piada boba relativa à idade dela. Artistas como Bruno Gagliasso - que talvez gostem de aparecer às custas de criticar o trabalho alheio - levantaram a bandeira vermelha e a polêmica estava criada.

Acredito que nenhuma pessoa mereça mais respeito que outras, em nenhuma situação. Quando os humoristas estilo stand-up apareceram, eles mesmos se definiram como babacas e sem caráter, o próprio Danilo já escreveu sobre isso. Não existe humor stand-up bonzinho. Pergunto: fizeram piada por quase dez anos com Dercy (que repito, não merecia mais nem menos respeito que Hebe) também em momentos de doença e quando ela já estava bem encovadinha, mal. Com ela, pode? E as piadas com muitas outras coisas e situações "erradas" do ponto de vista moral, piadas com gays, anões, gordos, velhos, pobres, loiras?

O que todo mundo parece ter esquecido é que humorista não nasceu pra ser politicamente correto e nem pra conquistar amigos com uma super educação, através de suas piadas. Não dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo, ser engraçado e bonzinho. Todos somos minorias em algum momento ou papel de nossas vidas, todos sofremos humor ou piadas, todos sabemos aceitar isso muito bem, ou deveríamos, já que também adoramos zuar os outros.

E mais: o twitter do Danilo é utilizado para o trabalho dele, para divulgar piadas, shows. O contexto era esse. Ele não posta imagens e frases relativas à sua família, vida pessoal, amigos e do nada decidiu falar "mal" da Hebe. Ele fez uma piada num instrumento do trabalho dele, que é o twitter.

Hebe deve estar rindo disso tudo e até concordando com Danilo, do jeito que é diva. Esses artistas que têm milhões de seguidores e gostam de achar pêlo em ovo deviam é estar utilizando sua "fama" para algo mais útil e criar polêmica sobre os problemas do nosso governo por exemplo, ajudando de alguma maneira o povo que tanto os idolatra.

Muito, muito barulho por pouco. Bem a cara da nossa pseudo elite da mídia.

* Para a réplica brilhante de Danilo, clique aqui http://migre.me/n91f

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Porque eu também gosto de mim.

Internem-me
Porque este mundo é P mas eu só visto M.
Mas quem é esta pobre garota que julga seu extravasar tão intenso, se nem ao menos provou um décimo das loucuras mundanas?
Internem-me
Porque eu canto como vocês, mas minha voz lhes soa rouca.
Eu falo a língua de todos vocês
Mas se vocês não conhecem a própria língua, como me cobram mordazmente uma compreensão?
Meu vocabulário
É menor do que eu gostaria
Minha cultura
É menor do que eu gostaria
Minha ternura
Quase escassa:
Não, obrigada.
Porque sou de gestos tumultuosos
Mas dentro de mim guardo tudo.
Eu sou a louca que dança ao som do nada
Eu sou a maníaca que fala sem dizer
Mas tenho quase todas as qualidades do mundo
(Quase)
E desprezo com tal asco
Qualquer forma de desrespeito.
Se Jesus deu a outra face,
Pobre coitado, deve ter doído!
Mas ele é filho de um bípede, e eu não.
Tenho uma característica: Adoro provocar quem me provoca.
Sou sensível a ponto de morrer de remorso por nada
Mas odeio com tal profundidade qualquer atitude injusta.
Façam sofrer quem eu amo, que eu lhe detestarei.
Façam sofrer a mim, que eu lhes desejarei atrocidades
(Mas é só na hora, não sou capaz de realizar uma vingança.
A vida costuma ser mais cruel em muitas vezes).
"Deseje felicidade a quem te odeia"
Não.
Não desejo, porque isso é falso.
E porque não sou filha de uma pomba.
Desejo que aqueles que me odeiam
Percebam que não há motivos para me odiar.
Mas ainda assim, se não perceberem
Que explodam.
Porque eu não sou odiável.
Hoje estou convencida que qualquer pessoa que não goste de mim
Tem motivos de sobra para que não gostem dela.
Porque eu passei grande parte da minha vida
Pensando que eu poderia ser um problema
Que se não gostasse de mim, eu era a causa.
Mas
Eu nunca fui o problema.
O problema sempre foram os outros.
Se eu admito quando erro?
Admito e sinto um remorso tão intenso, que sou capaz de me ajoelhar por dias diante dos pés alheios
E chorar rios de lágrimas.
E hoje sei
Que não sou problemática como me disseram
Que não sou desequilibrada como me disseram
Que não tenho problemas emocionais como me disseram
Que não sou o que no passado me fizeram crer que eu era.
Vocês estão em desvantagem.
Eu fui ao psiquiatra e ele me disse uma coisa:
"Você é muito consciente de si mesma!
Isso é raro!"
E eu quase disse: Que novidade!
O único que poderia atestar minha loucura
É um dos pouquíssimos que acreditam que eu não tenho problema algum.
Eu ri interiormente. E achei engraçado e bom.
Eu sempre estive lúcida, Doutor.
Eu sempre estive consciente
Mas o que é uma pessoa consciente num mundo de insanos?
A própria louca.
Esse mundo está uma grande bosta.
As pessoas não se assumem
As pessoas fogem de si mesmas e preferem
Sempre preferem
Jogar a batata para nossas mãos, para que nos queimemos com suas verdades.
Mastigamos a verdade alheia como se fosse batatinha frita
Mas sentimos um gosto amargo que pensamos talvez nunca passar.
Minha boca está amarga pelo gosto das verdades alheias
Verdades que não quiseram engolir e em minha boca vomitaram.
Eu engulo a verdade de vocês
Com isso vou sofrendo de ânsia, e vocês de covardia.
E a cada golada do suco podre de vocês
Minha visão torna-se menos turva
E a vossa visão, "vaidades de carne e osso", torna-se escassa por fim.
Não sou depósito de vossa falta de sobriedade.
Peçam-me conselhos, peçam-me um beijo
Mas não me peçam para vestir-me com o fardo de vossa ignorância.
Fardo mal-cheiroso e pútrido que não me serve
Porque não é meu.
Cada um tem seu fardo sob medida.
Cada um tem suas desgraças sob medida
Cada um um tem suas glórias sob medida.
Mas a gente tem uma sensação filha-da-puta
De que tudo isso não é pra gente.
Já não bastassem meus erros
Ainda adotar os de vocês?
Pois internem-me que talvez até vos agradeço.
Quem sabe no hospício não recito poesias para os loucos
E por eles seja aplaudida?
Quem sabe no hospício eu cante canções que as pessoas também escutarão?
Quem sabe no hospício eu escreva um livro de sucesso
E depois fique rica, case e mude?
Quem sabe?
Loucura inversa.
Diversidade ridícula que é o mundo
Estratégicamente perfeita, bela e ridícula.
Me perdoe, mundo, por querer ser útil mas vender minhas roupas.
Me perdoe, Bento, por não acreditar em você.
Me perdoe, mundo, por viver no limite da transparência.
Isso não é pra você.
Isso é para os bons que já não estão aqui.
Mas viva, prometo, estou tentando me adaptar
E adoro isso aqui tudo, por mais que deteste.
Perdoe por tentar entrar de qualquer jeito na roupinha P que você me emprestou
Ainda que ela fure e rasgue.
Mas eu sei, no fundo eu sei
Que diante de toda a extensão de vossa grandiosidade
Que eu sou P como muitos outros
Ainda que existam subdivisões abaixo dos que também vestem meu número.
O M é a roupa que eu tentei afrouxar os elásticos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Gente que me irrita

