terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Os Espinhos da Rosa Luíza.

À Luíza (obviamente).


A idéia da velhice assusta? Ah, sim...assusta! Por mais que sejamos jovens, alegres, de bem com a vida e possamos afirmar que a velhice trará sabedoria e que, lá pelos setenta anos, estaremos ainda cheios de energia, se pararmos pra pensar, a velhice assusta!
Conheci tantos idosos que traziam no olhar um brilho indescritível, e tantos outros que neles carregavam a amargura de verem os seus corpos resumirem-se a amontoados de matéria gasta, enquanto a vida e a juventude da alma eram a mesma de muitos anos atrás. Pela tristeza de verem a virilidade de seus corpos se esvaindo, tornaram-se tristes e frustrados, verdadeiros ranzinzas e mal-humorados.

Um exemplo de que a velhice assusta pode ser expressado na frase que minha avó deixou escapar sábado passado, no metrô. Ah, dona Lola, uma das pessoas que mais admiro! Eu nunca quis ser alguém além de mim mesma, nem quis ser parecida com quem quer que seja. Nunca invejei qualquer outra pessoa por ter coisas que eu não tenho, ou ser algo que não sou. Mas a minha avó Luíza, a Dona Lola... Ah, com ela eu quero parecer com ela quando tiver meus setenta anos de idade. Ou melhor, setenta e dois. Essa é sua idade, mas quase sempre vejo em seus olhos o olhar de menina que ainda brinca de pular corda na rua e ver o bonde passar na Avenida. Olhar de garota nova que se deslumbra com o abrir das rosas na primavera e faz quase parar o tempo quando o assunto é um céu azul isento de nuvens, iluminado por um sol esplendoroso.
Dona Lola! Quem não gosta dela no bairro da Mooca? Idosa? Sim. Seria hipocrisia dizer que não. Mas velha, nunca! De pele gasta, mas de alma quase recém-nascida. Alma que se deslumbra feito criança, mas que carrega em si a sabedoria do tempo e da natureza.

Ah, Luíza, que sábado chega aqui em casa sem aquele sorriso costumeiro nos lábios e sem a alegria espontânea de contagiar até mesmo uma pedra. Luíza, que rumo ao metrô me fez uma observação, a de que não precisa mais pegar fila para comprar passes por já fazer parte da terceira idade.“Isso que é vida, heim?!”, comentei, e ela me respondeu com uma amargura na voz, de um jeito que nunca presenciei em meus tão poucos anos de vida: “É, ser velha tinha que ter uma vantagem. Pra alguma coisa devemos servir”. Demorei para assimilar a frase à pessoa. Aquele ser humano admirável, otimista sempre, com orgulho de cada ruga e cada marca de expressão no rosto, que fazia sempre delas um propósito para viver melhor e sem preocupações, julgando sempre o tempo que lhe resta como o mais precioso possível, agora me dizia indiretamente que velhos não servem para nada, e que a única vantagem que possuem é a de não pegarem filas para os passes de metrô.

Passado meu estado de choque, meus olhos se encheram de lágrimas e pensei: É cruel. Cruel querer correr por um mundo que é nosso e não ter forças nas pernas. Cruel querer abraçar o globo terrestre tendo os braços fracos demais. Cruel querer dançar mais do que o possível, mas ter de se limitar na imensidão de um espaço gigante porque o coração não agüenta. Cruel não poder esbarrar mais forte em algo porque a pele de tão gasta, sangra! E o coração sangra mais ainda ao tentar se acostumar ao fato de que o tempo passa e a gente passa junto com ele, e não há corda e nem força que nos prenda aqui, no dia de hoje, e que o presente, infelizmente, em um segundo já é passado.

