quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Censura

A menina estava lá, dentro do restaurante tailandês chique do hotel, pulando e rodando, de braços abertos e olhando pro teto. Ela era criança e ninguém estava dando a mínima, com exceção de mim e da minha inveja adulta, claro. Era permitido a ela se mostrar feliz daquela maneira, porque ela estava com a mãe, com o que pareceu ser uma amiga da mãe e com seu irmãozinho, prestes a comemorar uma noite mágica de Ano Novo ao redor da piscina de 2 km de comprimento, iluminada e enfeitada, com música e diversão, junto daquelas pessoas que faziam fila para ir ao bar pegar uma bebida randomicamente. A mim, só fora permitido dar esses pulos num imenso jardim onde poucas pessoas me olhavam, perto da praia, bem descontraidamente, ao chegar nesse lugar mágico.

E eu só a observava. Dois dias depois, mal sabia que eu teria que me conter dentro de um surto que seria completamente justificado, se tivesse acontecido: um senhor mexicano, com o nariz sangrando, decidiu, no meio de uma multidão em um local turístico, não utilizar um lenço de papel. Ele jogou três pingos de sangue no MEU braço. Não me perguntem o motivo. Não pude fazer o que eu queria, que era dar um soco na cara dele gritando coisas que ele merecia ouvir, depois chamar a polícia e logo depois ir me lavar. Tive que me contentar em ficar dez minutos procurando um banheiro pra me lavar, enquanto ele se perdia na multidão. E logo depois não poder chorar de medo de pegar qualquer doença - medo esse injustificado porque meu braço estava intacto, me disseram as amigas profissionais de saúde - porque eu já disse, era injustificado. Aquele homem tosco quis me mostrar que não existe perfeição nem dentro da perfeição. E a vida continuou.

Aqui atrás do computador, onde eu passo 90% do tempo da minha vida, longe de São Paulo e da civilização, eliminaram completamente qualquer contato via internet com o mundo pessoal das pessoas (sim). Eles tratam a regra pela exceção: ao invés de punir quem passa o dia inteiro em sites e não trabalha, eles punem a grande maioria que só quer trocar três emails por dia com quem quer que seja que não pertence a esse mundo. Censura, mesmo que justificada por um contratinho onde se lê: política de uso da internet.

E eu fiquei pensando em todas as situações onde a gente se barra, se impede. De reagir, de ousar, de ser diferente. Isso tudo é uma ilusão e a gente está completamente adaptado a ela, com as nossas pseudo regras de comportamento e de convivência social. Não estou falando de leis, de organização pública, estou falando do que silenciosamente criamos pra nossas vidas. Vocês me diriam que o caos se instalaria, sem essas regrinhas. Eu responderia que a gente já vive num caos, físico e emocional, privado e público. Alguém discorda?

5 Comments:

Thaty said...

Concordo! Nesse momento gostaria de gritar MUITO!
;~

.marionete. said...

Sem possibilidades de discordar. Algumas privações que nos impomos são simplesmente mais que frustrantes, são castradoras e cruéis. Mas a sociedade exige e a gente cumpre, fazer o que? Reagir, você vai? Porque eu não sei se consigo...

=**

Mulher do Padeiro said...

Opa se concordo!!

Mas não reclama... você ainda tá de fériaaaas!!

Hehehe, volta logo, o quiosque não é o mesmo sem você.

Beijo!

Mary West said...

Destesto me sentir reprimida.

bruno said...

De fato, vivemos num caos, mas a ilusão de segurança e establidade consegue escravisar a esperança e o espírito de mudança de grande parte das pessoas. Afinal, por mais esforço que se faça para se libertar de comportamentos impostos, de limites que de fato não existem, sempre vamos nos deparar com opiniões contrárias. Até aí suave, afinal, que se foda a opinião alheia, mas como reagir quando as pessoas mais próximas te oprimem sem que eles mesmos percebam????? Não é toa que uma porrada de vezes, a atitude certa é um puta transtorno. Enquanto a atitude aceita por todos, apesar de ser uma merda, de levar a frustrações, a desencontros desequilíbrio, quase não exige esforço. Penso que na época de posturas vazias e infelicidade disfarçada de fórmula do sucesso, ultrapassar a cerca que circunda essa merda é de fato um m,otivo de puta orgulho.
abraço