Gente que cutuca espinha em público
Gente que acredita em spam
Gente que não chora pela mãe morta, mas chora por futebol
Gente que trata mal garçom, pedreiro, gari, faxineira
Gente que tem raiva de quem se beija em público
Gente que come 25 claras por dia antes de "treinar"
Gente que jura que era aquilo mas nem viu direito
Gente que fala por trás e não tem coragem de entrar numa discussão
Gente que não sabe o nome de UMA planta ou flor
Gente que grita “minha músicaaaa” pra I Got a Feeling ou qualquer uma da Rihana/Beyoncé/Gaga
Gente que chega do metrô e deita com a mesma roupa
Gente que não lava a mão
Gente que fala “queridão”
Gente que quer te converter
Gente que usa batom cor-de-vinho e deixa marquinha
Gente que gasta mais do que o salário comporta e posa de rica
Gente que acha que regras são só para os outros
Gente que leva BBB a sério
Gente que dá uma olhada na cara dos outros antes de falar, pra ver se não vai destoar
Gente que chuta cachorrinho ou gatos
Gente que acha que bebida perdoa o que fez
Gente que é política demais e esquece de ser sincera
Gente que baseia seus valores morais numa religião e não na própria consciência
Gente que não sabe rir de si mesmo e nunca pede desculpas
Gente que critica demais. Incluindo eu mesma.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Nostálgico Enredo

A infelicidade alheia não seria um problema se não afetasse a felicidade do próximo.
E nós aqui clamando justiça.
E nós, reles humanos
Que queríamos ser cantores, dentistas
Que queríamos sapatear como Fátima Bernardes no fim do ano (há anos atrás) na Rede Globo.
Que queríamos água quando tínhamos sede
E só recebemos pão.
E que queríamos comer
Mas só tínhamos água
Sal
E meio limão.
Nós
Que queríamos fôlego
Que queríamos comprar um sofá em prestações
Que queríamos comprar a tão sonhada casinha
Ter o tão sonhado bebê.
Que queríamos tirar os haitianos da miséria
E acabamos miseráveis morrendo como eles
Em meio a infinitos mortos tomando a vez de qualquer tapete
Posto em frente ao necrotério.
Que compramos perfumes caros
Que almejamos um desodorante numa tarde quente
Um banho gostoso pra relaxar
Acabamos confundidos num céu de defuntos banhados
Banhados sim
O tão sonhado banho
Mas de detergente e formol.
Nós que queríamos um flan de baunilha às três da tarde
Mas não podíamos comprar porque estávamos fora do horário de almoço.
Nós que trabalhamos até tarde da noite torcendo para que eu alguém notasse
Mas ninguém sequer estava lá.
Que livramos a pele de pessoas que no futuro se alimentariam da nossa própria pele
Que acolhemos quem hoje nos tira a honra.
Que salvamos a vida daqueles que nos fazem refém.
Que emprestamos dinheiro que outrora roubaram.
Que queríamos cantar mas não tínhamos voz
Que queríamos gritar, mas tínhamos na boca as costuras típicas dos vudus.
Que queríamos ouvir mas só ouvimos o que não queríamos.
Que queríamos justiça, uma justiça nunca feita.
Nós
Que exaltamos a blasfêmia pútrida da essência dos inseguros, covardes
Porém realizados.
Nós que parimos filhos e amanhã por eles somos mortos
Nós que não queríamos fumar
E por ironia fomos tragados pelas circunstâncias tóxicas.
Nós que queríamos uma persiana
Mas a chuva destruiu nossa janela.
Nós que queríamos colo
E recebemos um não.
Nós que queríamos luz
Mas recebemos as trevas.
Nós que torcemos pro mundo girar e ele girou
Mas girou ao contrário.
Nós que torcemos para pessoas serem felizes e essas sofreram
E aqueles que mereciam sofrer
Hoje riem de
Nós
Que achamos que sabemos o que é merecer
Que julgamos saber o que é justiça
Que nos apoiamos na literatura barata de cabeceira
E levamos conosco os momentos de sabedoria
Em miniatura para chaveiro
Junto à chave que já não abre mais porta nenhuma.
Nós que somos otimistas até que nos façam mal.
Nós que levamos a vida com bom humor até que matem nosso filho.
Nós que queríamos engravidar e somos inférteis
Nós que queríamos tempo
E o tempo já passou.
Nós
Lembre-se,
Senhor
Que nós
Só queríamos ser felizes.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Precisa-se, sempre