Como seres humanos, não estamos imunes a isso. Augusto dos Anjos disse em um de seus poemas cruéis e fatídicos, porém assumidamente realista:
“Agora, sim! Vamos morrer reunidos, Tamarindo de minha desventura, Tu, com o envelhecimento da nervura, Eu, com o envelhecimento dos tecidos!”
Sempre pensei que minha avó não merecia fazer parte desta estrofe. Mas, por mais triste que seja, a elasticidade da pele outrora jovem agora é tomada pela flacidez da pele vulnerável a qualquer esbarrão. E amanhã, inevitavelmente, todos nós seremos assim. Mas dona Lola não se deixa derrubar por momentos pessimistas de amarga reflexão. Ela sente o coração apertar, mas não apenas se conforma, e sim continua seguindo seu caminho com a cabeça erguida, nunca desprezando a beleza de um fim de tarde e o milagre do ar em seus pulmões. Mais ativa que eu, com seus setenta e dois anos de idade, viajou com a terceira idade muito mais do que muitos jovens e agüenta uma seção de hidroginástica toda semana, muito mais que muitas pessoas conseguem fazer.

Toda rosa mostra-se sensível, frágil e bela. Possui espinhos para se defender, mostrando-se imponente, provando a todos que fragilidade não significa fraqueza. Naquele sábado, vi que dona Lola continua sensível, bela e cada vez mais frágil, e embora infelizmente o tempo não a prive do envelhecimento da nervura e de seus tecidos, e, infelizmente, por conta disso, vez ou outra um espinho seu torna-se fraco e tende a cair, posso observar que a diferença entre ela e uma rosa é que a fortaleza dos espinhos está na sabedoria de seu olhar. Por mais que, por alguns instantes, ela se lembre do tempo que passou e venha a lamentar isso vez ou outra, por mais que uma gota d’água tente apagar a chama da vivacidade que ela carrega dentro da alma, é este o motivo pelo qual eu quero tanto ser parecida com ela, e o motivo pelo qual, além de ser neta, sou uma grande fã: Ainda está para nascer a pessoa que conseguirá arrancar os espinhos desta rosa chamada Luíza.

8 Comments:

Thaty said...

Ai ai, sabe que eu pensei em escrever um texto sobre meu avô? Achei lindo demais esse texto. Transbordando amor!

Adorei!

shelton said...

oi meu nome e shelton sou fãn da sua criatividade hey eu to no teu orkut mas tu tem de me aceitar denovo sou eu o garoto do blogspot lembra? ah so pra tu lembrar cismei de uma foto tua que tu tava com um macacao e um litro de cachaça,o noia doida,kkk

hey me add lá garotinha

vleu

ah quanto a velhice acho que foi por isso que kurt cobain morreu jovem pra ser sempre lembrado como? jovem o buricie da merda devia ter feito isso aos 35...

bigadu me add viu to esperando

so pra constar

www.sheltontristania.blogspot.com.br

o quarto das cinzas said...

hauhuahah o doidera errei o meu endereço é asim oh

www.sheltontristania.blogspot.com

tudo de bom :):):)

e o sanatorio como tá????

Claudio said...

Muito legal estes espaços em que ocorre a blogagem coletiva. Sonho participar de uma comunidade dessas.
A velhice é uma incógnita. Não sabemos o que esperar dela. Nem podemos prever como vamos reagir a ela.
Kisses

http://oucabem.zip.net

Déborah Capel; said...

Oie!
Nossa Feliz Ano Novo para toodas vocês do chá de tharântulas!
Incrível, hoje li textos em 3 blogs que falavam sobre a velhice e acho tão lindo quando chegam a uma certa idade tendo desposição não ´so para ficarem sentados no sofá vendo raul gil.
;*

Thais said...

sua vó é uma pessoa muito especial e são pessoas assim que não me deixam ter medo da velhice...é só mais uma fase da vida e temos que curtir a sua maneira.

bjos tha

Déborah Capel; said...

Eu também Thaís, tem que haver eu alguém pra gente falar e essa pessoa creio eu, tem que ser justamente aquele que você escolheu pra passar o resto da vida.
Só não dá certo escolher várias pessoas pra o mesmo posto e também falar com uma maldade.
;*

Julianna said...

Ameeei o texto.
Parabéns e um ótimo 2008 para as três Thá.