É a tal da conexão? Que muitas vezes a gente só tem com uma pessoa na vida? Ou que morre achando que não teve? Que quando a gente tem, tem medo de perder e acaba vivendo ela tão pouco? Que quando tem e acostuma, acha que não é bem aquilo e passa a desejar outra coisa? Que quando tem e passa, fica certo de que nunca teve?

Será que estamos aqui buscando só isso, no final? O que nos sustenta, de verdade, se ninguém é uma ilha?

Segurar a mão de alguém já significou pra mim sinal de intimidade, hoje preciso de mais. Sentir que sei coisas que aprendi só de olhar, conviver, não de ouvir. Ver tudo mudar, dia a dia, e seguir junto. Liderar, ser liderada, um olhar que sem falar nada já entende. Viver cada minuto com muita atenção simplesmente porque é bom, não porque precisa.

Representar um papel já significou esperança de aproximação, hoje significa brincadeira, opção, bobeira descartável pra ser descoberta. Ver lá no fundo, as melhores e as piores coisas, é mais que humano, pra mim é necessidade.

Sem isso não tem conexão, não tem substância, não tem vida.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Pra esperar...


Andando pelas ruas da cidade
Tremendo de tremenda ansiedade
Olhando para os lados, passos fundos
Passando pelos fundos sem vontade.

Jogando umas moedas pro mendigo
Dei conta que isso aí eu não concordo
Cresci dando comida, aí não ligo
Mas quando é pra dinheiro, então acordo.

Gosto de comida pronta
Microondas pra mim, raras as vezes
Eu crio mil idéias, fico tonta
Me perco na semana, esqueço os meses.

Tento pensar em mil coisas, abrir a geladeira
Dou uma de escritora, depois de cozinheira
Penso no coelho, olho-me no espelho
Olho o meu cabelo
O cabelo está sem brilho
Penso no meu carro
Penso no meu filho.
No carro que talvez eu tenha
No filho que talvez eu faça
Eu leio tudo acima
Sorrio e acho graça.
Dou uma de artista
Enfim peço uma pizza
Isso não tem rima
Mas traz um certo clima.

A pizza espedaçada
Gostosa e engraçada
Pedi Guaraná Dolly, Antartica incomoda
A marca é só a marca
O brega é que faz moda.

Vinte e quatro anos
Mas logo, aniversário
E como adolescente
E como estagiário
Eu olho à minha volta
E perco o meu horário
Quem mandou nascer tão solta?
Quem mandou nascer de aquário?
Quem mandou ser esquisita?
Quem mandou ser tão aflita?
Tudo isso veio à tona
Parecendo sem noção
Mas é só ansiedade
De esperar a ligação.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Posso desejar?

Quero arrebatação. Não tô falando do amor, e sim dos dias. Tô querendo ser surpreendida, empurrada, puxada por alguma coisa que eu não saiba de antemão, quero conhecer, quero ver um sentido pra isso tudo, pertencer a algo maior do que essa grande ilusão diária.

Quero ligar a TV e assistir ao vivo a alguns jornalistas se rebelando, quero sair na rua e ver todos os carros parados na marginal por puro protesto e não porque algo os parou, quero que todos tenham algo pra amar, e amem do fundo do seu âmago e não porque alguma propaganda mandou. Quero profundidade, quero risada de verdade e não de desespero. Não é questão de querer mudança, é questão de só ter apatia e desejar mais, muito mais.

Tô precisando sentir. Sentir arrepios de concordância, de deleite, de alegria em pertencer. Isso tudo me paralisa, eu sou tão mais, tão mais eu queria ser. O mundo é pra jogar na nossa cara as verdades, mas o que ele manda é o que a gente planta: ilusão, das ruins. Erro, dos piores. Apatia. Preguiça. Involução. Comodismo. Ignorância.

Fico presa aqui comigo, nas surpresas e delícias que o meu mundinho pode ter, desejando que isso fosse maior, muito maior e sem fronteiras.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Não é machismo, é crime

Vocês acompanharam, né? A menina da Uniban, que entrou na faculdade com um vestido curtinho. Ela se exibia andando na passarela da Uniban. Os meninos gostaram. Ela continuou se exibindo, más línguas até disseram que ela levantou a saia mais ainda. Durante a aula, ela saiu da sala, entrou no banheiro e aí aconteceu: ela saiu quase que sob urros de um grupo de homens e, depois, quase da faculdade inteira, chamando-a de Gostosa, Gostosa, Gostosa, Puta, Puta, Puta. Teve que ser escoltada por policiais pra sair sem ser atacada ou ser estuprada.

Claro que a menina é estranha. Ela teve um comportamento agressivo do ponto de vista da sedução, se é que a gente pode usar essa palavra, e num local nada apropriado. Ela estava se exibindo. Não estava tendo um comportamento “adequado” a uma faculdade. Mas podemos pensar que fumar maconha, transar na escadaria, também não é. E acontece. E nada disso trouxe vandalismo nem agressão como conseqüência. E nem deveria.

Justificar um crime de agressão, vandalismo e machismo sob esses pretextos, é a mesma coisa que dizer que um estupro é culpa da vítima. E é a mesma coisa que justificar quem bate em prostitutas. Quem xinga travestis. E a lista cresce.
Gente, a menina não estava pelada. Ela só estava com um vestido curto e se exibindo. E se ela fosse mesmo uma prostituta, qual seria o problema? Não gostou, chama o reitor. Ele resolve se a roupa é curta demais e se a atitude é errada, e toma as atitudes cabíveis.

O mais hipócrita disso tudo é que, os mesmos homens que cometeram esse crime, são aqueles que babam e adoram tudo que essa menina representa: a imagem da puta, da mulher-objeto, daquela que usa seu corpo a seu favor. E esses mesmos meninos, se fossem pra faculdade seduzindo, se exibindo e como ela foi, seriam aclamados como fodões .

Estão falando ainda que ela “fez” isso para poder sair em revistas e entrar num reality show. Quantas meninas e quantos homens por aí não dão o cu para entrarem numa novela e ninguém as xinga na rua. Muito pelo contrário, também são aclamados como fodões!

Porque todo mundo se mobilizou pra agredir essa menina? Necessidade de aprovação do grupo? Histeria masculina coletiva? Libido (deles) reprimida? Covardia mesmo?

O pior de tudo são as pessoas dizendo que ela mereceu ou pediu para ser agredida. 700 pessoas xingando e avançando e, se não fosse a polícia, vai saber mais o quê. Isso não aconteceria nem com o Sarney, mas aconteceu com essa menina. Inclusive a expulsão da universidade. Vai entender.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Bin Laden

Fiquem tranquilos que esse não é nenhum texto falando sobre o atentado de 11 de Setembro, tampouco sobre o responsável pelo próprio. O Bin Laden a quem me refiro é outro, cuja única coisa em comum com o original talvez seja a barba, mas ainda assim, de tonalidade e tamanho diferentes.
Mas antes preciso voltar a história um pouco.
Quem me conhece sabe que a minha relação com a minha mãe não é das melhores. Na verdade ela tem fases, nessas últimas semanas por exemplo a gente tem até se falado, se abraçado e passado uma perto da outra sem que surjam faíscas. Mas foi num dos dias de atrito (de enorme atrito) que eu saí de casa chorando e sem rumo.
Se não me engano o motivo da briga é que eu ia fazer um corujão de cinema na Av.Paulista com um namorado novo que eu tinha arranjado, e pelo fato de eu conhecê-lo apenas há duas semanas, um corujão, na opinião dos meus pais, não era muito recomendado.
Isso porque eu veria filmes e não participar de uma orgia com 12 prostitutas e 7 travestis.
Mas na opinião dos meus pais, o cinema com um recém-conhecido era muito perigoso de madrugada, mesmo sabendo que eu já era uma adulta, e que se eu decidisse ir para um corujão com um namorado novo, eu iria, e que se eu quisesse participar de uma orgia com 12 prostitutas e 7 travestis, eu também iria, e nem eles nem ninguém iriam me impedir.
Foi uma briga logo de manhã, derivada da seguinte frase:
-Não esqueçam que hoje eu vou pro corujão e só volto amanhã.
-Blá blá blá blá blá!
-Mas eu já tinha avisado vocês que ia!
-Blá blá blá blá blá!
Entendam, queridos leitores, que os "blá blá blá" que citei, eram muito mais do que simples advertências paternas, mas sim frases sem o menor contexto que magoariam qualquer pessoa, seguidas de gritos e portas batendo. De qualquer forma, melhor não entrar em detalhes, pois isso me traz lembranças não muito agradáveis e também porque não é conveniente.
Inconformada com o tanto de absurdos que tinha acabado de escutar, bati a porta de casa e saí sem rumo.
Chorando.
Na verdade a cena "chorando e saindo sem rumo pelas ruas" é algo que combina muito com a minha vida. =X
Sim, eu era a "garota maluca que saiu chorando pela rua" que as pessoas comentam quando chegam em casa e ficam se perguntando o motivo.
Pro meu conforto, já vi garotas malucas como eu, e vi que eu não era a única que se lixava para as interrogações públicas e que as minhas lágrimas e a minha tristeza eram problemas exclusivos meus, do meu mundo.
Fui até uma praça, era uma sexta-feira, logo cedo, deveria ser umas 9h da manhã. As pessoas caminhavam apressadas, senhores abriam suas barraquinhas de frutas, mendigos festejavam mais uma manhã de porre e crianças pediam coisinhas para suas avós. E tudo passava pela minha vista como um filme irreal que acontecia fora do meu mundo.
Eu ali, sentada num banquinho da Igreja perto de casa, pensando pra onde iria, o que faria, e que estava de saco cheio dessas cenas repetitivas na minha vida: briga - sair de casa chorando - querer morrer - não conseguir conversar com os pais - querer morrer - briga - gritos - querer sumir - conversar - ninguém querer conversar - ninguém saber conversar - choro - querer morrer.
Estava cansada.
E talvez tivesse me atirado duma ponte se não fosse contra o suicídio e vai se saber o que acontece com suicidas né.
De qualquer forma, jamais teria coragem de cometer uma atrocidade dessa contra mim, mas pra não fazer nenhuma outra besteira, sempre preferi sumir pra esfriar minha cabeça.
Depois de um tempo parada no banco, com o rosto inchado de tanto chorar, como se fosse por instinto segui rumo ao cemitério.
Pode parecer maluquice, talvez vocês digam que sou exagerada, que qualquer pessoa no meu lugar teria deixado entrar por um ouvido e sair pelo outro e em vez de seguir rumo ao cemitério, teria parado num boteco e pedir um suco pra esfriar a cabeça.
Mas lembrem-se, amiguinhos, vocês não fazem idéia de como são essas brigas, e além disso a Thaís é uma garotinha com tendências depressivas, pra não dizer depressiva mesmo. Hiperativa e alegre, mas contraditoriamente depressiva.
Mas não fui pro cemitério pra querer curtir uns túmulos, como fazem os nossos amiguinhos góticos, mesmo porque eu odeio cemitérios e acho que sempre tive mais o que fazer do que ficar vendo túmulos (exceto umas duas vezes e acompanhada, por pura falta do que fazer, pois já estava lá perto). Anyway, eu só queria um lugar silencioso onde eu pudesse chorar em paz, afinal, lá é ou não é um lugar propício pra se acabar nas lágrimas?
Se tem um lugar onde ninguém se perguntaria o motivo das minhas lágrimas, esse lugar seria num cemitério. E embora eu não me importe com pessoas se perguntando sobre a minha vida (mentira, me incomodo, mas nessa ocasião eu não me incomodei cacete), enche o saco a quantidade de olhares que não te permitem chorar em paz. Normal. Eu também notaria uma garota maluca a chorar em algum canto da cidade.


Quando a gente entra num cemitério é uma coisa esquisita, parece que quando você põe o pé lá rola um "TCHARAM!" saca? Não sei explicar. Parece que tem coisas lá que se focam em você, que notam a sua presença. Parece que tudo se volta pra você. Eu pelo menos sinto isso.
Mas ignorei o Tcharam e fui seguindo pelas ruinhas tétricas da 4ª Parada.
Inevitável não ler as lápides, mas uma em específico me deixou pior do que eu estava.
Era uma foto preta e branca, de um garoto tocando uma guitarra, e pelas contas que eu fiz ele deveria ter uns 19 ou 20 anos. Morreu acho que em 2005, algo assim, agora não lembro. Mas abaixo da foto havia a frase: "Saudades de sua mãe, de seu pai e de suas irmãs".
Chorei feito uma criança traumática.
"A gente não precisa disso" pensei.
Tudo o que eu mais queria era me acertar com meus pais, mas parece que existem pessoas com as quais você não consegue se entender nunca.
É claro que amo meus pais, e é claro que temos momentos ótimos juntos, mas os momentos tristes acabam infelizmente sendo muito intensos, e acabam deixando marcas que não podem ser esquecidas tão facilmente.
De repente eu me via lá, sozinha num cemitério, e talvez naquele dia mesmo ou no dia seguinte eu não poderia estar mais por aqui e nem eles, e aí a gente perdeu nosso tempo discutindo em vez de curtir uma vida familiar normal, substituindo momentos que poderiam ser bons por momentos ridículos como aqueles.
Pra mim, o túmulo do garoto já era o suficiente.
Saí de lá.
Foda-se se iam olhar pra minha cara de choro, ficar num cemitério cheio de adolescentes
que tocavam guitarra não adiantar muita coisa mesmo.
Segui até uma pracinha que tem lá perto e sentei num banco.
Respirei fundo.
Olhei pro céu.
Foi quando de repente passou por mim a figura que dá nome a este texto.
Uma figura terrivelmente vestida, suja e com olhos azuis dignos de inveja.
Passou por mim falando alguma coisa sozinho, esbanjando bom humor, e então me sorriu.
Acho que ele não esperava que eu fosse sorrir de volta, mas eu sorri.
Então ele caminhou mais um pouco, parou, e se virou para me olhar novamente.
-Mas o que uma menina tão linda está fazendo aqui sozinha e chorando ainda por cima?
-Estou com uns problemas em casa. Não quero voltar pra lá tão cedo.
-Mas que bobagem! Uma menina como você, que tem família, não pode pensar uma coisa dessas! Volta pra casa, conversa com seus pais!
-Não dá. Não dá pra conversar com eles.
Silêncio.
-Como é seu nome, menina?
-Thaís. O seu?
-Você pode me chamar de Bin Laden! É por causa da barba! Todo mundo aqui me conhece por Bin Laden!
-Sei. Bin Laden! - Não pude deixar de esboçar um sorriso. - Qual o seu nome verdadeiro?
-Maurício! Maurício de Carvalho! Olha aqui, eu tenho documentos viu! - no mesmo instante tirou do bolso uma porrada de papeizinhos junto ao RG. E estava lá "Maurício de Carvalho".
-Eu moro na rua, mas tenho aqui os meus documentos!
Bom, alguns minutos se passaram e eu fiquei lá trocando algumas idéias com ele, o que fez com que eu me sentisse bem melhor do que estava, me fazendo tirar uma foto mental da garota de classe média sentada num banco conversando com um mendigo de igual pra igual. O que não é sempre que se vê por aí.


Depois tive que ir embora, uma amiga iria me buscar de carro lá perto e ele não permitiu de jeito nenhum que eu fosse sozinha até a rua de cima. Fez questão de me acompanhar.
-Thaís, eu moro na rua, mas sabe que tudo tem o seu lado bom? Eu conheço tanta gente que vale a pena. Você por exemplo! Se eu estivesse na minha casa agora, eu jamais teria te conhecido.
Me despedi de Bin Laden frente ao carro da minha amiga, apresentei os dois, que ficaram falando sobre a Bíblia por quase 10 minutos. Prometi ao Bin Laden que voltaria, e alguns dias depois cumpri minha promessa, me recordando da frase que ele havia me dito antes de virar a esquina:
-Se você realmente vier me visitar, pode falar pro pessoal lá que você é amiga do Bin Laden! Se você disser isso, ninguém vai mexer com você! Todos vão te respeitar!
Naquele dia que o conheci eu sumi, minha amiga me deixou no metrô e de lá não vou dizer pra onde fui, mas eu fui e só voltei pra casa no dia seguinte umas 14h. Não, eu não
estava numa orgia com as prostitutas e os travestis.
Quando cheguei em casa, ninguém perguntou pra onde eu tinha ido, ninguém falou comigo e depois eu nem lembro o que fiz o resto da tarde.
Mas também não importa.
O que sei foi do dia em que eu voltei para vê-lo.
Quando cheguei no fundo da praça, perguntei por ele, mas ele não estava.
-Quem é você?
-Sou amiga do Bin Laden.
-Amiga? Bonita desse jeito? Novinha desse jeito?
-Onde ele está?
-Ele foi entregar uns panfletos no Cabral ("balada" lá perto) e daqui a pouco deve estar de volta. Enquanto você espera ele aí, poderia nos emprestar o celular para ligarmos pro Samu? O "fulano" lá está tendo um ataque epilético de novo.
Quando olhei pro lado, um mendigo babando se debatia no chão.
"Deus é pai" - pensei. - Mas quase dei risada ao imaginar a cara dos meus pais se me vissem parada no meio da praça rodeada de mendigos curiosos a meu respeito.
Liguei pro Samu, que veio buscar o fulano do qual não me lembro o nome, e na hora em que o estavam colocando na maca, me virei para trás, como se eu soubesse que ele estava chegando.
-Mas ela veio mesmo!!!!!
Nos abraçamos como é típico daquelas amizades especiais que a gente encontra pela vida.
-Eu trouxe um caderno. - eu disse - Você havia comentado comigo que sabia escrever poesias e eu quero que você escreva uma pra mim e assine.
Ele não acreditou.
Repetiu que era uma honra incontáveis vezes...e passou a dizer que eu era "sua rainha Ester". Ai ai.
Rainha Ester...hahaha...
De qualquer forma, é graças àquele nosso momento juntos que hoje posso mostrar à vocês isso aqui:


"Eu não posso duvidar - por Maurício de Carvalho
Se me atinge a aflição
Se o momento me é cruel
Se a dor provoca o pranto
E a tristeza tira o encanto
E escurece no meu céu
Sem saber do amanhã
Indeciso me encontrar
Se o minuto ainda vem
Mil tristezas ele tem
Eu não posso duvidar.
Não duvido pois eu sei
Que Jesus meu grande Rei
Ele está sempre a me proteger
Ele está sempre a me guardar
por maior que seja a prova
Minha fé mais se renova
Com Jesus hei de vencer
Eu não posso duvidar".


Muito bem escrito, lembrando do detalhe que ele é mendigo e não deve ter estudado muito. Na verdade, eu achei essa poesia linda.
Bom, resumindo a história, senão vai ficar muito grande...
Naquele dia ele me acompanhou até a Avenida que eu teria que atravessar pra voltar pra casa, e quando havia atravessado a primeira rua, eu me virei, mandei um beijo, e com as mãos ele fez um coração no ar.
Depois daquele dia ainda voltei algumas vezes.
Uma vez voltei e ele estava dormindo. Daria uma fotografia bonita. Eu lembro que ele estava bem rosa enquanto sonhava.
Outra vez voltei com uma amiga minha, e ele fez questão de pagar uma tubaína pra gente no bar.
Desta vez ele estava bebaço. E isso me fez lembrar agora de uma circunstância onde eu havia perguntado o motivo de ele beber tanto. Mas é óbvio que eu já deveria ter adivinhado. Qual é o único motivo que leva a beber uma pessoa nessas condições?

"Bebo pra esquecer que eu existo".

E foi com ele bebaço daquele jeito que a gente descobriu que já faz alguns anos, ele foi internado numa clínica psiquiátrica por ter esquartejado não sei quem, mas diz ele que a pessoa queria fazer mal à ele. Vai saber. Aí ele cumpriu uns anos e depois saiu.
Foi nesse mesmo dia que ele tentou pegar no meu peito e perguntou se eu e minha amiga nos depilávamos.
-Ah um pouco a gente tira né, senão vira a Amazônia. (Thaís eu não acredito que você me trouxe aqui pra contar sobre detalhes da minha xana pra um mendigo) - sussurrou ela.
-Como eu ia saber que ele ia perguntar da nossa depilação, filha?


Tudo bem, tudo bem. Ele poderia nos esquartejar se quisesse? Podia!
Ele poderia nos estuprar? Podia!
Ele poderia nos perseguir? Podia!
Mas a situação foi tão ridícula que chegou a ser engraçada, mas séria o suficiente pra eu não voltar mais lá, afinal, se dessa vez ele havia perguntado da minha depilação e tentado pegar no meu peito, da próxima vez ele me traria cera depilatória e camisinhas!
Não voltei lá. Se eu tivesse noção de que o mesmo cara das poesias poderia me esquartejar um dia caso eu negasse fogo...
Bom...Hoje, mais de um ano depois, eu fico pensando nessa história me achando um pouco bizarra e sem noção.
Mas fazer o que?
Eu sou um pouco bizarra e sem noção.
Alguns nascem bem humorados, outros nascem de mal humor, outros nascem com o dom de ser padre, outros nascem um pouco bizarros e sem noção...outros nascem completamente bizarros e sem noção.
Se bem que, perto de muita gente eu não passo de uma ovelha comum no meio do rebanho.
Tem gente que diz que eu sou completamente sem juízo. O meu ex namorado (namorado naquela época, se bem que fiquei tão pouco tempo com ele que nem deveria considerar aquilo um namoro), havia achado minha atitude linda. "Oh que amor, ela faz amizades com mendigos". Mas o que esperar de um estudante de teatro que adora analisar pessoas do nada, e que chegou a conclusão através do meu olhar, que eu era capaz de carregar ódio em meu coração, só porque eu estava seriamente comendo uma esfiha de carne? Affe como tem gente que adora uma seção psicanálise. Saca? Gente que curte analisar os outros e chega às conclusões mais absurdas através das coisas mais bestas, nos momentos mais inoportunos?
FILHO EU TAVA OLHANDO A ESFIHA QUE EU TAVA COMENDO, NÃO TAVA ODIANDO A HUMANIDADE! Meeeuuu, da onde você tirou isso, cara?
Pronto! Isso tava entalado.
Bom, mas a questão é que eu não saio por aí fazendo amizade com mendigos (assim como não saio fazendo amizade com qualquer pessoa) metida à "Garota-Caridade" como ele deve ter pensado. Tampouco acho que são pessoas "especiais" como acham alguns metidos à Nossa Senhora. Tipo...mendigos são mendigos, padeiros são padeiros, crianças são crianças, ornitorrincos são ornitorrincos.
Maaaaas....cada pessoa tem sua peculiaridade. Alguns acham lindo garotas que usam minissaia. Outros, ficam babando numa loura de cabelos compridos. Uns preferem mulatas que usam decote, e outros, preferem garotas que curtem mendigos. Quer dizer, na cabeça dele, eu curtia mendigos.
Não é porque você come açaí com ovo uma vez que você sempre comeu e sempre vai comer. Se numa circunstância você quiser comer ou a situação pedir que você coma, você vai comer...ou não vai. Mas enfim.
Já meu atual namorado quando soube da história, fez questão de arrastar seu queixo pelo chão, dizendo que tudo foi um absurdo e que "como eu pude deixar um mendigo dizer essas coisas pra mim e ainda passar a mão no meu rosto e me pedir em casamento, não prometendo sexo por ser broxa mas tudo bem, por que a língua ainda funcionava?"
Tá, eu concordo com ele, mas como raios eu ia adivinhar que o velho ia me dizer esse monte de merda? Vai trouxa, fica dando trela pra mendigo!.
A história é bizonha. Ponto! E talvez eu não tenha mesmo noção da realidade, ou talvez eu tenha mais noção da realidade do que a maioria das pessoas. Talvez todo mundo seja muito acostumado com as coisas e eu não, talvez seja o contrário, mas às vezes eu tenho ataques de "e por que não?" e acabo fazendo umas coisas malucas que ao meu ver não são. A questão é que (voltando ao assunto), querendo ou não, Bin Laden pode ser um amor de pessoa e escrever livros de poesias incríveis (que ele lembra tudo de cabeça), mas não está lá porque é santo. Pra maioria das pessoas é muito óbvio o motivo pelo qual a maioria delas não dá trela pra mendigos...mesmo porque, elas evitam pessoas que falam sozinhas, dançam sozinhas, dão risada sozinhas e fedem. Para muitos, mendigos são sinal de audiência no Youtube, para outros, são a escória da cidade. Pra mim nada em relação a eles era óbvio, a não ser o básico, afinal, "por que não?" Afinal, são seres humanos como eu. Aliás, ainda me resta alguma parte da essência teatral que diz que se deve respeitar as pessoas independente de quem sejam e da essência aquariana que não tem tabus em fazer amizade com qualquer pessoa (desde que não façam coisas que fujam muito dos meus princípios).Mas pra maioria das pessoas é óbvio um monte de coisa, a questão é que muitas delas não fazem algumas coisas simplesmente porque não fazem, porque dizem pra não fazer, porque são acostumadas a não fazer. Eu sou assim, todos são assim. Inclusive já melhorei muito, eu já fiz coisas muito ridículas ao longo da minha vida e já agi feito uma completa retardada só por querer ser diferente e fazer o que ninguém fazia.
Hoje não preciso disso (não muito), só quando a síndrome do "e por que não" fala mais alto do que minhas boas maneiras.
Em algumas ocasiões eu "prefiro métodos empíricos" mesmo, o que faz com que por mais que eu seja meio sonsa em relação a isso, pelo menos tenho algumas histórias como essa pra contar. Isso porque esse texto é só um resumo, ainda há muito mais coisas que eu poderia contar aqui. Poderia contar dos mendigos que conheci, que lembro o nome da maioria deles, poderia falar que o cachorro do Bin Laden chamava Mortadela e tinha mais uns dois ou três que não me lembro o nome. Poderia falar aqui do mendigo que chamava Marcelo, que andava com uma muleta e tinha incendiado a própria casa. Poderia falar que uma semana antes de conhecer o Bin Laden, um dos amigos dele havia morrido doente lá na praça. Poderia falar que Bin Laden catava papelão na rua pra conseguir comprar algumas comidas pra ele e pros amigos. Poderia falar que um dos mendigos achou que eu era de alguma comunidade católica e me pediu uma calça nova. Poderia falar que tem mais uma poesia linda que o Bin Laden me escreveu, mas eu deixei o papel lá em casa. Poderia falar que eu decorei a poesia lá em cima que digitei pra vocês lerem e em uma das vezes que eu o visitei, eu recitei a poesia pra ele sem ler e ele morreu de orgulho e se sentiu importante.


Poderia dizer que essa história toda vai ficar na minha cabeça pro resto da vida. E quando eu for uma velha caquética, em vez de contar pros meus netos o que "aprontei quando jovem" tipo aquele texto que fala "ah o verão é a estação da perdição e tudo o que acontece no verão é o que você vai contar pro seus netos", enquanto todo mundo vai contar sobre os porres que deu na praia, os namorados escondidos, eu vou contar sobre a minha amizade com mendigos que esquartejavam pessoas e escreviam poesias.
Eu dou risada de lembrar do Bin Laden que me disse um monte de pornografia, tenho medo do Bin Laden que esquarteja pessoas no passado, mas o Bin Laden que sentou ao meu lado pra conversar num banco qualquer da cidade, e que escreveu uma linda poesia no meu caderno, eu lembro com uma ternura quase surreal, como se ele não existisse.
E lembrar dele, me dá ainda mais a impressão de que se minha vida fosse um livro e eu fosse uma leitora qualquer, esse ia ser um capítulo que eu jamais esqueceria.
Na verdade, se isso fosse um livro mesmo, eu seria a moça que teve uma leal amizade
com o mendigo pro resto da vida, e ele a ensinou as coisas simples e de valor e ambos cultivaram momentos mágicos de amizade.
Mas não, na realidade, a maioria dos mendigos quer comer a garotinha bonitinha de 20 e poucos que caiu de pára quedas na vida deles por alguma circunstância, ainda mais se essa mocinha se perguntar "e por que não ter uma amizade com um mendigo?"
Aí já era! Bora ser esquartejado!
Por que quem esquarteja uma vez, esquarteja outra né.
Vai que ele me pedisse 1 real um dia que estivesse bêbado e eu não tivesse?
Hoje minha vida poderia estar em pedaços...literalmente.
Eu sou uma garota esquisita, convenhamos.
Mesmo porque, muitas vezes "os que dançavam, foram considerados insanos por aqueles que não ouviam a música".
E eu estou sempre dançando por aí
Mas como todo ser humano comum, não é toda música que escuto, e também já cansei de ver gente dançando no silêncio.
Afinal, por mais peculiaridades absurdas que tenhamos, todos temos um ponto em comum, porque o clichê está corretíssimo em dizer que de perto
Ninguém é normal.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Tristeza social

Aconteceu ontem. Uma menina potencialmente inteligente, do alto dos seus vinte e poucos anos, numa aula qualquer sobre políticas públicas, falou umas frases defendendo o uso do "caveirão" (carro de guerra blindado do Batalhão de Operações Policiais Especiais, da PMRJ). Deu briga.

A aula era sobre cidadania, políticas públicas, quais melhoras já ocorreram, quais precisam ocorrer, pelo prisma governamental, com base na nossa constituição e suas diversas manifestações (organizações regionais e estaduais). E surgiu um assunto muito bacana chamado "criminalização da pobreza". Basicamente ele coloca toda a farinha no mesmo saco, ou seja, se é pobre é ladrão e traficante. Um sociólogo percebeu que isso está ultrapassando fronteiras e se tornando um preconceito de todos, demonstrado em atos diários como a não contratação de pessoas que moram em lugares perigosos (isso vem acontecendo muito no RJ). E aí chegamos no assunto violência gerando violência, e sei lá porquê motivo alguém mencionou o Caveirão.

Antes da discussão, alguns fatos: somente 3% da população é considerada por especialistas como psicopatas ou sociopatas, ou seja, pessoas que fazem de tudo para satisfazer seus prazeres sem sentirem culpa ou remorso genuínos. Essas pessoas não têm tratamento, precisam mesmo ficar isoladas da sociedade. Porém, os outros 97% dos criminosos, está no crime por pura contingência: foi mais fácil esse caminho, ou ainda, a outra opção estava muito distante. Posto isso, podemos constatar que numa sociedade bacana que os provessem de oportunidades, 97% dos criminosos teriam recuperação.

Voltando à briga, o senso comum se manifestou através dessa menina, que disse as frases básicas que já ouvi de muita gente por aí: "tem que matar todo mundo e começar de novo mesmo", "violência tem que ser punida", "ladrão tem mesmo que morrer" e "os fins justificam os meios". Quando questionada se ela não achava que a violência deveriaser olhada pelo prisma da causa (desemprego, fome, desespero social) e não da consequência (crimes em sí), ela respondeu: "política social leva muito tempo pra acontecer, precisamos punir enquanto isso".

O que ela não percebe - e toda a nossa sociedade que pensa assim também não percebe - é que desde SEMPRE a política social demora. Ou seja, ela NUNCA funcionou. E provavelmente nunca vai funcionar. Mas, ao invés de discutir o porquê disso, ficamos discutindo se é certo ou não policial blindar um carro e disparar 140 tiros por minuto contra a sociedade, composta de criminosos E de inocentes.

A metáfora é a seguinte: vamos num supermercado (que neste caso representa o governo), damos dinheiro a ele, pagamos por um produto que o supermercado teria condições de nos dar, porém ele nos diz: então fulano, não vou te entregar o produto agora e não sei quando te entregarei. E aí, nós, acostumados que estamos com isto, aceitamos a falha do supermercado e vamos brigar entre nós por comida. Nos matamos por algo que deveríamos exigir lá do supermercado.

Nunca discutimos os motivos pelos quais as políticas públicas não funcionam. Discutimos a morte, o caos. Mas não os motivos. Culpa do pão e circo, culpa das pessoas que mandam no sistema, burguesia que domina não só a política, mas os meios de comunicação e as empresas de bem de consumo. Por causa desse sistema, não é muito lucrativo acabar com a seca do nordeste, com a educação precária. Pra quê munir as pessoas de arma contra essa mesma burguesia? Mas também, culpa das pessoas que poderiam ver a situação como ela é, e decidem continuar cegas, mesmo depois de uma discussão como essa que aconteceu em sala de aula.

A pergunta que ficou e não teve resposta: porquê então não usamos o Caveirão lá no Morumbi, nas casas ricas, se lá naquele bairro também estão os traficantes?